SCENA XV
PANTALEÃO E FREDERICO
Frederico
Creado de V. Ex.ª (Váe a sahir; mas Pantaleão detem-o.)
Pantaleão
Faça favôr.
Frederico
Escuto as suas ordens.
Pantaleão
O snr. anda muito mal encaminhado. Minha filha é a morgada de Val-d'Amores; o snr.{60} é o escrivão de fazenda de Santo Thirso. Estão um do outro tão longe como aquella pedra d'armas do rebôlo d'um sapateiro, entendeu?
Frederico
Entendi, que V. Exc.ª tem um estylo bastante chato. Entendi, posto que V. Exc.ª falle uma lingoagem assás gothica em pleno seculo XIX.
Pantaleão
Pois se entendeu, tire o seu atrevido pensamento de minha filha, e procure a fórma do seu pé. Não me obrigue a usar dos usos e costumes dos meus avós. Quer que lh'os diga?
Frederico
Heroismos dos seus ascendentes? Essas Odissêas da aldêa são hoje impraticaveis. Eu sei em que tempos vivemos, snr. morgado.{61}
Pantaleão
Sabe? pois olhe que não sabe em que terra vive. O snr. veio lá de Lisboa onde qualquer bigorrilhas, que põe gravata, entende que é egual a todo o homem que põe gravata; o que o bigorrilhas não quer é sêr egual a todo o homem que não tem gravata.
Frederico
Ahi ha certa sublimidade de idêa, de que lhe dou os parabéns. V. Exc.ª ia quasi escrevendo d'um traço a historia philosophica da democracia moderna.
Pantaleão
Eu não escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo é que isto cá nas montanhas é outra cousa. Os morgados são morgados; os escrivães são escrivães; e os sapateiros são sapateiros. Ora, quando acontece alguem querer sahir da sua classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as costellas. O snr. sabia isto?{62}
Frederico
Eu não sabia que estava na Cafrária. Cuidei que este concelho era um retalho do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fóco radiara uma flecha de luz até ao coração de V. Ex.ª que me parece ser uma pessoa de bons costumes, e não um esquimó. Cuidei finalmente que o Evangelho e a Carta constitucional livellavam a dignidade humana... (Ouve-se o cantar das raparigas que se avisinha.)
Pantaleão
Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleão Cogominho de Encerrabódes, décimo oitavo senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com minha filha hade poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor d'esta casa. Tenho dito, e acabou-se o cavaco. Saude e juizo. (Volta-lhe as costas. Frederico bambôa a cabeça altivamente e retira-se.){63}