Capitulo IX
Do pranto que Aonia fez pela morte de sua irman Belisa
«A senhora Aonia (lembrando-lhe o que vira fazer á dona viuva sobre o corpo de seu morto irmão, que o devido costume ao tempo do luto lhe parecia então,—posto que em sua terra se não usasse) pondo-se sobre o corpo de sua irman, rasgando os toucados dos seus formosos cabelos, que longos eram, á maravilha, a cobriu toda, e tambem a Lamentor, que éla bem cuidou que era falecido; que pelo grande bem que êle queria a sua irman, leve lhe foi isto de crer, vendo-o da maneira que via!
«Depois de muito cansada, em alta e dorida voz, começou por estas palavras:
—«Triste de mim, donzela de pouco tempo, desamparada em terra alheia, sem parentes, sem ninguem, e sem prazer! Como vós, senhora irman, me pudestes deixar só, tam longe e em tal lugar?! Para vos tirar a saudade, me dizieis vós que vinha eu cá: e vós, para m'a dar a mim, vinheis!... Malaventurada de mim! Para outros fados, cuidava eu que me criava a mim minha mãe, e éla foi a enganada, e eu a que hei de pagar agora o engano! Quam sem-razão tamanha, senhor cavaleiro, me é feita diante de vós! De quantas donzelas por vós foram amparadas, eu só estava para o não ser! Coitada de mim! Que farei? Onde me irei?...»
«E assim se lançou sobre o corpo de sua irman.
«Mas, ao invocar o cavaleiro, Lamentor a ouviu, como por sonhos; e tornando em si, viu diante tantas mágoas que ficou sem fala um pouco; e vendo logo como se matava toda a senhora Aonia, esforçou-se para a ir ajudar, para que tam cruelmente se não matasse, dizendo:
—«Esforçae-vos, senhora, pois a fortuna quis que um tam desconsolado vos console!»
«E foi-a a erguer; e, querendo-lhe falar, lhe faleceu a fala.
«Ali, houveram ambos mui triste pranto, e entre si se diziam, um ao outro, palavras de muita mágoa, começadas pela dôr, rotas pelo pranto.
«E era já manhan clara.
«E acertou assim que, áquela hora, chegava um cavaleiro á ponte, e vinha de longes terras buscar aquela aventura, por mandado d'uma senhora que lhe queria bem a êle: mas êle a éla devia-lhe mais do que lhe queria.
«Não achando ninguem na ponte, e ouvindo perto d'ali tam grande pranto, pareceu-lhe algum misterio, ou alguma cousa de dôr.
«Deu a andar para onde era; e, vendo uma rica tenda, e ouvindo muita gente, dentro e fóra, chorando, preguntou a um servidor, que topou, que cousa era aquela. E êle lh'o contou.
«E, apeando-se êle então, (mandando primeiro adiante o escudeiro de Lamentor) muito mensurado e humildemente, entrou após êle.
«E entrando, e vendo a senhora Aonia, que em grande extremo era formosa, soltos os seus longos cabelos que toda a cobriam, e parte d'êles molhados em lagrimas, que o seu rosto por alguma parte descobriam, foi logo trespassado do amor d'éla, sem haver quem, por parte d'outrem, fizesse defeza alguma; e como o amor viesse juntamente com a piedade, parecia que vinha éla só; mas, quando se descobriu, eram já conhecidas tantas razões por parte da senhora Aonia, que não tam sómente lhe esqueceu a outra, mas não lhe lembrou mais senão para lhe pesar do tempo que gastára em seu serviço.
«D'esta maneira, foi êle preso do amor da senhora Aonia; e, depois, veio a morrer por éla.
«Este foi um dos dous amigos de que é a nossa historia. E, por isto, costumava meu pae dizer que tornára o amor d'este cavaleiro a morrer na paixão onde se levantára. Mas, para isto, seu tempo lhe virá.