SCENA IV
MORGADINHA, JOÃO LOPES E DEPOIS FREDERICO
Morgadinha
Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.
João Lopes (para dentro, levantando o reposteiro)
Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. (João Lopes sáe, assim que entra a supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo espesso, e cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita por uma fimbria do reposteiro. João Lopes tosse.)
Morgadinha (alto)
Passou bem, snr.ª D. Thomazia!.. (Baixo) Não me falles que meu pae está espreitando, em quanto João Lopes tossir... (Tocam e cantam{114} a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)
João Lopes
O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico; estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam lá...
Frederico (levanta o véo, abraçando o velho)
Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a você um habito de Christo!
Morgadinha
Deixa-o ir, deixa-o ir... (João Lopes sáe.){115}
Frederico (tomando-lhe as mãos calorosamente)
E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh! (contemplando-a absorto) que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo! Não és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não ouso beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de labios e almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!
Morgadinha (desviando-se)
Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?
Frederico
Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e... devora-me!
Morgadinha
Vamos ao caso... Como estão os negocios?{116}
Frederico
Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua emancipação, visto que já contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade. (João Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo tregeitos de enlevado.)
João Lopes (mettendo a cabeça)
Podem conversar, que elle passou para a tulha.
Frederico (com transporte)
És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o pé quebradiço{117} e chinez em attitude dançante, sacodes e impelles brazas á minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! (Fixa os olhos espantados no tecto da platêa. Musica surda) A minha vida vae ser uma etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças nectáreas do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de Raphaeis, será o meu Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!{118} (Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse com maior força. A morgadinha adverte em vão Frederico que continúa no seu arrebatamento:) Abre-me aqui já o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orphão dos teus carinhos... (Pantaleão ao fundo, erguendo o reposteiro.)
Morgadinha
Ah!
Frederico (sobresaltado)
O diabo! (Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)
Diz a teu pai que a mestra
Para melhor te ensinar,
Te está cantando uma ária
Das que se usa cantar
No Theatro de Lisbôa:
Prega-lhe a pêta, que é bôa;
E se esta nos não salva,
Nada nos póde salvar.{119}