Capitulo XIV
De como, partido o escudeiro do cavaleiro da tenda, entrou em pensamentos de como se separaria d'êle, e mudaria o nome
«Partindo o escudeiro com o recado (enganado êle, e para quem o levava) ficou o cavaleiro só, e começou a entrar em pensamentos de que maneira mudaria o nome, para que não fosse sabido onde estava, nem se pudesse saber para onde ia; que tanto se senhoreou, n'aquele pouco tempo, o amor d'êle, que a si mesmo queria já, em parte, deixar.
«Mas, lembrando-lhe n'isto que n'outro tempo lhe dissera um adivinhador que, quando êle mudasse a vida e o nome, seria para sempre triste, ficou um pouco mais pensativo; mas tornando logo a fazer menos conta d'aquelas cousas, como incertas, e, comtudo, não querendo ir de todo contra élas, por outras muitas que tinha ouvido pensou em trocar as letras do seu nome. De maneira que, assim, o não mudaria, nem tentaria os fados.
«Mas êle não viu que isto era engano tambem dos fados.
«Estando êle assim n'este pensamento, acertou, por acaso, que um mateiro vinha do mato pelo caminho que ia ter á ponte, e vinha em cima de sua besta, como deitado, e mal coberto com um enxalmo. Parece que andando êle, despido, cortando a lenha, ateára-se algum fogo perto do seu vestido, e lh'o queimára; e então o mateiro, por lhe querer acudir, descuidára-se de si, e o fogo fizera-lhe algum dano, em partes de seu corpo.
«E, a direito do cavaleiro, topou com outro mateiro, que para o mato ia, que lhe preguntou, vendo-o vir assim sem lenha, para que fôra ao mato, respondendo-lhe o mateiro queimado, falando-lhe galego, estas sós palavras:
—«Bim n'arder.»
«Olhou o cavaleiro para o barbarismo da letra mudada na pronunciação de b por v, e pareceu-lhe misterio; porque ele era aquele que tambem se fôra a arder,—quis-se chamar assim d'ali ávante.»