XIII
La justicia de Dios espantosa...
Quevedo. (El sueño del Inferno.)
O noviciado de Carlota Angela terminara em abril de 1808. As licenças impetradas para a profissão não foram concedidas, porque a desorganisação em que se achavam as repartições governativas era impedimento a que se deferissem requerimentos que não importavam ao bem immediato do Estado.
Norberto de Meirelles folgava com a demora da licença, e o cunhado lá da comarca onde lhe cortaram a previdente cabeça, socegara-o com a certeza de que em Lisboa estavam prevenidas as cousas para que a noviça requeresse sempre em vão a licença indispensavel.
Carlota não se impacientava com as delongas, nem se queixava de seu pae ou tio: com tanto que a não arrancassem ao claustro, noviça ou professa, o seu coração estava com o mesmo apêgo entranhado no suave sacrificio á religião dos infelizes.
Quando a noticia da feia morte de seu tio lhe chegou, levada pela aterrada mãe, Carlota perdoou-lhe, nos labios e no coração, o mal que lhe fizera, compensando-lh'o com incessantes suffragios, da virtude dos quaes, em alma tão apodrentada de velhacadas e perfidias, é licito duvidar.
Norberto de Meirelles, n'este desgosto de familia, mostrou o grande porte de seu animo, insufflando em sua mulher espirituaes doutrinas de paciencia e conforto na vontade do Altissimo. Á socapa, porém, o arrozeiro esfregava as mãos com jubiloso frenesi, bem sabia elle pelo quê. Se D. Rosalia lhe perguntava que destino se devia dar aos dois caixotes de prata, que não eram de seu irmão, Norberto dizia-lhe que calasse o bico, e não désse á lingua ácerca de taes caixotes, que ninguem sabia de quem eram. Os escrupulos entravam na consciencia de D. Rosalia; o alheio dizia ella que chorava pelo seu dono. A este e outros anexins de sã moral replicava Norberto que se alguma vez apparecesse o dono dos caixões, munido das necessarias provas de ser o dono d'elles, seria entregue do deposito.
Entretanto que o dono não vinha, o herdeiro do bacharel fechou-se na adêga da granja do Candal, e exhumou os thesouros enterrados para conhecer do conteúdo dos caixões. Este exame dizia elle á timida consorte que era preciso para, munido de um rol, peça por peça, obrigar o dono a dar uma relação exacta dos objectos.
Tentação diabolica fora aquella! Norberto, vendo a rica baixella do culto divino contida no primeiro caixão que abriu, tão encantado ficou do bem lavrado das corôas, dos resplendores, dos calices, das ambulas, dos thuribulos, das lampadas, das bandejas, e dos ex-votos, tão encantado, tão edificado, tão preso áquelles mysticos ornatos do templo do Deus-vivo, que logo alli prometteu á sua consciencia guardar e venerar aquelles sagrados objectos, de modo que mãos impias de francezes, de portuguezes afrancezados, e ainda as do dono nunca os profanassem. Este protesto entendia-se com o primeiro caixão: o segundo antes de ser aberto, havia o negociante tenção de restituil-o, se o recheio não fosse tão veneravel e digno da sua devota guarda.
Ora o segundo caixão não era menos tentador: nem mais nem menos os doze apostolos de prata maciça, com as suas barbas venerabundas a incutirem seraphico temor e amor! Norberto alçou nos braços um dos apostolos, não tanto para fazer-lhe oração mental, como para calcular-lhe o peso, e, aproximadamente, ajuizou doze arrateis, os quaes, multiplicados por doze, davam cento e quarenta e quatro arrateis de prata. Entendeu piedosamente o arrozeiro que o segundo caixão era thesouro não menos credor dos seus desvelos que o primeiro, em razão de conter as imagens dos doze primeiros santos da religião christã, e n'este presupposto de bom juizo resolveu recommendar á sua vigilancia a guarda de tão augustas imagens, que talvez providencialmente vieram enterrar-se na sua adêga, para se esconderem á perseguição de Bonaparte, bem como os christãos primitivos se escondiam nas catacumbas para fugirem á perseguição dos Neros e Trajanos.
A escrupulosa irmã do defuncto bacharel não assistira á exhumação dos caixões; mas, sabendo dos doze apóstolos, tal ancia lhe entrou de os ver, que não houve remedio senão desenterral-os de novo.
D. Rosalia ficou encantada dos aspectos magestosos de S. Pedro e S. Thiago. Quiz que seu marido rezasse emparceirado com ella uma jaculatoria aos dois santos em particular, e a todos em geral. Norberto annuiu com a mais fervente uncção, e edificou sua mulher, propondo a repetição das ditas jaculatorias, para que os bemaventurados discipulos do divino mestre não permittissem que mãos sacrilegas dos francezes tocassem nas suas devotas imagens. Lembrou logo alli a snr.ª D. Rosalia que, passada a guerra, se não apparecesse o dono d'aquelles objectos, se havia de fazer uma capella na quinta do Candal, para que os santinhos fossem adorados por toda a gente. Concordou o arrozeiro, enterrando-os outra vez, e recommendando a sua mulher, que não dissesse a ninguem que a sua adêga estava tendo as honras de cenaculo.
