X.
Não esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da carta que o morgado de Santa Eufemia recebeu do pai:—Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a jornada cinco pintos.
O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. José Francisco Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 estabelecido no Porto, onde viera tratar do baço, do pancreas, e d'outras entranhas importantes do snr. José Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava retirar-se para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos, logo que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua alma. Porém, como quer que um seu amigo velho, e companheiro de viagem para o Brazil, em rapazes, estivesse no Porto com o titulo de visconde dos Lagares, e este o fizesse conhecido por meio das gazetas por uma esmola de cincoenta mil réis ao hospital da Santissima Trindade, o snr. José Francisco viu-se tão festejado, tão requestado, tão necessario ao Porto, que mandou vender os pretos em ser, e liquidar os creditos.
Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre cincoenta a cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com tres barrigas, das quaes a primeira, começando pela parte mais nobre do sujeito, principia onde o vulgar da gente tem os joelhos, e, depois d'uma arremettida adiposa, retrahe-se na linha imaginaria da cintura, e estreita-se em fórma de cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres ordens de refegos por sobre as falsas costellas, ladêa tumida e retesada como os flancos d'um ôdre posto de través, e vai perder-se nos sovacos, mandando para as costas uma corcunda da sua mesma natureza. A terceira barriga pendura-se da face interna do queixo inferior, amplia-se flacida e lustrosa como um buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda, no ponto hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda ella se libra em conjecturas. O author não assevera senão a existencia das barrigas.
Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a linguagem do paradoxo denomina pés. Vacilla a critica no confrontal-os com objecto dos tres reinos: uma tartaruga envolta em bezerro dá-nos uns longes da realidade; mas falta-nos o simile para os declivios, gargantas e barrocaes dos joanetes. Os pés de José Francisco são a desesperação dos Gavarni. O marrão do alvanel poderia arrancal-os d'um golpe d'uma pedreira por acaso; mas Apelles mais depressa pintaria uvas que enganassem o bico sequioso da passarinhada.
No tocante á cara o snr. Andraens é homem, apesar d'outros animaes que lhe não disputam os fóros da humanidade, porque não teem um curso de historia natural. O rubor do tomate desmaia ao pé das papeiras faciaes do brazileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de tecidos, que lhe debruam os olhos de oppilações carnosas, sebaceas e luzidias. A menina do olho é rutilante e azougada, posto que as secreções visinhas lhe bezuntem a raiz das pestanas.
O snr. Andraens é commendador da ordem de Christo, desde que o seu amigo visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa real. Afóra isto, o brazileiro de Cozelhas, na qualidade de accionista do Banco Commercial do Porto, é orador vitalicio d'aquella assembléa, em que não são raros os talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de Freixieiro.
José Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse os cinco pintos, segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns dias, escreveu ao seu amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo não apparecera para receber o dinheiro. Tornou o velho a escrever ao brazileiro, encarregando-o de procurar o filho, aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza que elle tivesse feito na estalagem.
Foi o snr. Andraens á Aguia d'Ouro, e como não encontrasse Christovão, deixou dito ao criado do quarto quem era e a precisão que tinha de fallar com o morgado. Já vinha descendo as escadas, e voltou acima a chamar o criado.
—Olhe lá, disse elle, o fidalgo deve muito cá na casa?
—Não, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.
—Está bom, está bom, vossê não diga que eu perguntei isto, e pegue lá para matar o bicho ámanhã.—Dizendo, abriu uma bolsa de retroz coalhada de missanga, e tirou trinta réis que deu ao criado com a mão direita fechada, para que a esquerda se não escandalisasse da prodigalidade.
Na manhã do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia a casa do brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, porque José Francisco estava ainda recolhido com a barriga n.º 2 envolta de papas de linhaça.
—Estou aqui emplasmado, senhor morgado—disse José Francisco, arqueando os braços por sobre a esphera abdominal.
—Então o snr. José que tem?
—Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns calores cá de dentro, que dão que fazer á botica; mas isto, se Deus quizer, não é nada. Pois, meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber, para eu lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir ter aonde a v. s.ª e dizer-lhe que o melhor é ir-se para casa, quanto antes, porque o velho, pelos modos, está lá arrenegado por si. Então, vai ou não vai?
—Por estes dias, irei; mas já já não se me arranja cá a minha vida, snr. José.
—Então o senhor, ainda que eu seja confiado, que tem cá que fazer? Ahi, por mais que me digam, anda derriço... Eu hei-de saber o que é quando fallar com a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor morgado...
—Então o senhor conhece a D. Silvina de Mello?
—Conheço-a como os meus dedos...—respondeu o snr. Andraens, com um sorriso intencional, que passou desapercebido ao morgado.—É bem boa estampa, ó senhor morgado, não é? ora diga a verdade!
