Clima e solo

A—Clima

São por de mais notaveis as diversidades existentes nas especies vegetaes que habitam a superficie da terra.

Estas diversidades que se observam dentro da mesma propriedade e que augmentam de propriedade para propriedade e de um paiz para outro, accentuam-se extraordinariamente quando comparamos a flora de dois continentes.

A estructura, composição chimica do solo e o clima são as causas principaes d'esta accidentada vegetação.

Cada planta tem as suas exigencias especiaes, de cujo conhecimento resulta a determinação da zona de terreno em que cada especie encontra condições favoraveis de vida.

Conhecida a zona propria para a vida de cada planta, ou melhor, conhecidas as especies culturaes adaptaveis a uma determinada zona de terreno, poder-se-ha emprehender uma exploração agricola mais segura dos seus resultados do que se a completa ignorancia da geographia botanica nos obrigasse a emprehender ao acaso essa exploração.

Só um grande esforço, que acarretaria despezas enormes, pode permittir que se desvie uma planta do seu habitat natural, para, por processos artificiaes, obter d'ella eguaes productos.

É isto que se faz em varios paizes da Europa, como por exemplo em Inglaterra, onde em estufas apropriadas se força a videira a produzir. Depois, no mercado, a muita procura alliada á raridade do producto, remunerará condignamente o esforço e a despeza do industrial.{7}

Plantas ha que, mais modestas nas suas exigencias, podem vegetar nos sitios menos favorecidos pela natureza. São estas as plantas herbaceas expontaneas, as quaes se vêm vegetar em sitios onde é vedado o desenvolvimento ás plantas arboreas ou arbustivas.

Outras, porém, e n'este grupo entra uma grande parte das plantas cultivadas, não se contentando com as minguadas exigencias d'aquellas, tornam mais limitada a zona em que a vida lhes é favoravel.

As especies arboreas, pela sua constituição robusta e pelo seu grande desenvolvimento radicular, accommodam-se em sitios onde as culturas arvenses não poderiam ter logar.

O nosso paiz, pela sua accidentação e variedade da sua paizagem, está naturalmente indicado mais para aquellas do que para estas culturas.

A oliveira, arvore cuja cultura é tão remuneradora, aqui encontra condições muito favoraveis de vida.

As boas condições do nosso clima, alliadas á estructura do solo que lhe é propria, collocam-nos em condições de por toda a parte disseminarmos a sua cultura, augmentando a producção que até hoje tem sido muito diminuta.

A oliveira exige, para poder prosperar e produzir, uma temperatura branda e pouco variavel.

A area destinada á sua cultura vae, segundo Gasparin, até aos 46° de latitude N. e ao sul é limitada pelo Tropico.

Outros auctores, porém, limitam mais a area indicada por Gasparin.

De-Noisette, por exemplo, dá-lhe como zona propria a comprehendida entre 25° e 43° de latitude boreal. Para lá de 46° a oliveira cresce, mas é muito raro amadurecer os seus fructos; á medida que formos caminhando para o equador, esta arvore vae augmentando de volume, mas de 18° para baixo dá-se o mesmo caso que para cima de 46°.{8}

Os calores intensos e os frios excessivos prejudicam altamente a vida d'esta arvore; e não tanto os frios intensos como as mudanças bruscas de temperatura n'ella exercem a sua nefasta influencia.

Tem-se visto estas arvores supportarem, sem alteração sensivel nas suas funcções, uma temperatura de -16° C., ao passo que são accommettidas por uma morte rapida quando, depois de terem estado por algum tempo submettidas á temperatura de -5°, são banhadas rapidamente por um sol claro e intenso.

Procurar, portanto, os logares em que a temperatura seja pouco variavel, será pratica prudente e vantajosa.

Alguns querem até estabelecer a visinhança dos mares como unico solar onde esta preciosa arvore encontraria condições confortaveis de vida, por ser ahi onde a temperatura é mais estavel; a pratica, porém, destroe tal asserção, pois que no interior dos continentes ella se vê desenvolver e fructificar admiravelmente.

Para determinarmos se uma dada região é ou não propria para esta cultura, é de summa importancia o conhecimento das temperaturas maxima e minima; nunca nos devemos guiar só pelo conhecimento da sua temperatura media.

É sabido que para a completa maturação do fructo, a oliveira exige um total 3978° de calor; mas sitios ha em que esse numero de graus se obtem igualmente, embora as temperaturas extremas divirjam muito. Se considerarmos dois logares, n'um dos quaes as temperaturas minima e maxima sejam a e b, e no outro a-c e b+c, elles terão as mesmas temperaturas medias e comtudo pode ser impossivel a olivicultura no segundo e muito adaptada ao primeiro; depende isso simplesmente do valor de c.

Estes inconvenientes conseguem remediar-se procurando exposições em harmonia com o clima local.{9}

A exposição e inclinação do terreno são duas questões de summa importancia para este assumpto. Em um clima demasiadamente quente, pode convir uma exposição que seria prejudicial em outro que não tivesse a mesma propriedade.

No nosso paiz a exposição ao sul é a mais conveniente, a não ser n'um ou n'outro ponto em que o calor excessivo do verão e a pequena percentagem de humidade nos terrenos, aconselhem inclinação differente. Nos sitios onde são frequentes as geadas, nunca a exposição a Levante pode convir, porque a planta que durante a noite esteve submettida a um frio intenso, soffre muito ao receber rapidamente os matutinos raios solares. O desgelo seria rapido e a sua influencia na vida das cellulas prejudicial.

Em resumo, aconselharei a exposição ao meio dia, como a que mais geralmente convem, sendo muito para adoptar tambem a exposição ao poente.

