VIII

Didone
... No mai die fiamma impura
Feci l'are fumar per vostro scherno;
Dunque perché congiura
Tutto il ciel contra me, tutto l'inferno?
Osmida
Ah! pensa a te non irritar gli Dei...
Didone
Che Dei? Son nomi vani,
Son chimere sognatte, ó ingiusti son.

Metastasio. (Didone.)

Norberto de Meirelles communicou, immediatamente, ao cunhado o acontecido com a religiosa benedictina, pedindo-lhe conselho para evitar que a filha se fizesse freira.

O bacharel Sampayo chamou a capitulo os seus vastos expedientes de perfidia, e conglobou-os n'um, do qual ousou afiançar ao cunhado um exito feliz.

Chamou pessoa idonea para executal-o, e de Lisboa veio ao Porto um individuo encarregado da seguinte missão:

Entrou, um dia, no pateo do mosteiro de S. Bento esse homem, e perguntou na portaria, se lhe seria possivel fazer chegar ás mãos da snr.ª D. Carlota Angela um bilhetinho de sua mãe.

A porteira respondeu affirmativamente, como era de esperar, recebeu o bilhete, e entregou-o a Carlota, que saia do côro, onde costumava passar as manhãs em oração.

Era este o conteúdo do bilhete:

Uma pessoa quer fallar á snr.ª D. Carlota ácerca de Francisco Salter de Mendonça; mas deseja estar só com ella em uma grade. A pessoa espera resposta.

Carlota alvoroçada correu ao locutorio, e exclamou:

—Estou aqui.

O enviado do bacharel aproximou-se, e disse:

—Sou eu que a procuro, minha senhora; mas na esperança de ser demorada a nossa pratica, pedia o favor de me fallar n'uma grade, porque este logar é improprio para se tratarem cousas de tamanho segredo.

Carlota olhou em redor de si, viu uma criada com uma chave, e disse com precipitação:

—Empresta-me a grade por um bocadinho? empresta, por quem é?

—Sim, minha senhora—disse a criada.

Carlota indicou ao homem de Lisboa a grade, e correu a encontral-o.

Não tinha ainda elle terminado as formalidades da cortezia, disse Carlota impaciente:

—Elle já veio? Está em Lisboa?

Estas perguntas eram feitas a tremer. Carlota, não podendo com a afflictiva duvida da resposta, apressou-se a interrogal-o assim, cuidando que a certeza com que perguntava por Mendonça vivo a desopprimia da suspeita de que elle era morto.

O homem não estava preparado para perguntas tão expeditas. Ficou perplexo, e esta indecisão deu azo a novas perguntas:

—Traz-me cartas d'elle? dê-m'as...

—Não trago cartas, minha senhora.

—Não?!—atalhou ella com vehemencia e sobresalto.

—Não, snr.ª D. Carlota. Francisco Salter não lhe escreveria, ainda que podesse...

—Como?! não entendo!... Não escreveria... porque?

—Se a menina serenar um pouco, tomarei a liberdade de historiar-lhe vagarosamente a vida do homem que lhe mereceu um grande amor, digno, permitta-me dizer-lh'o, de ser melhor applicado.

—Isso é uma calumnia! isso é mentira!—exclamou Carlota, sem pesar a gravidade das palavras que ouvira, e das que proferira com exaltada acrimonia.

—Eu desculpo-a das injurias que me dirige, porque avalio a surpreza dolorosa, que lhe fazem tão horriveis novas. Queira escutar-me.

Francisco Salter saiu do Porto amando-a, como se ama aos vinte e quatro annos, com esse amor imprevidente, superficial, e arriscado ás variantes do coração logo que as tempestades de outras paixões se levantam, sopradas por um casual encontro com outra mulher. Era um rapaz no comêço de uma bella carreira, com espiritos ambiciosos, sem bens de fortuna, e descontente da sua sorte... O desengano devia vir, logo que os olhos da pessoa, que elle amava, deixassem de influencial-o. Chegou a Lisboa, onde tinha valiosos amigos e parentes, e onde fora chamado para receber uma honrosa commissão para o Brazil, com augmento na sua carreira, e promessas seguras de grandes vantagens.

Francisco Salter de Mendonça rejeitaria a gloria, se o amor fosse de mais rija tempera; renunciaria um almirantado, se o coração de Carlota Angela saciasse n'elle a louvavel ambição de se fazer grande por merecimento proprio. Obedeceu ao orgulho, e partiu para o Brazil, como a menina sabe. Escreveu-lhe, talvez, uma carta muito saudosa, muito lamuriante, muito esperançosa; mas... partiu.

