SCENA IV
GUTERRES E O CREADO
Guterres (com um sacco de viagem)
Olá, Gregorio!
Creado
Por cá, snr. Guterres! Como está V. S.ª?{152}
Guterres
Bom. Ha quarto?
Creado
Hade haver. D'onde vem?
Guterres
Da Povoa. Venho no rasto d'uma mulher divina que veio n'um carro. Está cá?
Creado (rindo)
Ora V. S.ª que ha de sempre andar atraz de mulheres! Com esta é a setima vez que o vejo n'aste fadario! E o maganão sabe-as escolher!
Guterres
Então viste-a, viste-a? Boa de lei, eim? Onde está ella?
Creado
Alli no n.º 10.{153}
Guterres
Alli? Oh! que perola se esconde n'aquella feia concha! Quem dirá que o meu ideal sonhado ha trinta e seis annos está na estalagem de Barcellos! Alli! n'aquelle antro!
Creado
Sempre V. S.ª está um poeta d'aquella casta! Lembra-se da filha do regedor de Guilhabreu que cá esteve na festa das Cruzes ha cinco annos?
Guterres
Lembro. Era uma trigueirita d'olhos pretos...
Creado
E os versos que V. S.ª lhe botou? a gente sempre se ria...
Guterres
Ah! vocês riam-se dos versos? Tens tu a felicidade{154} bestial de te rires da poesia? O talento póde contar com o couce até em Barcellos... Ora vamos... onde tenho eu quarto?
Creado (indicando-lhe um do fundo)
Está alli o n.º 11.
Guterres
Bem. Podes ir. (Entra na alcova. O creado sáe.)