Propagação da oliveira

De muitas maneiras se póde obter a propagação da oliveira, mas todas ellas se podem conglobar em dois systemas differentes.

Um d'esses systemas é aquelle em que se emprega a semente para, pela sua germinação no terreno, se obterem novos individuos: é a reproducção; o outro consiste em se destacar de uma arvore um fragmento em determinadas condições, o qual, enraizando na terra, dará origem a um novo individuo; é este systema o chamado de multiplicação.

A—Reproducção

Esta forma de propagação é muito pouco seguida devido á demora que têm as plantas reproduzidas em fructificar.

Em todo o caso, a compensar o inconveniente da demora em se obter uma planta em condições de fructificar regularmente, tem este systema muitas outras vantagens que o recommendam como o melhor processo de propagação.

As plantas obtidas por sementeira são muito mais duradouras, adquirem melhor porte e resistem{23} muito mais ás inclemencias do clima e ás doenças do que as obtidas por multiplicação.

Para se obterem plantas por esta forma, necessario é dispender grandes cuidados e a despeza é mais avultada do que para as obter por qualquer outro meio; ha sempre uma grande demora na germinação das sementes, e muitas vezes perdem-se grande numero d'ellas porque nunca chegam a germinar, a não ser que as submettamos a um tratamento previo, que as obrigue a germinar mais facilmente.

Além d'estes inconvenientes, as oliveiras provenientes da semente adquirem todos os caracteres das oliveiras bravas, precisando, por isso, serem enxertadas logo que attinjam edade e grandeza conveniente.

Para a sementeira devem-se escolher azeitonas provenientes de plantas sãs e muito productivas, que não sejam velhas, nem tão pouco muito novas. Diz A. Aloi que as melhores são as provenientes de zambujeiros que vegetem em climas temperados, e que a sua colheita deve ser feita em março ou abril.

Adquirida a azeitona, é necessario extrahir-lhe o caroço, o que se faz esmagando a polpa entre os dedos; em seguida, como a camada oleosa que fica envolvendo o caroço é um grande obstaculo á sua germinação, submette-se este á acção de um liquido alcalino que poderá ser preparado com carbonatos de cal e soda.

A duração do periodo germinativo do caroço póde diminuir-se por varios meios estudados por Gasquet, Passerini e pelo conde de Gasparin.

O processo d'este ultimo sabio consiste em fender o caroço com cuidado para não offender a semente, fazendo-o em seguida amollecer envolvendo-o em terra argillosa e bosta de boi.

Em logar de quebrar o caroço, Passerini aconselha tornal-o menos consistente, mergulhando-o para{24} isso em agua chlorada; o chloro ataca o caroço, rouba-lhe o hydrogenio para formar o acido chlorhydrico, e d'este modo permitte a entrada de humidade e a troca de gazes.

Algumas aves domesticas têm a propriedade de, comendo a azeitona, nos restituir depois, nos seus excrementos, os caroços aptos para germinar.

Alfobres

Adquirida a semente e destruida, por qualquer dos processos indicados, a difficuldade que a materia gorda oppõe á sua germinação, procede-se á sua sementeira em alfobres de antemão preparados para esse fim.

O terreno destinado aos alfobres deve ter uma inclinação norte sul para evitar a acção prejudicial dos ventos do norte e dar facil escoante ás aguas da chuva; deve ser o mais possivel limpo de raizes e pedras e bem mobilisado.

Quanto a sua qualidade deve ser humifero e silicioso.

O terreno escolhido n'estas condições surriba-se no inverno a uma profundidade de 0m,50 a 0m,60, adubando-se n'essa occasião com adubo de decomposição mediana. Em fins de Fevereiro e principios de Março dá-se-lhe uma segunda lavoura, que d'esta vez convirá ser feita á enxada para pulverisar melhor o terreno e para o despojar de todas as hervas que ahi se tenham desenvolvido. Por esta occasião o estrume que se lhe encorporou no principio do inverno deve estar já decomposto e a terra nas melhores condições para receber a semente.

Feito isto grada-se o terreno e abrem-se sulcos com a profundidade de 0m,05, distando 0m,25 uns dos outros.

É n'estes sulcos que se collocam as sementes distanciadas 0m,25 umas das outras, tendo o cuidado de as dispôr de modo que o embryão fique na sua posição natural. Isto feito cobrem-se com{25} uma ligeira camada de terra que se calca com um rolo para aconchegarmos bem a semente; segue-se uma rega ligeira por aspersão para manter o terreno fresco e ajudar o effeito do rolo.

Quatro mezes depois, nos meados de julho, surgirão as novas plantas. Durante todo este tempo é necessario ter o alfobre sempre limpo da vegetação expontanea e deve manter-se sempre na terra uma certa frescura. As regas e as limpezas feitas com muita precaução são operações indispensaveis.

No outomno terão as plantas adquirido uma altura do 0m,11 a 0m,20 sendo n'essa occasião necessario effectuar uma sacha para manter o terreno fôfo e mais permeavel á agua das regas.

Em localidades em que os invernos são habitualmente rigorosos é indispensavel cobrir o alfobre com qualquer substancia para o preservar do frio intenso que lhe é muito prejudicial. Empregam-se para isto agulhas de pinheiro seccas, palhas ou ramos de plantas.

No segundo anno continuam as regas e sachas repetidas para que as plantas desenvolvam bem as suas raizes. Em outubro d'este anno ou na primavera seguinte estão as plantas aptas para serem transportadas para o viveiro.

B—Multiplicação

Como disse, a multiplicação é um dos meios que a natureza nos fornece para obtermos a propagação da especie. Esta operação da multiplicação pode fazer-se por varias formas. As estacas, as raizes e a enxertia sobre zambujeiro constituem outras tantas maneiras de obtermos a multiplicação.

