SCENA IX

MACARIO E A MORGADINHA

Macario

Tenha V. Ex.ª muito boas tardes.

Morgadinha (enfastiada)

Viva, snr. Macario, as mesmas.

Macario

Tem-lhe passado o fastio? Aquelle emplasto confortativo que eu lhe mandei fez-lhe bem?

Morgadinha

Não o puz: cheirava a pez.

Macario

De pez de vergonha era; fui eu mesmo que{42} o manipulei... Então, a snr.ª morgadinha vae ao arraial?

Morgadinha

Vou.

Macario

Faz muito bem; que lá hade encontrar pessoa que muito interessa a V. Ex.ª... enganei-me... pessoa que muito se interessa em vêr V. Ex.ª queria eu dizer.

Morgadinha

Como é isso? não percebi.

Macario

Eu me vou explicar. Eu cheguei hontem de Guimarães, onde estive com o snr. deputado Cosme Jordão, um sabio que tem votado grandes fallas no parlamento... Ha de ter ouvido fallar V. Ex.ª...

Morgadinha

Não sei nada de parlamentos, não leio periodicos.{43}

Macario

Pois, minha snr.ª, o doutor Cosme Jordão é um sujeito conhecido em todo o mundo, e lá na côrte até vae ao palacio do rei e come lá...

Morgadinha

Deixal-o comer, que tenho eu com isso?

Macario (áparte)

Não faço nada! está hoje levadinha dos diabos.

Morgadinha

Vamos, diga lá, snr. Macario.

Macario

Pois este deputado vae hoje á romaria do S. João.

Morgadinha

Deixal-o ir; que se divirta. Então é esse o homem que me quer vêr?{44}

Macario

Eu me explico. O snr. deputado Cosme diz que vira V. Ex.ª...

Morgadinha

Ainda bem; é signal que não é cego. E que mais?

Macario

E que ficou muito agradado de V. Ex.ª...

Morgadinha

Pois tem máo gosto e perde o tempo. Que mais?

Macario

V. Ex.ª, se o vir, não hade fallar assim. É ainda homem de boa edade, cheio de corpo, com uns oculos que lhe dão muito respeito á cara.{45}

Morgadinha

Ora! oculos de respeito! que me importa cá a mim os oculos do homem? sabe que mais, snr. Macario? (Põem-se a bamboar uma perna sobre a outra, e a trautear o «Pretinho que vem d'Angola».)

Macario

Finalmente, snr.ª morgadinha, como V. Ex.ª quizer; mas lembre-se de que seu pae deve á fazenda nacional uns seis contos de réis, e que o snr. doutor Cosme, casando n'esta casa, hade fazer com que seu pae não pague nada, e mesmo no futuro lhe não lancem impostos.

Morgadinha

Não me seque, snr. Macario. Vocemecê queria que meu pae pagasse commigo ao tal Cosme o que deve á fazenda? Pois que pague com o que é d'elle, e que me deixe com menos dote. Tenho dito, e deixemo'-nos de lerias. Metta-se lá na sua botica e não se faça casamenteiro. Vá fazer charopes.{46}

Macario (áparte retirando-se)

Apre com a cabra!

Morgadinha

Que tal está o sacripanta!