A VELHICE D’UM REI

Sentado na larga poltrona de seda azul, o monarcha conversava em voz pausada e lenta. Uma graciosa imagem da Virgem, talhada em marfim, por desconhecido artista da Renascença, dava-lhe ensejo de explicar a velhos amigos, como conjecturava, que teriam trabalhado aquelles talentos singulares, creadores de tantas maravilhas. Tenuissima nuvem de paz, de conforto, de luxo estudado, pairava sobre este ambiente, tornando-o em região intermedia á riqueza mundana e á severidade do gabinete d’um sabio obscuro. No rosto sereno do rei, havia o orgulho do nascimento e a tristeza propria dos annos. A sua longa barba branca, objecto de veneração em todo o paiz, era até commentada entre a gente rude dos campos. Quasi a tinham como symbolo de orgulho nacional, pois com jactancia affirmavam não haver outro rei com barba tão longa, tão linda e tão branca.

A vaidade das coisas realengas—orgulho natural nos paços doirados, sentimento peculiar dos que soltam os primeiros vagidos sentados n’um throno—diziam que a não tinha. A abnegação e o desprendimento de todas essas pompas eram-lhe attribuidos com meiga sympathia entre as classes populares, que são as que melhor comprehendem as inclinações democraticas. Elle abdicára em seu herdeiro o poder de que disposera durante muitos annos e havia praticado esse bello acto sem ostentação e logo que o principe chegára á maioridade. Adquiriu a liberdade de homem, entregando-se ás suas collecções artisticas, aos prazeres da caça e á conversação intelligente. Perdia-se dias inteiros na espessura das mattas reaes, sempre poeta, contemplando a luz e vivendo intimamente na absoluta natureza silenciosa. Para ser um bom rei, querido e estimado, até muitos o diziam generoso e esmoler.

Porém, nem todas as pessoas tinham esta opinião benevolente. Alguns revelavam que fazia sentir as suas dadivas, fallando d’ellas. Censurava os gastos de muitos que os não podiam fazer, tinha a opinião de que a sua bolsa não era inexhaurivel. Egoista e reparador—chamavam-lhe. Desfazia com palavras, alguma generosidade que praticava. Apontavam como impropria, a ponta d’avareza que esboracava o manto real. Um soberano amesquinha-se fallando de coisas tão vulgares. Era o que faltava que procedesse d’outra fórma. Não fazia o povo muito mais pelo rei, do que o rei pelo povo? Qual era o azeite e o vinho que produsiam as extensas coutadas que a nação lhe dispensava para os seus divertimentos?!...

Depois a velhice tornara-o rabujento. Os camaristas para lhe entreterem as insomnias, tinham de colher ou inventar episodios escandalosos. Era fatigante a sua exigencia nos detalhes e torturava-os com repetições. A surdez obrigava-os a servirem-se da corneta acustica para lhe fallarem. Havia perguntas e respostas disparatadas, situações grotescas que depois se desfaziam em motejos nas ante-camaras. A consciencia d’estes factos entristecera-o e só a muito custo lhe tiravam um sorriso, um ar de approvação. A sensibilidade embotára-se-lhe com a velhice e só historias picantes, difficeis de inventar, conseguiam distrahil-o.

A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro do palacio) esposa morganatica do rei, senhora ainda forte, saudavel, com vida para gastar, abandonára-o n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle estava mais satisfeito entre os seus amigos. A falta d’um contacto feminino, que lhe enternecesse a organisação, fizera variar aquella sensibilidade que fôra delicada e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos, creadas servindo intrigas amorosas, homens escapando-se de gatas por telhados... é que lhe enchiam o vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas eram rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida ociosa e delicada. Passavam um aborrecimento n’aquelle palacio de grossas muralhas. O que lhes valia era a conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas, muitas gentis, todas de uma educação esmerada. Desanuviavam-se reciprocamente d’aquella vida pautada e monotona, fazendo má lingua, fallando da sociedade com a liberdade de parentes e camaradas. Um ou outro de apetites mais grosseiros, preferia abraçar nos corredores sombrios as simples creadas, mulheres de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto, que enchem a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade, nos vultos a fugir cautelosos, nas palavras de carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar rapido.

Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei para lhe tomar o pulso. A um contrahir facial de suspeita do facultativo acrescentou o monarcha:

—Não passei muito bem a noite, não.

Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto. O doutor applicou-lhe demoradamente o ouvido á região cardiaca, concentrou-se n’um raciocinio e quietou o doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez a maldita dyspepsia—esclareceu.

Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a da gravidade e adiantado da molestia. Poucos minutos levou, para o mais humilde serventuario do palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado. Congestões abdominaes e no figado haviam obrigado aquelle velho coração a empregar, nos ultimos tempos, um grande esforço para impellir o sangue até aos confins do corpo. Um coração delicado de rei, batendo sempre moderamente debaixo de lendarios arminhos, logo que sentiu resistencia ao seu poder, entristeceu; principiou a condescender, a sobrecarregar-se; dilatou-se; adelgaçou... e a terrivel aneurisma estava proxima a romper-se.

—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder providencial a revolta dos seus vassalos—comparou o medico, com delicadeza de phrase.

Tal acontecimento impressionou diversamente. Não havia unanimidade de sentir, nem de crença. Todos viam que o rei continuava a conversar na sua voz pausada e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado, mas podia enganar-se.

—A sciencia humana—disse um velho de sorriso sceptico—é fallivel. «A mais aguda, segundo o poeta, é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de sua magestade não é para sobresaltos.

—E a edade?—argumentou outro.

—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou o primeiro.

Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei, outr’ora tão expansivo, se callava frequentemente, levando a mão ao peito quando desejava respirar mais fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado, o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza da maldita surdez, que parecia não ter cura. Que se levantasse algumas vezes, que fosse até á larga varanda admirar a primavera que principiava a romper nos campos e veriam, como logo adquiriria vigor, como os olhos se lhe alegrariam.

Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros viviam da munificencia regia, preoccupavam-se, para o caso da morte, com o theor do testamento. Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa da propria fortuna; outros, mais reservados e scepticos, temiam não ser contemplados e perderem aquelle bom agasalho e santa ociosidade.

—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos obter d’esta fórma o equivalente do que gosamos?—resumiam.

—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha se o não fizesse!...

Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei, diziam estar dentro d’um cofre de malachite, guardado n’um armario de ferro. Ninguem o tinha lido, a não ser talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um motivo de palavras humildes e risos captivantes, em face do doente. Este homem, fabulosamente rico, podia deixar a independencia social aos que eram pobres e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha de o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua memoria. Isto de reis são orgulhosos, mesmo quando o não parecem; teem a vaidade de que os lamentem depois da morte, para se conservar a velha ideia biblica de que o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de Deus!

—N’esse caso que o pague—concluiam.

Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da saude do rei, houve um acontecimento que impressionou. O doente não tivera, durante a noite, uma hora de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas, sentira o sangue tumultuar-lhe nas arterias.

—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar torneios e golpes de lança!—criticou elle mesmo.

O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal a visita d’um antiquario estrangeiro. A surdez obrigava o monarcha a grandes esforços na conversa. Durante perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca de tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora, artistica e batalhadora, despreoccupada e cheia d’aventuras—bons tempos em que houve homens que foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como Cellini.

—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me esses sabios na rua—recommendou o medico.

A mulher do rei foi claramente informada da extrema gravidade da molestia de seu marido. Senhora de ascendentes fidalgos, muito temente a Deus, conseguira enfileirar na familia do rei, por um abuso da força poderosa da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação já caduca do soberano. Tambem se fallava de influencias clericaes, que miravam a obter para certo instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos entendiam que ella se prestára a aquecer os membros frios d’um velho, por simples vaidade de ser chamada rainha.

Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto da corte e a supremacia entre as mulheres. A importancia da doença do marido, cuja morte para ella significava a perda de todas estas garantias e vantagens, assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão composto e triste, que abrandou, no começo, a malevolencia de muitos que na corte lhe eram hostis. Ella que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas, os passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas paisagens illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo que o mal tomou o caracter assignaladamente grave, e installou-se ao lado da poltrona onde o marido dormitava, ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia.

Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem só com o rei. Condescendiam os camaristas, formando conjecturas, que nem sempre eram benevolas. Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam no rosto uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam que no semblante do rei, apesar da compostura calculada, apesar da respeitavel barba branca que lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona com as palpebras docemente cahidas... descobriam restos de fadiga e o aspecto d’um homem contrariado. Parece que se percebera n’um dia barulho d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar de mulher. A creadagem affirmava ter sentido beijos de esposos, palavras de colera, expressões de reconhecimento. Tudo isto não podia deixar de ser obra de testamento—entendiam. Os velhos amigos do soberano, sempre lhe tinham tractado respeitosamente a mulher, indicando, ainda assim, na friesa e polidez dos cumprimentos, que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os dias do doente com mortificações, e até a sua notoria religiosidade, tomavam como impostura.

A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem era licito desconhecer o proximo termo d’aquella vida d’opulencia. O proprio doente disso estava convencido e quando lhe diziam palavras d’esperança sorria com amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes e incommodas eram um desmentido claro. A oppressão no peito dava-lhe um sentimento de homem replecto. Os beiços engrossavam todos os dias, as olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras pesadas e adormecia facilmente como um bebedo. Este homem nascido em berço d’oiro, esta imaginação educada e aberta sempre n’uma atmosphera de delicadezas, repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma doença prolongada, começou a ter pelo corpo de que fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas pernas estavam grossas como rudes troncos de carvalho, o ventre volumoso chocalhava como um barril mal cheio, e, segundo lhe segredava a memoria, devia conter um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes. Preferia ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver molestias para reis, molestias limpas, que fossem o logico terminar da vida das grandezas. A cabeça recostada no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os olhos para fugir á vil realidade e entrar n’um mundo ideal de lembranças dignas. E parecia conseguil-o, pois havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e duma tranquillidade de stoico.

Viveria em imaginação no seu passado?

Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa a perceber viu-se rodeado da consideração, que pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe submissamente confiar as suas barbas, para que o principe as tomasse como brinquedo. Tinha sido entregue depois a professores, que sobre elle exerciam uma auctoridade parecida antes com a obediencia. Quando cavalleiro, gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára amores defezos, que tanto o divertiam pela posição do homem enganado. Subiu ao throno, e viu curvadas diante de si, as illustrações do sangue e da sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional poder, deviam receber a consagração. Aborrecido do mando, com o egoismo proprio da velhice, abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára ainda uma formosura que o amára, sentira-se remoçado e contente durante certo periodo...

Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações faciaes significativas de desgosto. É que sentia o desabar de todo esse mundo, como desabam as montanhas n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a sensação de que um largo alçapão se abria na terra e o engulia para uma escuridade absoluta e eterna! Era homem como os outros. Diante da miseria da carne estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o sceptro, a auctoridade real, os gosos da intelligencia, nada faziam para que tivesse um fim grandioso.

Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas batalhas medievaes, atravessando inimigos com lanças relusentes e acabando entre maldições e hymnos de gloria! A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda mais repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras entumescidas e cyanoticas, beiços grossos e olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho e ficara horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo.

Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade dos vivos cubiçando-lhe os haveres. A mulher queria um testamento que lhe fosse absolutamente favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís. Ao calor emprestado pelo sangue da donzella, devia o rei o prolongamento d’uma vida arruinada. Os filhos questionavam os seus direitos, com razões de casta, ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições de familia; da abundante riqueza que era preciso ostentar, para se imporem pelo fausto, como já se impunham pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis, companheiros dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados serviços mereciam uma recompensa, uma lembrança no supremo instante da despedida. A exigente consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses deveres como entendesse. Só assim poderia sustentar o respeito e consideração publica, continuando na sua mão as dependencias que até alli tinham sido do rei. Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com ameaças sobre a sua memoria.

Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha lembrou-se do suicidio. A razão aconselhava-lhe a findar o mais depressa uma existencia assim despresivel. Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e o gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde luctar desapparece d’arena—pensou resolutamente. Ia furtar-se a muito desgosto, a sentir o difinitivo escorrer do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar o peso d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir por mais tempo o chocalhar dos liquidos no ventre, o que lhe dava a ideia de que elle era um despresivel odre, caminhando no dorso d’um macho.

Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de Sèvres, espalhava no amplo quarto uma bruxuleante claridade. A rainha recolhera-se aos seus aposentos. Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os restos d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno tranquillo se espalhou no rosto do doente, todos se retiraram para as salas proximas. O rei sentiu-se bem, só. Calculou que todos estariam despreoccupados da sua pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho! Logo tentou erguer-se, fincando as mãos nos braços da cadeira. Mal se pôde mover! Estava entorpecido, o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel e severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições de semelhança com um sapo hydropico! Reagiu corajosamente contra a inercia dos musculos e, n’este esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se. Mas logo se sentou, para não cahir. A colera do seu espirito tomou proporções formidaveis, como o vento que arrasa florestas. Concentrou no combalido coração o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade. Queria supplantar este phantasma da impotencia, que se levantava deante dos seus olhos. Passando da cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois na hombreira da janella, apanhou a bengala de castão d’oiro e pedras preciosas, que lhe mandára de presente um papa, e conseguiu firmar-se em pé. Deu alguns passos cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor, parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu corpo projectada pela tenue luz estendia-se no pavimento, tremula de susto.

Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este senhor poderoso, esse phantasma movendo-se tropego e cauto no silencio da noite, é o proprio Luiz XI aterrado diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando, timido e com passo incerto, d’uma pequena estante entre duas janellas. Lançou mão d’um objecto que metteu no bolso do robe-de-chambre, furtivamente, como homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante oscilou, o barulho attrahiu um creado.

—Não preciso... não chamei...

Tremia de medo, como creança encontrada n’uma travessura. Veio o medico e o camarista. Approximaram-se, ampararam-no até á cadeira, e reprehenderam-no amoravelmente.

Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição.

Tentára esta experiencia para vêr se podia andar, sem o auxilio de ninguem. Querendo inferir, por si mesmo, da força e vigor de que dispunha, era necessario mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem. Ainda estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida para muito tempo.

Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que fôra temeridade o que acabava de fazer. Podia ter cahido, dar com a fronte na esquina de uma cadeira e isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda estava. Assim se interromperia uma boa convalescença, assim adquiriria novos padecimentos que podiam ser mais graves, muito mais graves do que os actuaes.

Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa, visto não ter dado mal nenhum, estava contente por têl-a feito. Atravessára o quarto sem auxilio, e era isso que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia seguinte fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e finalmente ao jardim.

—Poderei experimentar doutor?

—Com precauções, meu senhor, com precauções.

Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos. Estava evidentemente melhor, mais desafogado. Aquella experiencia tornára-o communicativo e alegre. Conseguira ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia para se fecharem. Que o deixassem só é que desejava.

—Mas vossa magestade...

—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei.

Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei conservou-se largo periodo immovel, os olhos fitos n’uma armadura que estava de sentinella a uma porta. Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer que o não vigiavam. A manhã surgia do infinito dos tempos. Os passaros começaram a chilrear nas acacias do parque. Ouviu-se o cantar lento e monotono do velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se como um nevoeiro que emerge d’um rio, o sussurro que fórma o dia—mistura de muitos sons. A creação universal ia engrandecer-se com um novo impulso do sol, n’este formoso dia de primavera.

O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem. Tacteava com perspicacia, para encontrar no braço esquerdo o signal d’uma sangria, que em moço lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado artista, com multiplicadas linhas d’oiro encrustadas em ferro. Abandonava riqueza e fausto, sentia-se podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos e dos desventurados abriu a cicatriz quasi apagada. E emquanto esse sangue de rei escorria, gottejando no chão, o moribundo encostou a cabeça no espaldar alto da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando:

—Acabou-se.

Penderam-lhe os braços, a cabeça rolou para um lado, todo o seu corpo foi entregue ao supremo desleixo da morte!

O segredo d’este acontecimento conservou-se nos intimos do palacio. O medico, ao contemplar o cadaver inerme, com a ideia nos soffrimentos que ainda estavam reservados ao monarcha se continuasse a padecer, concluiu:

—Foi melhor assim!

Lisboa, janeiro 85.