PREAMBULO

Á NOVA EDIÇÃO

O assumpto aqui tratado—a brochura da snr.^a Rattazzi—tem duas physionomias: uma para risos, outra para critica sisuda. Se uma das faces nos avinca a fronte, a outra tem virtudes therapeuticas de désopiler la rate. Eu tentei, pela galhofa pachorrenta, esquivar-me ás phrases amargas que a segunda physionomia—a seriedade—me impunha.

Se uma dama de má lingua nos belisca, devemos imaginar que ella nos faz cocegas; e, em vez de lhe trincarmos os dedos que nos estorcegaram a pelle, corre-nos o dever de imitar quem soffre as cocegas—rir e pernear; mas a mim, ás vezes, succedia-me, quando fazia cocegas a alguem, levar o meu sopapo involuntario. É o que póde acontecer a quem faz cocegas disfarçadas em beliscões.

Un ami de madame, no Jornal de Noticias, cheio d'uma paciencia portugueza e muito namorada com as lerdas chalaças da snr.^a Rattazzi, acha que o zangarem-se os portuguezes beliscados por madame é falta de espirito.

Assim como, no dizer da princeza de pacotilha, il y a ventre et ventre, tambem ha beliscões e beliscões, ó invejavel amigo de madame! Uns são attritos de arminho, cariciosos, como o roçar de dous botões de rosa-chá, em dous dedos opalinos com unhas nacarinas, pelos bigodes encalamistrados de s. exc.^a, o amigo d'ella e de Peniche; outros, são mordentes como tenazes de caranguejo, farpadas de vibora; e, se não deixam contusões rôxas e largas como pontapés de gallegos, penetram os filamentos nervosos e os tecidos cellulares como uma injecção subepidermica de vitriolo. Que a injecção me seja ministrada pela regateira que me vende os seus carapaus, ou pela princeza que me vende os seus livros, queima-me do mesmo feitio. A cravache de Lola Montes doía como se a vibrasse o pulso rijo de Roger de Bauvoir.

Mulher escriptora, por via de regra pouco exceptuada, é um homem por dentro. O coração, que devia ser urna de suavissimas lagrimas, faz-se-lhe botija de tinta; e as dôces penas da alma metallisam-se-lhe aguçadas em pennas de aço. O fuso de Lucrecia e da rainha Bertha desfez-se em canetas. Em vez de tecerem o seu bragal, urdem intrigas. Suspiram publicamente em 8.^o portuguez, 250 paginas; e, quando não suspiram, bufam coleras represadas, dizem que tem idéas, que se querem emancipar, muito aziumadas, naturalistas, com um grande ar de pimponas que entraram no segredo dos processos; e, se não batem nos homens, não é porque elles o não mereçam. O amigo de madame, esse, tem de apanhar do sexo, mais hoje, mais ámanhã.

O Dom Francisco Manoel de Mello tinha razão: Mulheres doutoras, authoras e compositoras dava-as ao diabo. É triste cousa, prosegue o critico do Hospital das Letras—que estejaes com vossa mulher na cama, na mesa, ou na casa, e andem lá pelas tendas mil barbados perguntando por ella.

Não ha feminilidades que se respeitem desde que a mulher se masculinisa, e, como escriptora virago, salta as fronteiras do decoro, sofraldando as espumas das rendas até á altura da liga azul-ferrête.

Mau! começo a ser muito serio e metaphorico. Por aqui me fecho.

N'esta edição augmentam as incorrecções á proporção das paginas. Algumas vão muito alagartadas de francezias para que sua alteza perceba pouco que seja do pamphleto.

Se um periodo serio não destoasse d'esta brincadeira, eu lembraria aos meus conterraneos que o repellirem patrioticamente as zombarias dos insultadores estrangeiros lhes é mais airoso do que esse palavriado de rimas bombasticas e fofas com que suppuram em golfadas annuaes o seu patriotismo no Primeiro de dezembro.

Não obstante o silencio dos vates encartados na hymnologia patriotica, a maioria da imprensa antecipou-se-me no vigoroso desforço da justiça, e nomeadamente o snr. Urbano de Castro, um escriptor moderno, com os dons do estylo e da graça que seduzem velhos impertinentes e glaciaes como eu e outros infelizes da minha idade. A favor da snr.^a Rattazzi tem sahido uns poucos periodicos faiantes, sargêtas por onde tresandam os seus fedores as fezes litterarias de Lisboa. São os orgãos da ralé sarrafaçal, uns madraços desencadernados que vivem na gandaia politica, engenhando republicas carnavalescas. É n'esses periodicos de mixordias plebêas até ao asco que o snr. Theophilo Braga se esconde a escrever, como em parede de latrina, uns desabafos pelintras de quem não acha na imprensa séria fonticulos por onde suppurar o pus. A princeza póde contar com este panegyrista.