SCENA XI

MORGADINHA, OS DOIS CAMPONIOS QUE VÃO PASSANDO, E DEPOIS FREDERICO

(Um camponio tange flautim e outro viola. Duas moças á frente batendo palmas ao compasso do canto, e saltando)

Um camponio (cantando)

Muito bem seja apparecido
Seja apparecido
N'esta funcção. (Batendo palmas){49}

(CÔRO)

Bate as palmas c'o seu pexinho
Co' seu pexinho
Co' seu pexão. (Repete)

(Assim que elles passam, a Morgadinha sáe do portão, e logo Frederico do escondrijo)

Frederico

Mas dizias tu, pomba?

Morgadinha

Que te acautelasses dos meus creados quando vens de noute. Deves vir bem armado.

Frederico

Armado! para quê? Tu não sabes que o teu amor é talisman que prostra gigantes! As minhas armas são os raios de fogo que bebo de teus olhos; tenho vesuvios na alma capazes de abrazar cidades!{50}

Morgadinha

Isto não é chalaça, meu amado Frederico! Peço-te que tenhas cuidado, muito cuidado. Se eu podesse estar sempre ao teu lado, não temeria ninguem... Tu verias o que é a morgada de Val-d'Amores... Mas eu não sei como isto hade ser... Bem sabes que meu pae tem a mania de fidalgo...

Frederico (interrompendo-a com exaltação)

Fidalgo! que é fidalgo?! palavra obsoleta em 1871! Que é fidalgo? a sola velha e inutil d'um borzeguim do seculo XV! Oh! então é certo que teu pae ignora, que o baptismo de sangue da revolução franceza lavou todas as manchas da desigualdade entre homem e homem! Oh! a revolução! o segundo christianismo! Que é fidalgo? teu pae não sabe que aquelle brasão d'armas (apontando) está alli como a pedra sepulcral das cinzas feudaes! Teu pae está debaixo do sol e não sente o calor da fermentação social! Ouve o estrondear da democracia reinante, e volta a face para os phantasmas{51} dos avoengos que se somem lá em baixo no abysmo da historia!

Morgadinha

Não sei lá d'essas historias; o que te peço é que não te exponhas a levar alguma paulada á falsa fé. Olha que os meus creados são uns patifes, e meu pae não é boa rez, quando se arrenega. Pensa no que se hade fazer, porque elle não nos dá consentimento para nos casarmos.

Frederico

Heide movêl-o com a eloquencia d'um homem aquecido no sol moderno. Heide convencêl-o, enchendo-lhe o espirito de luz e o coração de ideias novas.

Morgadinha

Não te mettas n'essa asneira, que não fazes nada. (Tem-se já ouvido toada de musica da chula, e depois a tosse rija de João Lopes. Frederico some-se sem ser preciso mandal-o. A morgadinha fica.){52}