Capitulo XVI

De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria, viu de subito vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar

«Ficando Bimnarder com o pensamento cheio do que aquilo seria, começou de ouvir um estrondo grande que vinha pelo mato para onde ele estava. E, inda bem o não ouvia, quando, correndo por ante si, viu passar o seu cavalo, e uns lobos após êle, e após êles, de longe, vinham correndo uns cães com grande grasnada.

«E, ao saltar d'este ribeiro, caiu n'êle o cavalo. E, chegando os lobos, começaram a mordê-lo por todas as partes, de maneira que, comquanto prestemente Bimnarder acudiu, já êle era morto.

«E não tardou nada que uns pastores, que perto d'ali tinham a malhada do seu gado, ao filar dos cães, vieram ali ter, afigurando-se-lhe ser morta alguma rês; e, achando Bimnarder assim agastado, começaram-no a querer consolar com palavras e modos rusticos, oferecendo-lhe pousada por aquela noite.

«Aceitou êle, ainda que não desejava então companhia; mas pelas horas o fez, e tambem porque logo cuidou que, quando os pastores fossem no seu rebanho, não lhe haviam mais de tolher o tempo ao pensar,—que para êles não se fizera a noite senão para dormir.

«Foram assim ao fato de uma grande manada de vacas (que todas estavam alevantadas, com o alvoroço dos cães e medo dos lobos) metendo-se os pastores e Bimnarder por entre élas, que lhe iam fazendo lugar, e escornando umas ás outras.

«E, assim, saindo d'entre élas, estava uma fogueira grande junto de uma choupana de sebes, cortiçada por cima. E junto d'esta, ao fogo, jazia deitado, sobre rama verde espalhada, um pastor já de todo branco, que maioral era do fato; e tinha sua cabeça encostada sobre um tronco de madeira; e uns rafeiros ainda pequenos lançados em parte por cima do velho pastor, e outros, grandes, com as cabeças estendidas sobre êle.

«E, em pastores chegando, ergueu êle a cabeça um pouco, e, como homem que era avisado em semelhantes casos, descansadamente começou a preguntar pelo que se passava. Contando-lhe êles que não era nenhuma rês morta, tambem lhe contaram do cavaleiro que traziam.

«Ergueu-se êle então assentado, e fazendo-lhe lugar na rama de sua cama, lhe rogou que se fosse assentar. E assentado Bimnarder, e assentados todos derredor d'aquella fogueira, pediu o velho maioral a Bimnarder que lhe contasse como aquele desastre lhe acontecêra.

«Contou-lh'o êle, brevemente, por lhe satisfazer: como andando o seu cavalo pastando vieram aqueles lobos, e mataram-lh'o, primeiro que lhe pudesse valer.

«Ao que, começou com uma fala retumbada a falar o pastor, como que o queria consolar n'aquela mofina, dizendo:

«Os desastres que acontecem com os animaes ferozes n'este vale, é cousa espantosa, e, para quem o souber, mais leves de sofrer, se a companhia em isto dá consolação! N'uma noite de inverno escura, sendo eu mais novo que agora, diante dos meus olhos, me tomaram a minha vaca bragada (mãe d'est'outras bragadas, que tenho'inda agora) e mataram-na. Pois tinha eu então ao pé de mim o rafeiro malhado, e a rafeira branca sua mãe, armados os pescoços ambos, que nunca me achei com êles, em lugar tam ermo nem em noite tam trabalhosa, que não estivesse seguro como na metade do dia; mas então pouco aproveitavam êles a mim, que bradava a coitada da vaca, e bramia tam doridamente que, em breve espaço, ajuntou quanto gado tinha, que estava, á la fé, a um bom pedaço d'ali. E já aqui, onde agora estou, me vieram no claro dia matar quantos bezerrinhos tinha, que inda não eram para andarem com as mães.»

—«E porque estás então aqui, pastor honrado?»—lhe disse Bimnarder.

—«Nunca vistes outra cousa, lhe disse o pastor, não ha o haver senão onde ha o perder. A terra é abastada de pastos; e, assim como cria o bom, cria o mau. Já ouvi dizer a um grande homem, que era dado ás cousas do outro-mundo, falando na povoação d'esta terra (que, ainda que a vêdes assim, por partes, metida a mato, é de pastores, em muita maneira, povoada) que isto era uma das maravilhas da natureza: de uma mesma terra nascerem duas, tam contrarias uma á outra. E isto não era só nas alimarias, mas nos homens:—que não ha maus senão onde ha os bons, e não ha ladrões senão onde ha que furtar. Mas, quanto a mim, não sei qual é pior para nós outros, pastores:—na terra de pouca ervagem perece-nos o gado á fome, e cá n'est'outra, matam-no-lo. Assim, em toda a parte nos vae mal. Mas nós outros somos, emfim, como dizem que são todos os outros homens (e vós, senhor cavaleiro, o sabereis): podemos melhor sofrer o mal que nos faz outrem que o que nós fazemos a nós outros mesmos. Os danos da terra fraca, porque está em nosso poder sairmo-nos d'éla, não os podemos sofrer; os da outra, que não está em nós vedarmo-los, sofrêmo-los como podemos. Assim, tambem digo eu, senhor cavaleiro: no vosso caso, não estejaes agastado; descansae, e tornae tudo á culpa da terra.»

«Estas palavras, a Bimnarder, pareceram bem; e, se não fôra porque era contar o pastor a verdade de sua vida, cuidára êle que não eram estas palavras de pastor; mas o que cada um passa, facilmente o sabe bem contar; e, por isso, não lhe tornou resposta mais que umas palavras em sinal de agradecimento d'aquele bom conforto, fazendo menção de querer repousar; o que vendo, o velho pastor mandou a todos que se calassem, e que dormissem. E foi feito assim.

«E começaram em breve espaço os pastores a roncar, estirando seus rusticos membros, uns para cá, outros para lá, como ao sôno aprazia.

«Só Bimnarder não podia repousar, tendo no coração a quem êle não doía. E quando a todos a escura claridade das estrelas aconselhava o sôno, d'êle o tinham desterrado os seus cuidados.

«Antes, com os olhos postos para aquela parte d'onde viera (segundo parecia, com o corpo só) á senhora Aonia, ausente, êle a ouvia chorar.

«E em a longa noite esteve assim, 'té que aquele cansado corpo adormeceu aquela parte dos sentidos sobre que tinha algum poder. Sonhos e fantasias ocuparam a outra.

«Mas, depois de um pouco de sôno, acordou êle, todo banhado em lagrimas, porque sonhára, chorando, que o levava d'ali, por força, a sombra que vira d'antes. E correndo-lhe, por isto, muitas cousas pelo pensamento, assentou consigo de se não ir d'aquela terra, 'té vêr o que podia ser d'êle n'aquele cuidado, que o assim tomára, e assim o seguia.

«D'esta maneira, cuidava êle que não iria contra aquilo que, porventura, lhe adivinhava o sôno, se o fizesse.

«Tamanho desejo tinha de se não ir nunca d'ali, que tudo lhe parecia que lh'o aconselhava; e, de muitas maneiras que cuidou, n'esta assentou por derradeiro: despedir-se cedo d'aquele velho maioral, e ir-se a algum lugar perto d'ali, onde mudasse os trajos, e tornasse a assentar vivenda com êle, que grande rebanho lhe parecia que trazia.

«E, ainda que muitos mancebos lhe visse, a pouquidade da soldada faria com que lhe não fosse sobejo qualquer pastor.

«E assim o fez.»