Viveiro
A—Seu estabelecimento
Os individuos formados nos alfobres pela germinação da semente ahi deposta e os provenientes de estacas que tenham desenvolvido as suas primeiras raizes em viveiro preliminar, necessitam, depois de terem adquirido um certo desenvolvimento, serem transportados para um viveiro onde possam dispôr de mais espaço para desenvolverem e multiplicarem as suas raizes e os seus ramos e onde possam ser convenientemente educados até á edade de poderem ser transportados á sua definitiva morada.
As estacas e outros fragmentos em que se não tenha ainda provocado um primeiro enraizamento no viveiro preliminar, serão immediatamente plantadas no viveiro definitivo nas mesmas condições de espaçamento d'aquellas, porque é aqui que ellas adquirirão todo o seu corpo para poderem ser plantadas definitivamente.
Não é indifferente a qualidade do terreno onde queremos estabelecer o viveiro; pelo contrario, devemos ter muito em consideração a sua escolha.
Um terreno muito argilloso não nos póde convir porque no inverno se torna humido de mais e adquire no verão propriedade opposta. É, além d'isso, muito compacto e as tenras raizes das pequenas plantas não conseguiriam distender-se á vontade, sendo d'este modo muito prejudicado o seu crescimento; greta muito no verão e, ou romperia as raizes ou as deixaria expostas ao calor d'essa estação.
O solo muito silicioso possue propriedades contrarias{30} áquelle e por isso o devemos regeitar tambem.
Escolher-se-ha, sempre para este fim, um terreno de mediana compacidade e porosidade, o mais possivel limpo de pedras e raizes, para que as raizes das novas plantas se possam distender perfeitamente, e onde o ar e a agua possam circular com relativa facilidade.
Deve procurar-se um terreno com exposição ao sul o qual ainda melhor convirá se tiver para essa orientação uma ligeira inclinação. Assim estarão as pequenas plantas garantidas contra a influencia dos ventos do norte que tanto as prejudicam.
Um terreno demasiadamente rico não é dos mais convenientes para n'elle estabelecermos um viveiro porque as plantas encontrando concentrados em um pequeno cubo de terra os alimentos de que carecem não criariam um bom raizame e sofreriam depois muito ao serem plantadas definitivamente porque na morada definitiva não encontrariam terreno em eguaes condições.
Convém antes um terreno sufficientemente rico para que as plantas n'elle possam adquirir grande vigor, mas que a sua riqueza não seja tão grande que possa offerecer aquelle inconveniente. Assim se provoca um grande desenvolvimento na planta e ella ao ir para o terreno definitivo resistirá melhor ás peores condições que este lhe offereça.
Antonio Aloi prefere que o terreno para o viveiro seja mais pobre que aquelle onde depois se plantarão as novas arvores n'elle creadas. A proposito diz este auctor que:
Un indivíduo assuefalto a vivere n'ell opulenza, passerebbe molamente í soi giorni se fosse condannato a nutrirsi nel parco desco dei contadino; e vice-versa, il contadino la passerebbe bene e diverrebbe grasso si se facesse sedere tutti i giorni alla lauta mensa dei ricco.
Estas palavras do mestre italiano teriam razão{31} de ser se o terreno que destinassemos á plantação definitiva estivesse nas mesmas condições climatericas em que está o terreno que escolhemos para viveiro. E não só divergem as condições climatericas do terreno do olival para o terreno do viveiro: para o viveiro escolhem-se sempre os terrenos nas melhores condições physicas para a vida das plantas, submettem-se a trabalhos de limpeza, mobilisação, regas e estrumações a que não serão nunca submettidos com a mesma intensidade e com a mesma perfeição os terrenos destinados ao olival definitivo.
Por isso, a oliveira transplantada vae encontrar peores condições physicas e climatericas do que aquellas a que até ahi tinha estado submettida; e, quanto a mim, parece-me que só a robustez da planta será garantia do seu desenvolvimento na sua ultima morada.
Os terrenos destinados aos olivaes devem ser aquelles em que é pouco remuneradora a cultura cerealifera.
São portanto terrenos pobres; e não me parece que, n'um viveiro estabelecido em terreno ainda mais pobre, as pequenas plantas se possam desenvolver convenientemente. Hão de ser, por força, enfezadas e rachiticas desde a sua infância e incertamente resistiriam ás peores condições do terreno, embora mais rico, que lhes é destinado.
E poder-se-ha tambem dizer que, um individuo mal alimentado na sua infancia soffreria muito mais ao mudar para um mau clima, do que outro que, desde creança tambem, tenha sido submettido a uma boa alimentação, precursora de uma boa robustez physica.