A estaca que pode ser simples, ramificada ou composta, de talão, de polas e de protuberancias constitue entre nós o meio mais seguido para a obtenção de novos individuos.

As estacas, simples ou compostas, obtêm-se com muita facilidade e em grande abundancia, sem{26} prejudicarmos em nada o individuo de que foram separadas, aproveitando os ramos provenientes da poda. Escolheremos de preferencia os ramos provenientes de plantas fructiferas e de boa qualidade, os quaes devem ser providos de boas gemmas tanto na parte que deve ser enterrada como na que tem de ficar fora do solo. Assim, nos asseguraremos melhor do facil desenvolvimento das raizes e dos rebentos.

Para as estacas simples cortam-se os ramos de poda em fragmentos de 0m,30 a 0m,50 e enterram-se no viveiro de modo a ficar debaixo da terra a sua parte mais grossa.

Para as estacas compostas aproveita-se um ramo tal como foi separado da planta mãe e enterra-se n'um viveiro preliminar de tal maneira que metade dos seus ramos fique debaixo do solo e a outra metade fique a descoberto.

Estas ramificações originarão, umas rebentos e outras raizes. D'aqui a faculdade de podermos mais tarde dividir esta estaca em muitos individuos.

No fim do primeiro anno terá esta estaca enraizado pelos ramos subterraneos e os ramos exteriores terão lançado os seus rebentos; arrancar-se-ha, então, com todo o cuidado para lhe não prejudicarmos as novas raizes e, por meio de uma secatoria, a dividiremos em um numero de partes egual ao numero de raminhos e transplantaremos estes novos individuos para o viveiro definitivo.

Nos bordos dos golpes crescem vergonteas em cuja base se observam dilatações dos tecidos motivadas pela accumulação de seiva. Estas vergonteas destacadas da arvore de modo a levarem comsigo essas dilatações e enterradas depois, enraizam muito facilmente. São estas as chamadas estacas de talões.

Na toiça da oliveira e sobre as suas raizes mais grossas que correm á superficie da terra, apparecem{27} grandes dilatações d'onde emergem rebentos em grande numero, que se vão desenvolvendo á custa da planta mãe e das raizes de que quasi sempre são providos.

Estes rebentos fornecem-nos um meio muito facil e seguro da propagação da especie. Para esse fim vão-se desbastando esses rebentos de modo a deixar só os mais vigorosos; cobrem-se as dilatações d'onde provêm (polas) com terra, para que se possam prover de raizes aquelles que ainda as não tenham. Assim se deixam ficar até ao anno seguinte, sendo então transportados para o viveiro e ahi collocados em linhas á distancia uns dos outros de 0m,80.

Um outro methodo de multiplicação muito usado na Italia é o que consiste no aproveitamento de umas pequenas dilatações, similhantes a ovos de pata, localisadas na parte enterrada do tronco e ainda sobre as raizes mais grossas.

Estas protuberancias são providas de gemmas, tendo por isso a faculdade de quando enterradas desenvolverem raizes e rebentos para darem origem a novos individuos.

Não se deve abusar muito da extracção d'estas protuberancias, porque com isso prejudica-se a vida do vegetal de que são extrahidas, pelas feridas produzidas nas suas raizes e pelo grande numero d'estas que é necessario descobrir. Antonio Aloi aconselha a que se não tirem mais do que 3 ou 4 de cada arvore para lhe não alterarmos sensivelmente a sua vida.

Convem antes sacrificar 3 ou 4 individuos á morte, extrahindo d'elles todas as excrescencias encontradas, que poderão montar a 300 a 400, do que descobrir as raizes a muitas oliveiras.

Estas excrescencias devem ser tiradas de individuos robustos e productivos, e preferem-se sempre os situados debaixo da terra, que são mais tenros e desenvolvem mais fortes rebentos.{28}

Para fazer a sua extracção, escava-se em volta da cepa até pôr as raizes grossas a descoberto; procura-se sobre estas com uma espatula de madeira o sitio em que se encontram as exostoses; achadas estas, põem-se a descoberto e á volta d'ellas se vão fazendo incisões profundas, onde depois se mette um escopro por meio do qual se faz saltar a excrescencia.

Tira-se-lhes em seguida todo o lenho que com ellas se arrancou e as suas raizes, se por acaso d'ellas vier provida; limpa-se bem em volta, e envolve-se em terra misturada com palha, para a conservar até á epocha da plantação no viveiro.

Chegada esta epocha, que deverá ser em Março ou Abril, levam-se para o viveiro, onde serão enterradas, conservando entre si a distancia de 0m,80 e a profundidade de 0,10.

As oliveiras velhas cujos troncos, já muito carcomidos, não podem resistir ao impeto dos ventos ou das intemperies, são lançadas por terra e as suas raizes continuam ainda a viver por muitos annos.

Com o desapparecimento do tronco velho principiam a desenvolver-se na toiça grande quantidade de rebentos ou polas. Desbastam-se estes rebentos, deixando só os mais vigorosos, que ahi vão vivendo até adquirirem a grossura de 0m,03, sendo então transportados para o viveiro e ahi plantados á distancia de 0m,80.

A plantação de todas estas estacas pode ser feita com alguma vantagem em viveiros preliminares, como se faz para as estacas ramificadas ou compostas; n'este primeiro viveiro vão ellas enraizar para depois serem mudadas para o viveiro definivo. É, porém, dispensavel este primeiro viveiro, porque as estacas postas n'um só viveiro desenvolvem-se perfeitamente e adquirem o vigor necessario para serem plantadas definitivamente.{29}