Plantação definitiva

Disse já no capitulo I d'este trabalho quaes eram as condicções de solo e clima exigidas pela cultura da oliveira.

Escolhido o terreno é necessario preparal-o para elle poder receber as arvores que dentro em pouco constituirão o olival.

Conviria que esse terreno fosse submettido a uma profunda surriba para que todo elle fosse collocado nas mesmas condicções de mobilisação. D'esta maneira a planta, encontrando sempre um terreno homogeneo não estaria sujeita a qualquer accidente de vegetação proveniente da desigualdade no desenvolvimento das suas raizes.

Se o terreno for demasiadamente humido dever-se-lhe hia fazer uma drainagem para o subtrair a esta má propriedade.

Estas duas operações, porem, tornariam excessivamente dispendiosa tal plantação, e d'aqui nasce a conveniencia de as reduzirmos o mais possivel, de tal modo que, obtendo-se no terreno condicções sufficientes para um regular desenvolvimento das plantas, se reduza o mais possivel a despeza da mão d'obra.

O melhor será destinar a outras culturas os terrenos que só soffrendo uma boa drainagem e uma profunda surriba, se tornariam aptos para o desenvolvimento d'esta preciosa arvore.

Nos terrenos fundos e bem mobilisados que, como disse, são os mais proprios para estas culturas, estas operações de drainagem e de surriba geral reduzem-se extraordinariamente.

Para se fazer a plantação n'estes terrenos fazem-se em primeiro logar os alinhamentos, que convem sejam em quinconcio, pelas vantagens já enumeradas ao tratar dos viveiros. A distancia a que as plantas devem ficar umas das outras nunca deverá ser inferior{41} a 5m sendo de 8m a distancia mais recommendada.

Com esta distancia as oliveiras não se prejudicarão mutuamente nem por causa da sombra que umas ás outras possam fazer nem porque a cada uma d'ellas falte espaço para distender as suas raizes.

Convem, comtudo, advertir que em terrenos pouco fundos devemos augmentar aquelles numeros attendendo a que a planta procurará alargar mais as suas raizes pela pouca profundidade a que as pode enviar.

Marcada a plantação abrem-se covas nos sitios indicados pelas balisas, com as dimensões sufficientes para receberem as plantas provenientes dos viveiros, de modo que as suas raizes ahi fiquem perfeitamente estendidas. A melhor forma a dar ás covas é a circular.

A camada de terra superior que é a primeira a ser cavada deverá separar-se da segunda e da ultima, para depois ser tambem a primeira a entrar na cova.

No fundo d'estas covas, que deverão ter a profundidade de 1m lançam-se pedras, pedaços de madeira, palhas e mattos que servirão para dar livre passagem ás aguas das chuvas; por cima d'isto lança-se uma camada de entulhos provenientes de velhas demolições, ou, na falta d'estes, boa terra vegetal; tudo isto deverá ser misturado com estrumes bem decompostos e com residuos de fabricas etc.; por cima d'este terriço deita-se uma camada da primeira terra extrahida da cova. Todos estes elementos deverão ser dispostos de modo a formarem um monticulo ao meio da cova.

É sobre este monticulo que se colloca a nova planta distribuindo-lhe as raizes o mais naturalmente possivel.

Sobre as raizes lança-se nova quantidade de terriço, calcando-o bem para que elle fique em perfeito contacto com ellas, mas de modo a não as damnificar.{42}

Por fim acaba-se de encher a cova com o resto da terra d'ella extrahida dispondo-a de modo que as suas camadas fiquem em ordem inversa d'aquella em que primitivamente estavam.

D'este modo as camadas mais profundas vindo para a superficie ir-se-hão melhorando pela influencia dos meteoros, ao mesmo tempo que vai sendo corrigida pelas adubações.

As covas deverão ser abertas algum tempo antes de se proceder á plantação, para ficarem durante esse tempo expostas á influencia atmospherica.

A epocha para a plantação é aquella em que se acha paralysada a circulação na planta. Mas dentro d'este periodo convem attender á temperatura do clima, á sua humidade e ao grao de compacidade do terreno. Se o clima é quente e secco convirá antecipar a plantação para que, quando chegarem os calores de verão, a planta esteja já radicada no terreno. Pelo contrario, nos climas humidos e frios convem fazer a plantação no principio da primavera para a subtrahir aos excessivos frios e humidades do inverno.

É pratica por muitos seguida enterrar as plantas a profundidades que ás vezes vão a 30 e 40 e ás vezes mais centimetros a cima do collo da raiz.

Por desvantajosa, deve tal pratica ser rejeitada por que é no solo que as plantas encontram em melhores condicções e em maior abundancia os alimentos de que carecem para a sua nutrição.

No subsolo, onde as raizes por este processo de plantação iriam procurar os alimentos, não os encontrariam em tão boas condicções para d'elle se utilizarem, o que lhes seria prejudicial.

Não podendo desenvolver bem as raizes no subsolo, a planta ver-se-hia forçada a emittir novas raizes para irem procurar os alimentos no solo; d'aqui o atrazo de um a dois annos na vida da planta.{43}

Bastará enterrar a planta até á profundidade de 6 a 10 centimetros acima do collo da raiz, a não ser nos terrenos inclinados onde convem duplicar aquelles numeros.

As drainagens feitas com mattos e pedaços de madeira, são sufficientes em terrenos inclinados ou de sub-solo permeavel; são dispensaveis em terrenos arenosos e não são sufficientes nos terrenos planos e argillosos com sub-solo tambem impermeavel.

N'estes ultimos, as aguas infiltradas escoar-se-hão para o fundo da cova e ahi, por não encontrarem sahida, ficarão depositadas, com grande prejuizo para a vida das arvores.

Indispensavel se torna então abrir covas entre cada par de arvores, as quaes vão todas communicar com um poço collector que depois as enviará para qualquer corrente proxima.

N'estes poços parciaes deitam-se pedras até meio, acabando-se de encher com terra.

Melhor que isto será a abertura de vallas entre cada duas filas consecutivas de oliveiras. Estas vallas exgotarão as aguas do terreno e conduzil-as-hão para fóra do olival.

Ainda mais facilmente se póde fazer a drainagem, fazendo communicar entre si, por meio de pequenas vallas, todas as covas de cada fila.

Nos terrenos em declive muito rapido, deve a cultura ser feita em patamares construidos com pedras e terra, para impedir que a agua, arrastando as camadas superficiaes do solo, ponha a raiz a descoberto.

N'estes terrenos o compasso de 8m que indiquei ha pouco para os terrenos de meia encosta, pode diminuir-se.

Os alinhamentos feitos com o compasso de 6m a 8m, são proprios para os terrenos destinados unicamente á cultura da oliveira. Entre nós, porém, não{44} é muito frequente este caso, e a oliveira vegeta em condemnavel promiscuidade com as culturas cerealiferas, com a cultura da vinha e ainda com outras culturas.

Para este caso é necessario dar á plantação um compasso muito maior do que o indicado.

A arvore, ao ser plantada definitivamente, deve ser desembaraçada de todos os seus ramos e folhas. De contrario ellas continuarão a executar as suas funcções com grave prejuizo para a vida da planta, porque as raizes não podendo desempenhar ainda as suas funcções, não poderão absorver do terreno os elementos necessarios para equilibrar as perdas produzidas pelo trabalho das folhas.