O terreno em boas condições para viveiro será aquelle em que, n'um cubo de terra rasoavel, a planta encontre elementos bastantes para lhe fornecerem uma boa alimentação, e que tenha compacidade sufficiente para bem sustentar a planta e para lhe permittir um facil desenvolvimento de{32} raizes. Satisfazem a estas condições os terrenos argillo-silico-humiferos de mediana riqueza.
Escolhido o terreno, surriba-se a uma profundidade não inferior a 0m,50, no principio do inverno, servindo-nos, para esse fim, da pá ou da enxada. Convem que, durante a execução d'esta operação, haja sempre o cuidado de inverter a disposição das camadas de terra.
No fundo das vallas, é de grande conveniencia lançar-se ramos de arvores que desempenharão o papel de uma drainagem.
Depois d'esta surriba, a terra ficará exposta á influencia benefica dos agentes atmosphericos até Março, epocha em que se pratica uma segunda lavoura, d'esta vez apenas com a profundidade de 0m,40 a 0m,45. Aplaina-se em seguida a terra, que ficará apta para receber a plantação dos individuos provenientes do alfobre, assim como a plantação das estacas, enraizadas ou não, raizes, polas, etc.
Plantação nos viveiros
Quer os individuos a plantar venham já enraizados do alfobre ou do viveiro preliminar, ou venham ainda enraizar n'estes viveiros, deve sempre a sua plantação ser feita methodicamente.
As disposições methodicas adoptadas tanto para os viveiros como para a plantação definitiva, são: em quadrado, em linhas e em quinconcio.
De todas, a melhor e por isso a mais recommendada e seguida é a ultima.
N'esta disposição conservam todas as plantas a mesma distancia entre si, tendo assim, todas, a mesma extensão de terra á sua disposição.
Tem ainda a vantagem de as plantas se defenderem mutuamente da acção dos ventos.
É relativamente facil fazer sobre o terreno uma marcação em quinconcio.
Para isso traça-se sobre o terreno a linha AB e{33} prependicularmente a esta as linhas AK e BL; em seguida, com uma sirga que tenha um compasso egual ao que queremos dar á plantação, que n'este caso será de 0m,80, marcam-se os pontos a a' a'' ...; feito isto, constroe-se o triangulo isosceles a b a', o que é facil: basta descrever dois arcos de circulo com um dos compassos da corda, fixando-lhe uma das extremidades, uma vez em a e outra em a'. Estes dois arcos cruzar-se-hão em b, vertice do triangulo: mede-se em seguida a distancia de b ao meio c da linha a a'; esta distancia que é a altura do triangulo, applica-se sobre as linhas AK e BL tantas vezes quantas for possivel, o que se faz muito facilmente arranjando uma sirga com aquelle compasso.
Determinaremos assim os pontos C, E, G... na linha AK e os pontos correspondentes D, T, H... na linha BL.
Levanta-se em seguida a sirga da posição AB e colloca-se em CD, de maneira que em C assente o meio c do compasso a a', e assim teremos uma segunda linha para a plantação. Colloca-se depois a sirga em EF, na mesma posição que estava em AB, e teremos a terceira linha; em seguida transporta-se{34} a sirga para GH, collocando-a na posição em que se collocou em CD; assim se vão successivamente traçando as linhas de plantação pelos pontos marcados nas linhas AK e BL, tendo sempre o cuidado de collocar a sirga alternadamente nas posições em que se collocou em AB e em CD.
Ficará assim marcada uma rigorosa plantação hexagonal.
Marcados, d'esta ou d'outra maneira, os pontos correspondentes a cada individuo, procede-se então á plantação.
Para as estacas simples abre-se um buraco no terreno com um furador, mettendo ahi a estaca com a sua parte mais grossa para baixo, tendo o cuidado de lhe deixar fóra da terra os ultimos 2 ou 3 olhos.
Uma vez collocada a estaca no seu logar, aconchega-se-lhe bem a terra, desfazendo bem as paredes do buraco em que foram enterradas. Sem esta precaução ha todas as probabilidades de a estaca não pegar.
Para as exostoses escavam-se á enxada pequenas covas com a profundidade de 0m,30 onde serão collocados estes seres. Antonio Aloi aconselha que antes de os enterrar se mergulhem em agua que tenha em solução bosta de boi, se envolvam depois em terra fina para em seguida se collocarem nos covachos. Ao dispôr estes seres nas covas deve haver sempre o cuidado de os deixar com a gemma voltada para cima e um pouco inclinada para o sul. Cobrem-se depois com terriço acabando de encher a cova com cinza de barrella, que tendo a propriedade de manter fôfo o terreno, dá facil sahida aos rebentos. Estes apparecem á superfície ao cabo de 30 a 40 dias.
