SCENA ULTIMA

OS MESMOS E FREDERICO

Frederico (ajoelhando diante da morgadinha)

Sim! sim! recebo de vossas mãos, Senhora, a espada que ha de decepar as infinitas cabeças da hydra financeira! (Espanto geral.)

Macario

Como se entende esta caranguejola, snr. morgado!?{136}

Pantaleão

Snr. Macario... esse homem... vae ser... vae ser... Eu desmaio!

João Lopes

Vae ser o marido da menina... (a Pantaleão) Faça favor de não desmaiar, por quem é!

Frederico (com vehemencia e fogo)

E o marido da morgadinha de Val-d'Amores vae conduzir-vos á victoria, briosos populares! Eu vos ensinarei a calcar tyrannos! Auxiliado por vós, intrepidos filhos do norte, levantaremos o paiz das palhas pôdres em que o prostraram os comilões. Eu fallo assim, porque cada nação, nas horas criticas, tem o seu Vigor Hugo, o seu salvador por meio da rethorica. Vamos a elles, filhos da victoria! As nossas bandeiras desenroladas aos ventos das batalhas, dirão: Riqueza e Moralidade! Em menos de quatro annos de regimen moral, e dieta aos lambões, o paiz não deverá nada, e vós não pagareis um pataco de decima.{137}

Vozes

Apoiado!

Frederico

Cidadãos! Eu tenho estudado profundamente as doenças de Portugal e pude descobrir onde está o cancro que nos róe. Ahi vae o meu programma: O meu systema é dividir o paiz em republicas confederadas, cada republica tem seu presidente de eleição popular, quero dizer, cada conselho governa-se a si, e não quer saber do conselho visinho. Não sei se me percebem...

Macario

Muito bem, entendemos muito bem.

Frederico

Por exemplo: Santo Thyrso fica sendo uma republica, que não tem nada com a republica de Famalicão, nem com a republica de Fafe. Nós cá vivemos com o que é nosso, fazemos as{138} nossas despezas, e não damos nem vintem aos de fóra.

Vozes

Apoiado! apoiado!

Frederico

Aqui está o meu systema que ainda não lembrou a ninguem, e que é o resultado de quinze annos de estudo. Conseguido isto, não temos a sustentar tropas, (Apoiados) nem as estradas por onde andam os outros, (Apoiados) nem theatros onde os outros se divertem, (Apoiados) nem escrivães de fazenda. (Apoiados) E declaro que me dou já por demittido do meu logar, e levanto minha voz auctorisada bradando: Guerra e morte a todos os escrivães de fazenda! (Os populares desembainham as espadas, e bradam: «guerra de morte!») E, portanto, senhores, beijo esta espada, e leio na sua lamina, os novos destinos que vão alvorecer para Portugal! Recebi-a da mão do anjo protector das nossas tremendas batalhas! E concedei, cidadãos, que essa bandeira{139} seja arvorada nas mãos da Judith lusitana! Não mais cahirá aos pés de vencedor algum o estandarte que foi consagrado pela filha d'este honrado fidalgo! (Frederico, tem passado a bandeira á Morgadinha, a qual se colloca de maneira que o pae fica entre ella e Frederico.) Bravos sycambros de Santo Thyrso! agora, á victoria, á victoria que a patria nos chama! Está inaugurada a republica confederada de Santo Thyrso! Toque o hymno! (Os musicos executam. Frederico florea a espada com arrebatada bravura. A morgadinha agita a bandeira. Os commandantes fazem tambem seus ademanes de valentões. João Lopes sentado com os queixos entre as mãos contempla tudo aquillo. Corre o panno.)

FIM.

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