—É muito bonita, isso é.
—Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então quando calha de fallar, aquillo não despega nem á mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! Até em Sebastopool, senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu lá ido a troco cá de certa pendencia, e veiu á collecção a guerra da Russia, e ella começou alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr. D. Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não tenho partidos, e até a fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me cá com os velhos, e gente como era a antiga já se não topa. Pois é verdade... eu...
—E a fidalga—atalhou o morgado—nunca lhe fallou em mim, snr. José?
—Fallou, pois então? disse-me até que o senhor queria casar com ella... é assim ou não é?
—Isso é verdade. Paixão de raiz como a que eu tenho por ella não a torno a ter pela mais pintada.
—Ah! que me diz?—acudiu o brazileiro com espanto—pois a cousa é isso? Quer apostar que o senhor está aqui pr'a-mor d'ella?
—Em fim, o coração não mente... Á conta d'ella é que eu aqui estou. Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu para o Porto. Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a cá a namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela, mas antes de hontem fugiu lá para cascos de rolha.
—Conte-me isso, conte-me isso—exclamou José Francisco com vehemente interesse.
—É como lhe digo, snr. José. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver o que ella faz.
—Com que então diz-me o senhor morgado—disse meditabundo e detidamente o brazileiro—que ella andava já com o miolo ás voltas por outro sujeito!... As mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto é pedra que cahe em poço, ouviu o senhor?
—Eu não digo nada; póde fallar snr. José.
—Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao Pedro de Mello, pai da Silvina, para elle mandar aos rapazes que andam a estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello é boa, mas está empenhada até aqui.—(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga n.º 3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de haver tres mezes que eu fui levar á filha umas libras que o pai lhe mandou dar para vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa d'elle, que parte com os meus terrões da Lixa, e não se me dava de lhe ir dando aos poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor morgado, veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racolá, palavra puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e jantei lá n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua e crua, como o outro que diz, eu não sei o que sentia cá no interior! Que diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus botões. Eu andei por lá por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e osso; mas nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me lembro... Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta d'ella...
—Uma carta d'ella!—interrompeu o morgado a fumegar.
—Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha lá uma em que ella escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir áquella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de lá um caixotinho de vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?...
Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a gaveta, e levou á cama do snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de cartas, cintadas com uma fita de nastro, abriu algumas, regougando palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que procurava, e exclamou:—Cá está ella! tal e qual. Ora faz favor de lêr, que eu não estou hoje muito escorreito dos olhos.
O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate até á raiz dos cabellos, leu o seguinte:
«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca, ella por amisade reconhecida, e eu do coração affectuoso lhe agradecemos o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...»
—Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de ouro que eu mandei ás duas, que me custaram dezesete libras e mais uns pósinhos, não fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, não tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:
O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor que lhe transpiravam da testa:
«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, já pelos sentimentos delicados que ella representa...»
—Isso é bem dito, não é, ó senhor morgado?—interrompeu o snr. José Francisco.—Lá que ella tem uma cabecinha como não ha outra, isso pau pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta é miôlo... Ora ande lá... vá lendo:
«Nunca eu aceitaria—continuava a carta de Silvina—uma prenda de homem, que não tivesse uma explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso, não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus sentimentos a respeito de v. s.ª tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua attenção, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe como eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...»
José Francisco Andraens deu dous galões no leito, e clamou:
—É ahi, é ahi onde está a cousa!
Christovão continuou, já deletreando, porque a raiva lhe nublava os olhos:
«Não creio na duração do amor impetuoso. A violencia da vibração fatiga as cordas da alma...»
—Olhe lá—atalhou o brazileiro—isso que vem a dizer? esse bocado não o percebi bem... A violencia da vibração fatiga as cordas... que diabo!...
—Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforço, quer dizer que... sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixões fortes adoentam a gente...
—Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os estragos no interior... Ora faz favor de vêr o resto.
O morgado leu:
«A minha ambição é encontrar um amigo verdadeiro, um coração sereno, um homem para quem o mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no coração estas palavras da sua dedicada e constante amiga, Silvina.»
—Que me diz o senhor a isso?—interpellou José Francisco, dando uma palmada no hombro do entorpecido morgado.
—O que eu lhe digo, snr. José!...—tornou o morgado, atirando a carta para sobre o leito.—O que eu lhe digo é que esta mulher...
—É uma mulher de pouco mais ou menos—concluiu o brazileiro, atando as cartas com o nastro—Ora ahi tem... Agora, á vista d'isto, deixe-se andar por cá atraz d'ella...
—E o senhor continua o namoro?—perguntou o morgado com os olhos vidrados de lagrimas.
—Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar da barriga!