Capitulo XXVIII
De como, estando da queda Bimnarder muito doente, Aonia buscou maneira por onde o fosse visitar
«Veio assim, por acerto, que perto d'ali havia uma ermida de uma santa de grande romagem, e era então, no outro dia, a vespera do seu dia; e a ama e as mulheres de casa ordenaram ir lá.
«Havida licença de Lamentor para Aonia, e postos a caminho, (que a pé podiam bem andar) ao passar pelo monte, se chegou Enis a Aonia, e disse-lhe que ali era, porque iam já concertadas.
«N'isto, fez Aonia que cansava. A ama disse logo que repousasse um pouco. Mas, d'esta vez, não teve éla maneira para ir aonde Bimnarder estava. Foi lá Enis.
«De tornada, fizeram ali grande detença. Buscando achaque de querer lá ir para detraz das casas, levando Enis consigo, houve tempo para Aonia entrar onde êle estava então deitado, contra a outra parte da parede, chorando, porque não vira Aonia ao passar, que bem se pudera êle erguer. E como isto perdêra, cuidava tambem que havia de perder a tornada; porque um mal nunca lhe viera sem outro, pelo que estava no maior pranto do mundo para consigo.
«Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que êle chorava, e suspirava baixo, de maneira que como, n'aquilo, se forçava a si mesmo.
«Éla, para vêr se poderia saber o porquê, que tudo desejava saber d'êle, deteve-se ainda mais: mas êle com pensamentos muitos, que sobrevinham ao choro, mais o acrescentava do que o diminuia.
«Assentando-se então Aonia na borda d'aquela sua pobre cama, lhe pôs a mão, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas não pôde, que lhe faleceu o espirito.
«Virando-se Bimnarder, e vendo-a, tambem lhe faleceu o seu.
«Estiveram assim ambos um grande pedaço sem se dizerem nada um ao outro: e êle com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no chão, porque, em se virando Bimnarder, tomou vergonha. Levando-os assim á terra, cobriu-se-lhe o seu formoso rosto de um tanto de côr, alem da natural; e costumava dizer meu pae (porque parte d'esta historia em seu tempo se soubera) que não parecia senão que viera aquela côr como para ajudar ainda mais Aonia contra Bimnarder, tam formosa a éla, formosa, fizera.
«Mas, estando assim n'isto êles ambos, e não estando êles ambos ali, chegou Enis muito de rijo á porta, dizendo que se queriam já ir, e que a mandavam chamar.
«Assim, foi forçoso levantar-se Aonia, e ir-se, e Bimnarder vêr tudo, e ficar.
«Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma manga de sua camisa, e, rompendo-a, para remedio de suas lagrimas lh'a deu, significando, na maneira só como lh'a deu o para que lh'a dava; pois parece que a dôr grande que sentia não lh'o deixou dizer por palavras; mas, em lh'a dando, pôs os olhos nos seus, dizendo-lhe só assim:
«—Pesa-me, pois a minha ventura, ou desventura, não quis que vos eu deixasse de magoar com o que eu não quisera.»
«E estas palavras lhe disse já fóra da porta.
«E com élas, e com o que sentiu ao dizer d'élas, duas a duas, lhe começaram as lagrimas a correr dos seus formosos olhos, e pelas suas faces formosas abaixo lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que Bimnarder a tanto pranto convidou quanto era a razão d'êle, pois perdia a vista.
«Foi tanto o choro, que não lhe bastavam os seus olhos ás suas lagrimas, pelo que lhe não pôde então dizer nada. Mas Enis, apressando Aonia com a fala, e com as mãos, quasi puxando-a, e levando-a já, virou-se para êle Aonia, dizendo:
—«Levam-me!»
«E, deixando-se ficar toda com os olhos, se foi assim, enlevada, até que, com a parede das outras casas, passou alem.
«Apartada que éla foi de Bimnarder, êle não se pôde ter que pela outra banda da sua casa se não saisse para aquela parte d'onde se podia ver o caminho que élas levavam; e ali esteve olhando, entretanto a terra lhes deu lugar, e depois, um grande pedaço, em quanto poderiam bem chegar a casa; pois, parece, folgam tambem os olhos com a presunção, e descansam em olhar para aquela parte onde está, ou vae, aquilo que podiam ver, se não fôra a fraqueza d'êles, ou o impedimento d'alguma cousa.
«Mas como lhe pareceu que estaria já em casa, lembrou-se logo do lugar onde éla estivera na sua cama assentada, e com grande pressa se tornou para lá.
«E, entrando, foi-se ali pôr, onde éla estivera d'antes.
«Consigo estava fantasiando a Aonia; ora lembrando-lhe como aquilo fizera, ora como aquel'outro.
«Depois, tomando aquela parte da manga, que lhe deixára, se punha a chorar com éla, de mistura com palavras tristes, como que as houvesse éla de entender.
«N'isto passou aquela doença, em que grandemente foi visitado por Enis; e sarou depressa.
«E, d'aqui até que lhe aconteceu a desventura que vos contarei, se passaram tempos e outras infindas cousas; porque os paços de Lamentor acabaram-se, e pelo apartamento do lugar onde êles estavam, Aonia e a ama, com outras mulheres de casa, iam passar tempo á ribeira d'este rio, onde Bimnarder sempre andava.
«Mas nenhuma cousa ha n'este mundo em que se deva ninguem muito fiar; que aquela grande segurança em que Bimnarder estava, em lugar tam ermo, lhe não pôde durar, como agora vereis.»