Scena V do Auto
UM REI TURCO E DEPOIS OUTROS FIGURÕES
Rei turco
(Com uma cara horripilante, e trejeitos assustadores)
Sou o turco rei, que é
Valoroso na arrogancia;
Por ser filho da fortuna
E neto da extravagancia!
{77}
(Corre brandindo a espada d'um lado a outro.)
De moiriscos reis nasci,
Sou seu filho alentado,
O meu braço furibundo
Deixa tudo escangalhado.
Co'esta espada sou capaz
De entrar pelo inferno dentro
E pôr tudo em mil pedaços
Que eu sou um rei sanguenolento!
(Risada de Frederico.)
Cosme
Já é pertinacia de espirito-forte e atheu estar ahi o senhor a gargalhar em tão solemne passo!
Frederico
Solemne passo, diz o nobre deputado! chamar solemne passo á prostituição da arte!
Macario
O snr. é que é uma prostituição! Bem disse{78} aqui S. Ex.ª que o senhor é um atheu! um impio que zomba dos mysterios dogmaticos!
Vozes (dentro)
Quebra-se-lhe a cabeça!—Bordoada rija!—Vamos a elle!
Morgadinha (erguendo-se colerica)
Essa canalha que se calle! Ó João Lopes, onde está o regedor?
João Lopes
Saberá V. Ex.ª que o regedor tomou tamanha turca que está a cozel-a no palheiro d'um lavrador.
Cosme (com enfaze)
Um regedor crapuloso desacredita o funccionalismo e perverte a ordem social. A auctoridade que dá o exemplo da relaxação dos costumes não póde educar as massas. É necessario que não se desvirtue e desprestigie o funccionalismo,{79} com a embriaguez dos regedores. Parece que estamos chegados á desmoralisação do Baixo-Imperio!
Macario
Apoiado!
Morgadinha
Então os snrs. fazem favor de deixar continuar o auto?
Pantaleão (ao Rei turco)
Ó Zé da Custodia, diz lá o que tinhas a dizer.
Rei turco
Se isto não leva rumor, acaba-se a pandega!
Frederico
Magnificamente! Está a coisa definida: isto é uma pandega, e querem os moralões que a gente se desfaça em lagrimas! Faça favor de continuar, snr. rei turco, que eu estou sério, e talvez chore.{80}
Rei turco
Agora não sou eu que boto a falla, é o outro rei. Entra, ó Manel Zarôlho! (Chamando para dentro.) O Manel Zarolho é o rei christão. (Explicando.)