No Brazil, foi recebido como era de esperar. Encontrei-o na melhor sociedade, posto que a melhor sociedade de lá só se faça valiosa pelo dinheiro. As ricas herdeiras olhavam-o como um rapaz distincto, capitão da real brigada, bem fallante, gentil, bravo, soberbo de si, e collocaram-o na posição de escolher.

Vejo que v. s.ª está anciada. Se a continuação da minha visita a molesta, peço licença, e retiro-me.

—Não... não... queira dizer—balbuciou Carlota, tirando com violencia a respiração do seio convulsivo.

—Os fumos da vaidade e os da ambição—proseguiu o porta-voz do bacharel—ennevoaram aos olhos de Mendonça a imagem de Carlota Angela. Eu, que fora nos primeiros dias seu confidente, sabia que a menina existia n'este convento; recordei-lhe com pezar o indigno perjurio, e elle respondia-me que a ausencia era o balsamo maravilhoso das chagas que o amor fazia. Confesso que me angustiou esta baixa condição de alma! e muito principalmente depois que vi algumas cartas de v. s.ª, escriptas emquanto elle fazia a viagem.

Passados mezes, dois ou tres, se tanto, Mendonça dá parte aos seus amigos de que vae tomar estado com a filha unica de um opulento negociante, dotada com centenares de contos.

—E casou?—exclama Carlota, lançando com vertiginoso impeto as mãos ás grades.

—Casou—respondeu o homem, friamente.

Carlota soltou um grito, que não tem outro comparavel na expressão da angustia humana. Era o ruido agudo do estalar de todos os tecidos do coração, do rasgarem-se todos os vasos de sangue, do embate dos pulmões lacerados contra as paredes do peito. E, depois, os dedos recurvos nos ferros da grade, relaxaram-se, hirtos como os de um cadaver, e o corpo resvalou da cadeira para o chão com estrondoso baque.

O homem horrorisou-se um instante da sua obra, e recuou até á porta para retirar-se; mas a sua missão não estava ainda cumprida. Relampagueou-lhe uma ideia lucida. Desceu á portaria, e disse que fosse Alguem á grade, onde se achava desmaiada a snr.ª D. Carlota.

A este tempo já a madre porteira, alarmada pelo estrondo da quéda, entrava pressurosa na grade, e vendo Carlota no chão, chamou-a a altos gritos. Houve grande rumor no convento, e entre as muitas pessoas que desceram á portaria, vinham D. Rufina e a noviça.

O homem de Lisboa permanecia imperturbavel na grade, esperando que o interrogassem, já depois que Carlota fora transportada, com frouxos signaes de vida, ao seu quarto, acompanhada de um medico, que a fortuna trouxera n'esse conflicto.

—Alguma das senhoras é a tia da snr.ª D. Carlota Angela?—perguntou o homem.

—Sou eu—respondeu a pavida religiosa.

—Concede-me alguns minutos sem testimunhas?

As outras senhoras deixaram só Rufina; o delegado do bacharel proseguiu:

—Essa menina desfalleceu, quando eu lhe noticiei o casamento de Francisco Salter de Mendonça.

—O casamento?!

—Sim, minha senhora.

—O que geralmente se diz é que morreu.

—Casou, e morreu, dias depois.

—Oh meu Deus!—clamou a freira, levando as mãos ás faces—oh meu Deus, o que se passa debaixo de vossos olhos! Francisco de Mendonça casou!... O senhor tem a certeza d'isso?!

—Como quem assistiu ao casamento e á morte. Esta segunda parte é que sua sobrinha ignora, porque me não deu tempo. Agora convém que v. s.ª lh'a diga, para que a morte sirva de perdão ao ingrato, e a ingratidão lhe converta em quasi indifferença a morte. É assim que essa pobre menina ha de recuperar a tranquillidade que precisa; e eu, que espontaneamente aqui vim dar-lhe o golpe, que ninguem lhe queria dar, com o bom proposito de curar a ferida com o proprio sangue d'ella, retiro-me, delegando em v. s.ª o complemento da minha obra. Minha senhora, recebo as suas ordens.

Soror Rufina surgira de uma especie de lethargo, depois que o desconhecido saíra.

Foi ao quarto da sobrinha, e viu-a sentada no leito, com os cotovêlos fincados nos joelhos, e o rosto entre as mãos. Saíam-lhe das palpebras os olhos vidrentos e immoveis como os de um cadaver embalsamado. Parecia não ver alguem, e a respiração das pessoas, que a rodeavam, nem sequer se ouvia. O olhar de Carlota fazia terror.

A religiosa chamou-a tres vezes, como a mãe delirante chamaria sua filha morta; o pavor, porém, d'aquelle olhar sem luz nem movimento, parecia responder-lhe que estava morto o coração que devia ouvil-a. Rufina abraçou-a vertiginosamente, agitando-a com desespêro: o corpo obedecia ao impulso, com a inerte obediencia do cadaver, mas os olhos lá estavam na sua terrivel immobilidade como que seguindo a alma que lhe fugira arrancada pelas garras de um demonio.