Quanto á inclinação, é preferível a meia encosta porque n'ella se somma maior numero de graus de calor do que nos terrenos de planicie, se os considerarmos collocados nas mesmas condições de altitude, latitude e composição.

A pratica tem provado que, embora as oliveiras vegetem e fructifiquem perfeitamente nas planicies, o azeite extraindo dos seus fructos é mais grosso, de peior qualidade, e que estes no acto da expremidura desprendem muito mais almofeira do que os fructos provenientes de oliveiras cultivadas nas encostas.

Não ha vantagem em cultivar a oliveira em terrenos demasiadamente inclinados, porque ahi são impossiveis as lavouras mechanicas, tendo este trabalho de ser feito a braço, o que augmenta muito a despeza.

A este inconveniente junta-se ainda o da terra ser arrastada da parte superior para o fundo da encosta, resultando d'aqui que o solo se vae tornando{10} cada vez menos profundo á medida que vamos subindo na encosta.

Este inconveniente observa-se facilmente pelo simples aspecto da plantação. As arvores da base alcançam maior e mais rapido desenvolvimento graças á espessura do solo, successivamente augmentado pela terra deslocada da parte superior.

O sr. D. José de Hidalgo Tablada dá como limite de inclinação para as terras trabalhadas com arado a inclinação de 6%. Para maiores inclinações convirá fazer a cultura em sucalcos.

B—Solo

A oliveira é tida como uma planta que vegeta em todos os terrenos qualquer que seja a sua contextura ou a sua composição chimica.

Effectivamente ella vive por toda a parte povoando terrenos da mais differente structura, e ainda n'aquelles em que muitas outras arvores não encontram condições favoraveis, ella se mostra com aspecto regular. Muitas vezes os maus tratos dos homens e a sua exposição aos frios e aos ventos fortes são-lhe mais prejudiciaes do que as más qualidades do terreno.

Então essas arvores cuja resistencia ás más qualidades do terreno, só por si, não conseguiram destruir, cede, embora lentamente, á combinação d'ellas com os maleficios provenientes da velhice e dos maus tractos, e o seu tronco, minado internamente pela alteração dos seus tecidos, vae desapparecendo, apresentando-se frequentemente reduzido a uma debil parede formada apenas pela casca e pelas primeiras camadas do alburno.

A custo este debil tronco vae mantendo em equilibrio o decrepito individuo, até que um dia o vento ou qualquer outro agente se encarregue de o prostrar por uma vez.

Este tronco ao desapparecer não arrasta comsigo{11} as ultimas manifestações de vida do individuo de que fazia parte.

Dentro em pouco, da parte mais superficial das suas raizes, e da sua toiça ver-se-hão surgir novos rebentos que o virão substituir.

Estes casos que são muito frequentes mesmo nos peiores terrenos não significam que seja indiferente destinar este ou aquelle terreno á cultura d'esta arvore.

Embora possa viver em toda a area que lhe foi destinada ella tem comtudo, dentro d'essa area, preferencia por determinados terrenos, e á sua boa vegetação e sobre tudo á qualidade e quantidade do fructo importa muito a escolha do solo destinado ao olival.

Os terrenos francos e soltos permeaveis e medianamente ferteis, fundos e frescos são os que mais lhe convêm. Prejudicam-a bestante os terrenos humidos e os demasiadamente seccos.

São os terrenos calcareo-silico-argillosos os que melhor satisfazem a estas condições. Prestam-se muito a esta cultura os terrenos pedregosos onde ella encontre terra bastante para o desenvolvimento das suas raizes no principio da sua vida.

De grande importancia n'esta questão é a qualidade do sub-solo; este pode tornar muitas vezes impossivel a cultura d'um terreno cujas boas qualidades de solo parecessem as mais proprias para a vida vegetal.

Os terrenos de sub-solo impermeavel são muito desfavoraveis á cultura da oliveira a não ser que sejam submettidos a uma drenagem. Este inconveniente trazido ao terreno pela impermeabilidade do seu sub-solo é em parte attenuado nos terrenos inclinados porque n'elles é menor a infiltração das aguas e mais facil o seu escorrimento á superfície do seu sub-solo.

Quanto ás condições chimicas do terreno, é d'ellas{12} que mais depende a vegetação e producção da oliveira assim, como o rendimento e qualidade do azeite. O augmento de producção de uma dada planta consegue-se muitas vezes pelo augmento na terra de um só dos elementos indispensaveis á vida vegetal; outras vezes, e pelo mesmo processo, se pode fazer reviver uma cultura que a muitos o seu aspecto poderia fazer imaginar perdida.

Das analyses feitas por varios chimicos sabe-se que a oliveira apresenta no seu todo, quantidades elevadas de cal, potassa e acido phosphorico. Ora, como é indubitavelmente do terreno que a planta extrahe todos estes principios, necessario se torna que elles se encontrem nos terrenos destinados a essa cultura. Os nossos terrenos são bastante ricos em acido phosphorico dispensando-nos por isso de nos preoccuparmos muito com elle. O que convem é attender mais ás percentagens de cal e de potassa por serem estes corpos os de mais incerta existencia no terreno.

São-lhe muito favoraveis os terrenos vulcanicos, graniticos, schistosos e sobre tudo os calcareos.

N'estes ultimos vegeta a oliveira admiravelmente mas o seu azeite é muito gordo. É nos terrenos de fraca tenacidade, onde as oliveiras dão os oleos mais finos; nos de grés os azeites são de mediana qualidade; e nos schistosos e graniticos a oliveira produz fructos de que exsuda o azeite mais superior.