Capitulo XXX
De como Fileno, o marido de Aonia, desejoso de a ter em seu poder, a levou de casa de Lamentor muito acompanhada
«Descidos os de cavalo, estiveram por grande espaço com Lamentor; e, depois, começaram saindo uns atraz dos outros, fazendo maneiras de prazer.
«E, n'isto, viu Bimnarder donas a cavalo, e viu o fio da gente encaminhar-se para a ponte; pelo que teve ensejo de preguntar a um pagem que cousa era aquela.
«Disse-lh'o êle, seguindo seu caminho; mas Bimnarder não o acabou de crer, tamanho abalo fez no seu cuidado.
«Porém, olhando, viu a Aonia, e com éla, da parte esquerda, o seu esposo, que conhecido ia nos trajos e na comunicação da pratica que entre ambos levavam; porque tudo, como derradeira cousa, olhava Bimnarder, e muito bem viu!
«E Aonia nunca se virou para aquela sua banda, que continuada sempre d'éla era; mas antes, porque ia inclinada para aquela parte onde o esposo ia, pareceu-lhe a êle que o ia muito mais do que éla ainda ia, e que o fazia por acinte. E isto é natural, pois quando uma pessoa vos cae n'um erro, todas as cousas, que depois faz, tomais á pior parte, como aqui aconteceu.
«Ficou Bimnarder tam maguado que d'ahi a mais de uma hora não cuidou de nada. E, ao cabo d'éla, virando-se para outra parte, se foi; e não no viram mais.
«N'aquele dia á tarde, veio Enis buscá-lo; e, não no achando, preguntou por êle; e disse-lhe outro pastor (que por acaso acertára então de estar perto d'êle, olhando tambem a gente) que, depois d'éla passada, estivera êle um grande pedaço sem se mudar do lugar d'onde estava e sem tirar os olhos do chão, como homem pensativo, em sua maneira. E tanto que êle mesmo olhára para isso, e quisera-lhe falar, senão quando êle, n'isto, virára para outro lado, e, pela ribeira, dando a andar apressadamente, desaparecêra, e nunca mais o vira. E já êle mesmo fôra ao monte de seu amo preguntar por êle, para que viesse pastorear seu gado, que andava desmandado, e não o acharam; e que, do monte, tambem o foram buscar por todo este mato, e pareceu a todos que seria ido, porque êle nunca tal costumou; e já outrem andava com o seu gado.
«Ficou Enis toda fóra de si; e logo cuidou que lhe não cumpria ir ver Aonia, nem viver com éla, pois saira tam mal o seu conselho.
«E, tornada para casa, ordenou dilatar a sua ida por alguns dias, para ver se sabia novas de Bimnarder.
«Entretanto, não sabendo nenhumas, e apressando-a Aonia para que lh'as levasse, determinou, comtudo, ir; porque, por outra via, cuidou para consigo que com pouco trabalho se lhe tiraria por então Bimnarder do pensamento; que os casamentos, á primeira vista, parecem outra cousa; e senhoras, que d'antes foram presas de amor, logo aos primeiros dias esqueceram todo o passado; mas depois, por cousas e desgostos, que nascem da culpa do longo tempo, ou conversação que traz menospreso, tornaram muitas vezes ás lembranças do primeiro.
«Porque n'isto, que Enis consigo cuidou, quis obedecer a Lamentor, que já, a pedido de Aonia, mandava que a levassem.
«Que vos hei de dizer?
«Ainda bem não chegavam, afastou-se Aonia com éla, mas, sabido o que se passava, chorou muitas lagrimas e maldisse o dia em que nascera.
«Enis, que era avisada, e via que, pois o mal não se podia curar, se devia dilatar, lhe fez uma fala d'esta maneira:
—«Deixemos, senhora, o pranto, que d'êle não se vos podem seguir senão dous males muito grandes. Um, é que mataes a vós com o choro; e quando, porventura, vier Bimnarder, não vos quereria achar assim, e será esta então maior ofensa para êle; porque est'outra tem desculpa, e esta não a terá para êle, senão se lhe quiserdes dizer que desconfiaveis d'êle, que monta tanto como cuidardes d'êle mal. Ora vede lá, senhora, convosco, se podereis dar a culpa a quem quereis tamanho bem! Pois, afóra isto, tendes ainda outro mal: que correis risco de se saberem vossos prantos, e, como êles sejam tomados em tempo de bodas, não se poderá deixar de suspeitar d'eles mal. E, por aqui, tolher-se-vos-á, porventura, o que póde ser em algum tempo, o que eu espero; porque as lagrimas de Bimnarder não podiam ser sem vos êle querer muito grande bem, que lhe não doesse muito o que fizestes; e não lhe póde doer muito o que fizestes que, n'algum tempo, não queira saber o como ou porque o fizestes;—porque o bem-querer grande faz sentir muito os escandalos recebidos, e crê-los em parte, quanto baste para o sentimento ser maior do que póde ser. Mas, porém, sempre deixa uma duvida lá na crença, para experimentar n'algum tempo, tarde ou cedo, segundo a dôr grande ou pequena lhe dá lugar. Não póde ser que aquilo que vós, senhora, sabeis, não faça duvidar Bimnarder do que fizestes, até se êle desenganar por si mesmo. Ou, se isto não é assim, não ha verdade no mundo nem nos homens!»