—Que é isto, snr. doutor! está morta minha sobrinha?—bradou a religiosa ao medico.

—Não está morta, minha senhora; póde estar demente.

Carlota Angela soltou um profundo grito, ergueu-se sobre os joelhos no leito, travou das tranças com frenetico delirio, deixou caír os braços semi-mortos, e recaíu no torpor de momentos antes.

Passado o espanto, todos os corações se derramaram alli em lagrimas. Não sabiam ao certo que immensa angustia era aquella; mas adivinhavam-a. Todas se voltaram para Jesus crucificado, de joelhos oraram chorando, e a oração era a mesma em todos os espíritos:

«Se ella está demente, levae-a, Senhor!»

Aquelle estado era impossivel longo tempo. Durante vinte e quatro horas succediam-se as syncopes, cada vez mais prolongadas e assustadoras. O medico, descrido da acção dos antispasmodicos, aconselhou que lhe fallassem muito na causa d'aquelle accidente, confiado na vitalidade febril que dão as agonias moraes; e nas lagrimas consecutivas.

Assim o aconselhara; ninguem, todavia, queria encarregar-se de tão cruel flagellação.

Soror Rufina esperara a saída das incessantes visitas, para, com o soccorro do céo, executar o duro supplicio de Carlota. O coração dizia-lhe que tal expediente seria um tormento inutil; mas o medico ajuntara ao conselho razões que a convenceram.

A sós, Carlota fitou-a com uma turvação de olhar, que deu quebranto á resolução da freira.

—Se ella está demente, de que serve este triste remedio?!—dizia soror Rufina—Eu vou verter-lhe fel na chaga do coração, e nem posso ao menos contar com a intelligencia d'ella para lhe faltar á razão! Se Deus a chamasse a si, que maior felicidade lhe poderia eu desejar! Minha filha!—murmurou ella, aconchegando-a ao seio—Tu não me conheces? Sou a tua boa tia, a melhor das tuas amigas. A tua dor me dóe tambem, Carlota. É preciso que nos consolemos uma á outra. Diz-me uma palavra só, anjinho... Conheces a tua tia, menina?

—Se conheço!...—disse com meigo sorriso, Carlota, abraçando-a pelo pescoço. Rufina estremeceu de alegria, comprimindo com transporte o seio da sobrinha ao seu, e cobrindo-lhe de lagrimas e beijos a face.

—E és a minha querida filha, pois não és?—proseguiu a freira—É de mim que esperas allivios d'esta agonia, e amor para toda a vida? Aceitas as consolações de tua tia, crendo que é ella o instrumento de que a misericordia de um Deus piedoso se serve?

—Não me falle em Deus!—bradou com impetuosa violencia Carlota Angela.

Rufina tremeu e empallideceu como assombrada de um raio.

—Está douda a infeliz!—disse ella—Agora sim, creio que não ha valer-lhe! Ó Mãe Santissima, ó Senhor dos Afflictos, levae esta alma para vós... não consintaes que os labios digam blasphemias, que o espirito d'esta virtuosa creatura não sente.

—Não me falle em Deus!—repetiu Carlota, esgazeando sinistramente os olhos—Não ha Deus, nem justiça, nem misericordia. Ha inferno n'este mundo para os innocentes, para os que, fugindo ao odio humano, se acolhem ao amparo divino.

—Jesus!—atalhou a religiosa—Que palavras são essas, filha!?

—Eu não merecia esta morte, minha tia. Que fiz eu para morrer assim desesperada de achar a remuneração de tamanha perfidia?! Abandonada, esquecida por elle... Que horror!

Carlota Angela tapava o rosto, e arquejava, fugindo impetuosa aos braços da freira.

—Que horror!—continuava ella, apertando as fontes com as mãos, e tirando com violencia pela respiração—Trahida por Francisco!... Todo este amor, a amor de toda a minha vida, calcado, desprezado, ao mesmo tempo que eu o ia alimentando com lagrimas diante d'aquella cruz, onde eu cuidei que se encontrava compaixão!...

—E encontra, minha filha; e ainda agora das chagas de Jesus Christo está correndo o balsamo que te ha de curar, Carlota!

—Curar-me!... A tia não sabe o que eu soffro, não conheceu esta dor, não sabe que desesperada vae ser a minha agonia! Eu tenho a morte já na garganta. Era preciso que eu perdesse o juizo para se crer que ha Deus. Morrer assim, e sentir a causa da morte... isto é mais que barbaridade... o demonio não póde tanto, e um Deus não consentiria padecimento tamanho... Oh!... quem me apressasse a morte... quem me désse um veneno... quem me arrancasse do coração esta agonia!... Oh meu Deus!...—bradou ella, estendendo os braços para o crucifixo.

