AO MEU GATO

Ai! meu pobre animal unicos restos
do meu viver de então;
Companheiro nos dias tão funestos
e d'esta solidão.
Ficaste ainda assim ao meu abrigo
para me acompanhar,
Tu agora, talvez unico amigo
que sabe o meu penar.
Tua dona morreu: Já não existe
quem te affagava emfim;
Hoje pobre animal, tu hoje triste
só me possues a mim.
Como tudo mudou, como perdida
nos foi a nossa luz;
e cada qual de nós em sua lida
tem hoje a sua cruz.{34}
Hoje é tudo deserto, o lar sem lume
para te conchegar
que foi-se-nos da vida esse perfume
o conforto do lar
Ai! meu pobre animal tão resignado,
me vens agradecer
não me olvidar, embora fatigado
de dar-te de comer.
Mas tu tambem não comes, tambem sente
teu seio cruel dor,
porque ás vezes me fitas de repente
com bem triste amargor.
Que fazemos nós ambos sem conforto
n'este deserto assim!
Oh! vamo-nos embora d'este horto
partamos já emfim.
Nem eu, nem tu já temos alegria,
tudo vimos morrer;
que fazemos aqui de noite e dia?
apenas só gemer.
Oh! vamo-nos embora e bem depressa
que já não póde mais o coração,
acabe-se o tormento que não cessa,
fujamos d'esta triste solidão.

Agosto—1870

Costa Goodolphim.{35}