Muitas vezes o calor em seguida á chuva faz endurecer a camada de cinza e este endurecimento impede os rebentos de sahirem da terra. Então com uma espatula de madeira, se removerá cuidadosamente{35} a crosta endurecida, nos sitios em que se fizeram as plantações, que nos serão indicados por uma cana ou pequeno pau ahi enterrado na occasião da plantação.
Muitos rebentos podem nascer d'um mesmo individuo, dos quaes uma parte vem á superficie da terra e outros, devido a qualquer obstaculo que encontram no terreno, dirigem-se, tortuosamente em diversas direcções debaixo da terra. Convem então afastar a terra e com a unha, extrahir todos esses rebentos á excepção de dois, tendo o cuidado de, ao executar esta operação, não deslocar do seu logar o ser que lhes dá origem. Dos dois rebentos poupados por esta operação, um d'elles, o mais fraco, é mais tarde destruido.
Deve haver sempre muita vigilancia no viveiro para ir destruindo todos os rebentos que forem apparecendo depois d'esta primeira operação.
Para os individuos já enraizados necessario se torna prodigalizar-lhes outra especie de cuidados para os não prejudicarmos com a mudança. Estes cuidados devem principiar logo no acto do arranque no alfobre ou no viveiro preliminar.
Usa-se da enxada ou da pá para procedermos a esta operação mas com todos os cuidados possiveis para lhes não prejudicarmos as raizes. Se alguma ou algumas raizes forem dilaceradas devem-se cortar acima do ponto ferido para evitar que a sua putrefacção acarrete á planta algum soffrimento. Arrancadas as plantas trazem-se para o viveiro e ahi serão plantadas nos sitios marcados.
Para esse fim abrem-se pequenas covas, no fundo das quaes se lança bom terriço, e sobre este se collocam as plantas; distribuem-se-lhes bem as raizes para não ficarem acavalladas n'uns sitios e rareadas n'outros; cobrem-se depois, primeiro, com bom terriço e depois com a mesma terra que sahiu da cova. Fixam-se bem a um tutor, para que os ventos as não desloquem ou quebrem, e assim se deixam{36} até que principiem a desenvolver-se para então se lhes prodigalizarem os cuidados de educação que necessitam.
B—Trabalhos nos viveiros
Enxertia
Carecem d'esta operação não só as oliveiras provenientes de semente mas ainda aquellas que tiveram como origem qualquer fragmento extrahido abaixo do ponto em que foi enxertada a planta mãe.
Todas as especies de enxertia se podem empregar na oliveira mas as mais usadas são a de escudo e algumas vezes a de flauta, para oliveiras novas e a de coroa para troncos grossos.
Para se operar um enxerto de escudo principia-se por fazer na casca do ramo ou oliveira delgada que queremos enxertar uma incisão em forma de T afastando-a depois com a espatula da enxertadeira de modo a separal-a do alburno. Em seguida tira-se do ramo da oliveira que queremos propagar um bocado de casca munido de uma borbulha e dá-se-lhe a forma de um escudo.
Introduz-se em seguida este escudo na fenda, de modo que esta fique bem cheia. Liga-se em seguida a fim de nos assegurarmos bem do perfeito contacto do garfo com o alburno e casca do cavallo.
Logo que nos asseguremos do bom resultado da enxertia corta-se o ramo a 3 ou 4 centimetros acima do enxerto.
Esta enxertia pode fazer-se na primavera ou no outomno tomando respectivamente os nomes de enxertia de olho vivo e olho dormente.
A enxertia de flauta, que não é tão usada como a primeira, exige que tanto o garfo como o cavallo tenham a mesma grossura. Consiste em tirar de um ramo delgado um annel de casca munido de{37} um ou dois olhos e collocal-o no ramo a enxertar a que previamente se tenha tirado um annel igual de casca e liga-se bem com um fio de lã ou com uma fita de casca de arvore.
Uma outra enxertia, muito usada, é a de fenda cheia. Esta exige tambem que o cavallo e o garfo tenham perfeitamente a mesma grossura.
