Poda
Esta operação é indispensavel na arboricultura. Toda a arvore que não seja submettida a esta operação é muito irregular tanto no seu crescimento como na sua fórma; fructifica mal sendo os seus fructos mal conformados e a sua producção muito incerta.
Pelo contrario, podando as arvores nós obrigamol-as a tomar uma fórma mais regular que lhe permitta uma boa distribuição do calor e da luz para obtermos fructos bem creados e em maior quantidade.
Esta operação traz ainda como consequencia uma melhor distribuição da seiva e d'aqui o crescimento e a fructificação fazerem-se com mais regularidade.
As podas mirando ao duplo fim de dar á arvore a fórma mais conveniente e de lhes regular a producção, não podiam deixar de ser de duas cathegorias.
A primeira principia já no viveiro onde, como já disse, se esboça a copa da arvore.{45}
A arvore tirada do viveiro vem para o logar definitivo com quatro ramificações em cruz; assim é plantada e no anno seguinte emitte varios lançamentos pelos gommos existentes n'essas ramificações; no anno seguinte cortam-se todos os rebentos, á excepção de um em cada pernada, escolhendo o que se apresenta mais robusto e na posição mais levantada. No anno seguinte cortam-se-lhes as pontas acima de dous raminhos lateraes bem constituidos e supprimem-se todas as outras. Estes raminhos, desenvolvendo-se, constituem as ramificações secundarias.
Fica assim formado o esqueleto da arvore que se compõe de quatro ramificações principaes, tendo cada uma duas ramificações secundarias.
Esta é a poda de formação; a seguir a ella principiam as podas de fructificação que têem por fim manter na oliveira a fórma regular, provocando-lhe e regularisando-lhe ao mesmo tempo a producção.
Esta operação requer da parte do operador conhecimentos especiaes sobre o modo de vida da planta.
É a physiologia vegetal que nos fornece esses elementos e, embora os nossos operarios não estejam habilitados a deduzir d'esta sciencia as bases em que hão de firmar-se para a execução d'esta operação, póde, tendo presentes as regras d'ellas tiradas, effectuar a poda com methodo.
Essas regras são as seguintes.
1.ª—As flores, e portanto os fructos d'um dado anno, desenvolvem-se sempre sobre os lançamentos do anno anterior e nunca sobre os lançamentos d'esse mesmo anno;
2.ª—Só florescem e fructificam os ramos que estiverem durante a maior parte do dia expostos á influencia solar;
3.ª—É sobre os ramos horisontaes ou pendentes que{46} se desenvolvem os melhores e mais abundantes fructos;
4.ª—Se uma oliveira muito carregada de ramos produz muitos fructos estes ficam pequenos, pouco rendosos em azeite e a colheita é biennal:
5.ª—Nem todas as variedades de oliveiras devem ser podadas do mesmo modo;
6.ª—A fructificação d'uma oliveira varia com o terreno e exposição, por isso a poda deverá variar com estes factores;
7.ª—Devemos evitar o mais possivel os córtes de ramos grossos.
Pela primeira regra se vê que nunca devemos tirar á arvore grande quantidade de raminhos, porque isso irá prejudicar muito a producção do anno seguinte.
O segundo principio diz-nos que a arvore deve ter sempre os seus ramos bem distribuidos e nunca deve estar demasiadamente carregada d'elles, por que a sua folhagem compacta impede que os raios solares penetrem bem por entre elles, ficando a formação do fructo limitada simplesmente aos pontos em que esses raios podem, sem obstaculo, exercer a sua influencia.
Um principio de physiologia vegetal, citado por Foëx, diz que a quantidade de seiva que passa n'um ramo é tanto maior quanto mais proximo elle estiver da vertical. Diz o mesmo auctor, n'um outro principio, que a vegetação de toda a planta ou ramo é complementar.
Estes dois principios vêm provar a segunda regra annunciada para a pratica da poda.
Effectivamente, se a vegetação d'uma planta ou ramo é complementar, isto é, se quanto maior fôr a vegetação d'essa planta ou ramo, menor será a sua producção em fructo, os ramos verticaes pela grande vegetação de que dispõem serão menos productivos do que os affastados d'aquella posição.{47}
Firmados n'esta terceira regra devemos destruir pela poda, os ramos verticaes de preferencia aos horisontaes ou pendentes.
Da quarta regra deprehende-se a necessidade de nunca deixar a arvore demasiadamente carregada de ramos fructiferos, a fim de que ella não tenha que alimentar, ao mesmo tempo, uma demasiada quantidade de fructos, o que lhe acarretaria um exgotamento de que ella levaria um ou mais annos a refazer-se. Mas que se não vá tomar á lettra o proverbio provençal—Fais mois pauvre et je te ferai riche—porque isso redundaria em grave prejuizo para a oliveira.
O que convem sempre é regular esta operação pelas condições do terreno, pela exposição e pela tendencia natural da planta, como aconselham as regras quinta e sexta.
N'um terreno rico e situado n'uma boa exposição deverá deixar-se a arvore mais carregada de ramos porque no terreno não escassearão substancias para os alimentar e a maturação dos fructos é mais certa. Pelo contrario, um terreno pobre exige uma poda mais energica.
A regra quarta aconselha-nos a que tenhamos em conta a variedade da oliveira cultivada, porque algumas ha que tendem a elevar-se muito.
N'este caso o podador deve ter sempre em vista não contrariar muito o crescimento da planta com rebaixamentos exagerados.
Ao effectuarmos a poda devemos subtrahir-nos o mais possivel ao córte de troncos grossos. A grande superficie d'estes golpes daria origem á penetração da agua e ao ataque de muitas doenças. Quando se não possam evitar esses golpes haverá o cuidado de os cobrir com alcatrão ou outro inducto qualquer.
Em muitas partes, devido ao pessimo costume de se podarem as oliveiras com intervallos de 3, 4 e mais annos, vê-se o podador constrangido a cortar ramos grossos, o que, como acabo de dizer, acarreta graves prejuizos para a vida das arvores.{48}
Estes inconvenientes são ainda em algumas partes avolumados pela epocha pouco propria em que as podas se executam, que é quasi sempre a seguir á apanha do fructo.
A oliveira é uma arvore muito sensivel aos frios vigorosos e estes muito mais a prejudicam quando incidem sobre recentes golpes da poda.
Para evitar os inconvenientes, provenientes dos golpes de demasiada superficie e da sua exposição aos frios do inverno, convem, em primeiro logar, que a poda seja feita todos os annos e em segundo logar, que ella nunca seja feita antes da passagem dos frios, a não ser em sitios em que o vigor d'estes não é muito para receiar.
A melhor epocha parece ser o mez de fevereiro. Alguns auctores preferem a poda em março e abril, mas, no dizer de A. Aloi, a poda feita n'esta epocha predispõe a oliveira para adquirir mais doenças.
Comtudo esta epocha varia muito conforme o clima local. Em climas onde não são frequentes as geadas póde ella fazer-se logo a seguir á apanha do fructo, mas é isso prejudicial nos sitios onde as geadas são frequentes.
A poda feita na primavera parece-me ainda mais prejudicial do que a feita no inverno rigoroso, pelos grandes estravasamentos de seiva a que dá origem.
Durante a primavera apenas se irão supprimindo os rebentos que se forem desenvolvendo no tronco.