Capitulo XIX
De como conta a ama á senhora Aonia o que vira fazer ao pastor acabada a cantiga
«Em dizendo este derradeiro verso, parece que não podendo êle já suster as suas lagrimas, calou-se, como estorvado d'élas; e, entendendo-o a ama, pelo soltar da flauta, e tomar da aba do gabão para limpar-se, tamanha paixão a comoveu que não pôde ter as suas, lá onde estava, e sempre lhe falara, se não fôra que vinham chamá-la já de casa.
«Foi forçada a levantar-se éla, e foi-se, ocupada toda a fantasia d'aquele pastor, pois algum grande misterio lhe pareceu.
«E como o que está ordenado de ser, logo traga asos consigo, entrando a ama em casa, e topando Aonia só, á boa-fé, sem mau engano, se pôs a contar-lhe tudo, e a jurar-lhe e tresjurar-lhe que não podia ser pastor.
«E, porque já Aonia entendia a lingoagem d'esta terra muito bem, lhe disse a ama a cantiga. E quando lhe veio a contar como o pastor, com aquelas derradeiras palavras, deixara cair a flauta no chão, e com a aba do gabão (que de burel era) se limpara das lagrimas que com élas lhe vieram; e, acabando de limpar-se, olhara para a aba, que com ambas as mãos tinha, e como (parece) lembrando-lhe do que éla era, ou não sabia porque, encostara o rosto a éla, assim entre as mãos, como estava; e, após um grande suspiro, se deixara estar assim, e assim ficara quando éla viera, que, pela chamarem n'este meio tempo se tornara tam triste como havia muito tempo que o não fôra por causa alheia... E encheram-se-lhe á velha ama os olhos d'ágoa, em dizendo «cousa alheia». E assim se virou para outro lado, e foi-se fazer cousas de casa.
«A senhora Aonia, (que ainda então era donzela d'entre treze a quatorze anos) sem saber que cousa era bem-querer, de umas lagrimas piedosas regou as suas formosas faces, e, sobre élas, os sentidos primeiros lhe inclinou, tanto podem, algumas horas, as cousas ouvidas!
«E, se não fôra que era éla moça, facilmente o entendêra logo; mas, não o entendendo, mil vezes n'aquele dia tornou a pedir á ama lhe dissesse, ora a cantiga, e ora como estava o pastor.
«E, por acerto, perguntando-lhe uma vez de que feições era, lhe disse a ama:
—«Eu já outras vezes o vi, de bom corpo, e de boa disposição; a barba um pouco espessa e um pouco crescida que a êle traz, parece que é aquela a primeira ainda. Os olhos brancos, de um branco um pouco nublado; na presença, logo se enxerga que alguma alta tristeza lhe sujeita o coração.»
«Lembrou a Aonia só tornar-lhe a perguntar quando foram as outras vezes que o vira.
«Disse-lhe então a ama que o pastor se vinha pôr derredor d'aquelas casas sempre, e ás vezes se punha a falar com os oficiaes, e outras andava defronte (na ribeira d'aquele rio) pastorando o seu gado. E este era o pastor a que todos chamavam «o da flauta», que conhecido era de todos.
«Não o conhecia Aonia, porque nunca saira fóra. Mas como então logo pôs na sua vontade de olhar para êle, e de buscar maneira para isso, (tamanho dó lhe fez ouvir d'êle o seu canto) enganada assim d'aquela falsa sombra de piedade, toda aquela noite seguinte não pôde dormir. Mas não que já fosse declarada consigo, nem debaixo d'aquele desejo determinasse nada; porém, ardia em fogos de dentro de si.
«E porque de todo o ponto se acabasse isto de confirmar de todo, ainda bem não era manhan, saindo a ama da menina a uma varanda á maneira d'eirado (que sobre uma parte das casas estava, e fôra feita, logo no começo, para despejo) viu o pastor estar só, sobre a borda d'este rio, não muito longe do lugar onde o éla vira o dia antecedente,—que ali estava o freixo onde se ele pôs a primeira vez que saira da tenda, onde tambem viu a sombra, como vos disse, e ali foi onde depois veio a morrer.»