Soror Rufina correu a tomar a cruz de sobre a commoda, e aproximou-lh'a. Carlota cravou-lhe os olhos, um momento humedecidos de lagrimas, e lançou-a de si com um violento gesto de repulsão.

—É mentira tudo isso!—exclamava ella, agitando as mãos com frenesi, como se a tia teimasse em dar-lhe a cruz—É mentira tudo! não ha Deus, não ha nada a que uma desgraçada, como eu, possa recorrer! Deus não consentiria que houvesse um perverso tal como esse homem, nenhuma miseravel como eu...

—E, se souberes que foi castigado o perverso que te faz soffrer tanto, Carlota, crês que ha justiça de Deus?

—Castigado!... não ha n'este mundo castigo para tamanha ingratidão... Elle é feliz a esta hora, nos braços de outra, com os carinhos de outra mulher, e eu... aqui, nas agonias da morte, sem poder saber que tempo hão de durar!... Meu Deus, eu morro arrependida de vos ter negado, se me levardes já...—E tomando a cruz, que beijava fervorosamente, proseguiu:—Levae-me, Senhor... tirae-me d'este inferno, ou fazei que eu endoudeça! Se eu sou grande peccadora, dae-me as penas eternas da outra vida, se lá não ha memoria das amarguras d'este mundo! Dae-me o outro inferno por este, e eu darei sempre louvores á vossa misericordia!... Não me escuta!—bradou Carlota com desesperada indignação, querendo arremessar a cruz.

—Filha!

—Deixe-me acabar, minha tia... Eu não quero esperanças... esperanças!... em que? Não quero consolações de ninguem... A maldade d'aquelle homem não me deixa já crer no amor de ninguem... Fujam todos de mim, que eu sou uma mulher amaldiçoada, sem ter offendido uma só pessoa... É a maldição de meu pae que chegou ao céo. Fui enganada, tinha fé n'aquelle homem, estou assim penando, porque o acreditei... É um castigo maior que o meu delicto! Deus devia perdoar á pobre mulher de dezoito annos, e castigar o traidor por quem me perdi...

—E castigou.

—Como?

—Chamando-o a contas.

—Diga, diga, minha tia... que é? chamando-o a contas!... pois elle...

—Morreu... pouco tempo depois que perjurou, Carlota. Agora crês que ha Deus?... crês na justiça divina?

Carlota não ouvia. Os olhos pasmaram, como se a paralysia os ferisse de subito. Os labios ficaram semiabertos, como se por elles perpassasse a derradeira expiração. Os braços decairam com mortal quebranto.

A freira abraçara-a, sustendo a cruz entre os dois seios, e invocando Jesus, e Carlota.

Dorothea entrara, ouvindo os gritos de Rufina. Subira ao leito, clamando agudos ais, porque julgara morta Carlota.

—Vá ver se está algum medico dentro—disse Rufina.—Mandem-o chamar, a toda a pressa, se não estiver. Chamem tambem o capellão... Parece-me que a matei, cuidando que a salvava.

Dorothea saíra, levando o alvoroço e o terror, pelos dormitorios, onde eccoavam os seus altos gemidos. Soror Rufina, desalentada, enfraquecida de espirito, e de fé, como aquelles santos de quem o Senhor se queixou, disse, lavada em lagrimas:

—Meu Deus! são terriveis os vossos juizos, e terriveis as vossas intenções! Quando a innocencia assim padece, como castigareis o crime?

Fora como o morder da vibora entranhada o pungir de alma que vibrou em dolorosissimo tremor o corpo todo da religiosa. Era a consciencia, que recebia em si o fel da injuria que os labios cuspiram; mas não passara d'elles. A apavorada freira, livida como o sacrilego aterrado pelo remorso, ouviu um murmurio, que lhe recrudesceu o pavor. Era Carlota que lhe dizia:

—Oremos pela alma do infeliz.

Correu ao leito, correram as religiosas que entraram com Dorothea. Viram Carlota Angela com as mãos erguidas, e a face coberta de lagrimas. Ergueram tambem as mãos, choraram tambem, ajoelharam, vendo Rufina de joelhos.

—É um Padre nosso e uma Avè Maria por alma de Francisco—balbuciou Carlota, soluçando, com inexprimivel afflicção.

O medico entrava n'esse conflicto, e presenciando as lagrimas de Carlota, fez um gesto afirmativo. Dorothea interrogou-o com anciado olhar. O medico, entreabrindo ligeiramente os labios com um sorriso, queria dizer:

—Está salva.