SCENA VIII

ANICETO E GUTERRES

(Aniceto abre a porta, e sáe de barrete de dormir e rob-de-chambre, com a luz na mão. Guterres recúa espavorido.)

Aniceto

Passasse muito bem.

Guterres

Viva.

Aniceto

Eu já vi o senhor se não me falha a memoria.

Guterres

Sim, senhor, já tive a honra de jantar na meza em que V. S.ª estava na Povoa.{164}

Aniceto

É verdade. Pois snr., V. S.ª canta e toca muito bem; n'outra occasião muito lhe agradecerei o prazer de o ouvir; mas agora pedia-lhe o obsequio de se calar, porque tenho de seguir amanhã viagem e preciso dormir...

Guterres

Pois não, senhor! Eu deponho já o instrumento importuno.

Aniceto

Agradeço muito a sua delicadeza. Se não fosse indiscreto, perguntaria com quem tenho a honra de fallar?

Guterres

Sou Guterres Arthur de Miramar, para o servir.{165}

Aniceto

Então é estrangeiro? Esse nome não me parece de cá.

Guterres

Sou portuguez nascido e baptisado na Povoa, onde exerço funcções publicas.

Aniceto

Ah! exerce funcções publicas? Esse emprego deve ser bem bom.

Guterres

Soffrivel; mas vivo mais do espirito que do funccionalismo. Sou homem de bastantes lettras.

Aniceto

Ah! de bastantes lettras? então é capitalista... Eu tambem trago um pouco de dinheiro em descontos... O juro por aqui como regula?{166}

Guterres

O juro? está favoravel. Um amigo meu empenhou o relogio a doze por cento ao mez. V. S.ª é do Porto?

Aniceto

Não senhor, sou de Penafiel, onde sou bem conhecido por Aniceto da Silva.

Guterres

Oh! pois não, snr. Aniceto! E anda pelo Minho a divertir-se com sua ex.ma filha?

Aniceto

A divertir-me não... Isso são contos largos... se V. S.ª por aqui estiver ámanhã, conversaremos. Agora boas noutes, que são horas de dormir.

Guterres

Tem razão, tem razão... Boas noutes. (Aniceto fecha-se.){167}