Corta-se o cavallo horisontalmente á altura a que queremos fazer o enxerto e fende-se verticalmente no sentido do seu diametro; em seguida prepara-se o garfo em forma de cunha e introduz-se na fenda de modo que as cascas do cavallo e do garfo coincidam perfeitamente; liga-se bem com raphia e n'estas condições estará o enxerto apto para pegar.
Alem d'estes enxertos fazem-se ainda os de fenda simples e fenda dupla, que differem do precedente em os dois elementos não serem da mesma grossura.
Para a fenda simples bastará abrir a fenda vertical simplesmente no sentido de um raio do cavallo e ahi se introduz o garfo em forma de cunha.
Para o enxerto de fenda dupla abre-se a fenda no sentido do diametro do cavallo e introduzem-se-lhe dois garfos nos extremos d'esses diametros.
Nos enxertos de fenda quer ella seja cheia, dupla ou simples applica-se sempre, logo em seguida á sua execução, um inducto qualquer que o preserve de estar exposto ao tempo. Costuma empregar-se muito o unguento de S. Fiacre pela simplicidade da sua preparação. Prepara-se misturando intimamente 65,5 partes de argilla com 33,5 partes de excremento de boi.
São estes os systemas de enxertia mais usados: a sua execução acha-se descripta em muitos trabalhos de arboricultura e muitissimas revistas agricolas dispensando-me, por isso de, sobre este assumpto, fazer mais largas referencias.{38}
Cuidados a ter com os viveiros
Depois de feita a plantação carecem os viveiros de cuidados que incidirão, não só sobre o terreno mas tambem sobre as arvoresinhas que n'elle se vão desenvolvendo.
Os primeiros consistem em sachas com o fim de manter o terreno sempre bem mobilisado, de o conservar sempre limpo de plantas estranhas que ahi se desenvolveriam e para evitar as fortes evaporações no verão, as quaes dissecaram rapidamente o terreno.
As regas, não muito abundantes, são indispensaveis ao terreno para se garantir n'elle um certo grao de frescura que tão propicio é ao enraizamento dos novos individuos.
Logo que as plantas adquiram um desenvolvimento de 0m,20 a 0m,30 deve tambem para ellas voltar-se a attenção do viveirista.
Nesta altura começar-se-ha por se lhes supprimir todos os raminhos lateraes tendo o cuidado de se lhes não arrancar as folhas em cuja axilla elles se desenvolvem.
D'esta maneira a seiva da planta dirigir-se-ha directamente para a parte superior da planta, gastando-se em lhe augmentar o seu crescimento em altura.
Militam em favor d'esta opinião as experiencias de Ghiotte que demonstram que as arvores assim tratadas adquirem maior desenvolvimento, alem de crescerem direitas e com tronco lizo, o que lhes não acontece se lhes não amputarmos os seus raminhos lateraes.
Deixando-lhes estes ramos, elles engrossam e crescem com prejuizo do alongamento da planta e, ao serem mais tarde cortadas, produzem nas arvores feridas perigosas. O soffrimento d'estas plantas proveniente do corte d'estes raminhos é em grande parte attenuado se lhes deixarmos as folhas jacentes na base d'esses raminhos.{39}
Nas plantas provenientes de estacas desenvolvem-se muitos rebentos que convem deixar durante os dois primeiros annos para provocar n'ellas a formação de muitas raizes. Mais tarde cortam-se todos, á excepção d'um que deverá ser o mais forte e o mais proximo do sólo, o qual se sujeitará ao tutor que a conserve na posição vertical.
Nos tres annos seguintes os trabalhos dirigir-se-hão no intuito de se favorecer o mais possivel o crescimento das arvores.
Qualquer ramificação muito vigorosa, que appareça, deve ser quebrada para evitar o empobrecimento da arvore.
Ao fim do 5.º ou 6.º anno estão as plantas em condições de se lhes poder formar a copa.
Para determinarmos a altura a que a devemos formar teremos que entrar em consideração com a natureza do terreno, clima, exposição e com a tendencia natural da casta que se cultiva.
Esta altura varia, geralmente, entre 1m e 2m. A altura de 1m convem para as castas que não costumam adquir grande porte e que são plantadas em terrenos aridos; se, pelo contrario, o terreno é fertil e fresco poderemos deixar-lhes a copa mais alta.
Na altura determinada segundo aquellas circumstancias para se formar a copa, deixam-se quatro pernadas dispostas em cruz; cortam-se todas as subjacentes, assim como o tronco, logo acima das quatro pernadas Assim se deixam ficar mais um anno no viveiro e ao cabo d'esse anno, que será o 7.º ou 8.º de viveiro, proceder-se-ha á sua plantação definitiva.{40}