XXVIII
*Ingratidão de um deputado*
Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias. Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia frequentar regularmente a casa real.
Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo interrogado mandou-o á fava.
Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra, conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em Cintra para de lá governarem a monarchia.
Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista, velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.
Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados. Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.
Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.
O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura mysteriosa.
—D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?—perguntou um.
—Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.
—Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle em
Cintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante.
—A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle está?
Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré, o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão.
Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros orificios, espreitando os massiços de murtas, que escondiam a fachada da casa.
D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma senhora pelo braço, atravessando vagarosamente para um bosque de aveleiras.
Fitou-se n'elle; mas não viu coisa que lhe désse lembranças do fidalgo da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a hospedaria.
Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse ás dez horas, consoante o costume.
Sentou-se á porta do pateo.
Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mão ao chapéo. Calisto, divertido pela acção civil do sujeito, ia corresponder, quando reconheceu o mestre-escola.
—Você aqui, Braz! disse elle.
O professor arregaçou as palpebras, e exclamou:
—Que vejo! a voz é a do fidalgo!
—Sou eu, não tenha duvida nenhuma.
Braz levou a mão á testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro, murmurando:
—Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca os meus olhos esperaram vêr!… V. ex.^a é outro homem!… Eu estarei a dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava dormindo.
—Entre cá dentro, disse o morgado.
Entrados á sala, perguntou o fidalgo com um ar secco:
—Que novidade o traz aqui?
—Vim por ahi abaixo, afim de vêr v. ex.^a, e ao mesmo tempo…
—Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim?
—Não sendo coisa muito de costa acima…
—Ha de arranjar-se. E que mais?
—-E que mais?…
Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do fidalgo. A concisão e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o engasgarem nas respostas.
—Como ficou minha prima? disse Calisto.
—Está muito contristada, senhor.
—Porque?
—São saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na eira… O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa… Mas como o fidalgo está mudado!… Então v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me diziam que v. ex.^a estava lá com uma madama, e eu não o conheci.
—Aonde?—atalhou desabrido o morgado.
—N'aquella casa que tem muitas flores.
—Quem o mandou lá?
—Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a
—E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava em
Cintra?
—Foi no palacio do rei que…
—Então foi-me procurar ao palacio do rei! O sr. Braz é parvo!… Bem.
Eu preciso recolher-me. Quer mais alguma coisa?
—Não, sr. fidalgo… E v. ex.^a não quer nada lá para a terra?—volveu logo o antigo sargento com o nariz rubro de colera.
—Não quero nada.
—Pois eu para cá vou. Passe muito bem por cá, e até lá.
Não pôde ter mão de si o professor: voltou ao limiar da porta, que se fechava, e disse:
—Sr. morgado…
—Que é?
—Eu, para a outra vez, elegerei deputado que me arrange o habito de
Christo. Faça favor de se não incommodar.
—É asno!—murmurou Calisto batendo a porta com impeto.