III.

Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza.

Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar terreo.

—Já a pé,—lhe disse alegremente D. Thereza.

—Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde; mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para o que me determinardes.

—E tua avó?

—Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade d'ella.

Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.

D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa. Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.

Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando tantas esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.

Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel resistir.

N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui desenvolvida.

A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos, mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar, e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.

Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a fidalguinha.

Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a conhecia adorava-a.

O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução de recolher a avó e a neta.

—Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,—lhe disse D. Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,—porque espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.

—Então fico em casa de v. exc.ª?—disse Rosa, não podendo crer em tanta ventura.

—Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender do que hoje faço.

—Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para vos agradar e satisfazer os vossos desejos.

—Assim o espero. Anda vestir-te.

—Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...—e Rosa parou corando.

D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:

—Que queres a tua avó?

—Ella tambem fica?

—Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas.

—Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria de paixão.

Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa.

—E que has-de fazer na tua aldêa?

—Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem...

D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.

—Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa.

Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa, agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua gratidão.