Estas scenas passavam-se oito dias antes da invasão dos francezes no Porto.
Á noticia da aproximação de Soult nas trincheiras, Norberto de Meirelles fechou a casa da rua das Taipas, e foi para o Candal.
D. Carlota Angela, com sua tia e a noviça Dorothea saíram do convento para o mosteiro de Arouca. D. Rosalia instara para que a seguissem; mas Carlota vencera a vontade condescendente de sua tia, com lagrimas e rogos para que não aceitasse asylo que não fosse o de outro mosteiro menos susceptivel de ser assaltado pelos francezes.
O exercito invasor derramou-se pelo Porto, no cevo do saque e da carnagem. As portas da casa da rua das Taipas, malsinada aos francezes como bem recheiada, não resistiram ao machado. Pouco lá havia que saciasse a cubiça dos salteadores. O denunciante esteve em perigo de ser acutilado, por lhes ter feito perder tempo em arrombar as portas para saque tão mesquinho. Ora, o denunciante era um visinho de Norberto, seu inimigo, e capaz de dar um olho para que arrancassem os dois ao arrozeiro. Disse elle aos francezes que o seguissem além do rio, e elle lhes promettia boa presa, porque as immensas riquezas do negociante deviam estar na quinta.
Seguiram-o os francezes, promettendo-lhe repartir com elle da presa, ou tirar-lhe a alma e os figados, se os enganasse, ou levasse a alguma emboscada.
Ao avisinharem-se do Candal, deram rebate as espias de Norberto de Meirelles. Calou-lhe na alma o mêdo, que amarellece a cara de gemma de ovo, tapa os respiros do pulmão e promove a desordem dos intestinos todos. D. Rosalia caíu de cocoras, e entrou a bater os queixos como em maleitas, e a resmungar fragmentos da Salvè-rainha e do Padre-nosso. Dois criados da quinta, que, momentos antes, tinham estado renovando a escorva das clavinas, e apostando a qual d'elles mataria mais francezes, apenas avistaram os penachos de dez ou doze d'aquelles, que, segundo os seus projectos homicidas, deviam ser levados a murro, deram a fugir por aquelles pinhaes, como envergonhados de se baterem com tão poucos francezes. Chamava-os com desesperados berros Norberto, emquanto elles podiam ouvil-o; mas não houve gritos nem promessas que os volvessem ao posto da honra.
O negociante travou do braço da mulher, para que o seguisse, fiando a salvação na fuga. D. Rosalia ainda se ergueu; mas vacillaram-lhe as pernas frouxas, e recaíu, dizendo que morria, e queria alli morrer. O arrozeiro cuidou que a movia, assustando-a com a ideia de que os francezes a matariam, se ella não confessasse o escondrijo do dinheiro. A pobre mulher, petrificada de terror, não respondia a taes estimulos, e recalcitrava na pertinacia de se deixar matar.
Emquanto ella murmurava um acto de contrição, preparando-se para morrer o mais catholicamente que podesse, Norberto de Meirelles seguiu a pista dos criados, pela porta travessa da quinta, com o intuito de alarmar a freguezia, tocando a rebate a sineta da proxima capella.
Os francezes arrombaram a primeira porta, e outras menos robustas, até entrarem no quarto onde estava D. Rosalia de mãos erguidas, pedindo misericordia. Um da malta, com o rosto coberto por um lenço, disse-lhe em claro e chão portuguez que lhe não fariam mal a ella nem ao marido, se lhe dissesse onde estava escondido o dinheiro. D. Rosalia respondeu que não sabia. A um signal convencionado do interprete, dois refles ameaçadores ladearam o pescoço da moribunda senhora. O homem da cara coberta admoestou-a de novo, pedindo aos francezes que suspendessem a morte por alguns momentos. Rosalia, revalidando tres vezes a condição de que não matariam seu homem, disse que o dinheiro estava enterrado na adêga; mas que tambem lá estavam dois caixões de prata, e esses pedia que não levassem, porque não eram d'ella. Feito o juramento de respeitarem, não os caixões, mas a vida dos depositarios, levaram em braços D. Rosalia á adêga, para a fazerem apontar o local onde convinha cavar.
Meia hora depois, corriam contra a quinta de Norberto de Meirelles, mais de duzentos homens da freguezia, reunidos pelo toque guerreiro da sineta, afóra os fugitivos do Porto, que tinham atravessado a ponte, horas antes de lhe serem abertos os alçapões. Quando entraram na casa, com grandes alaridos e descargas, encontraram D. Rosalia á porta da adêga, prostrada n'um desmaio. Norberto adivinhou o successo horroroso. Entrou, foi direito ao tonel protector do escondrijo, achou a terra revolvida, levou as mãos á cabeça, soltou um grito cavernoso, e foi bater com as costas nos tampos sonoros do tonel. «Roubado! roubado!» exclamava elle, emquanto a multidão compadecida se derramava pelos aditos da quinta, procurando os francezes, e outros tratavam de restituir á vida a mulher do negociante, que parecia morta.
Ao mesmo tempo, embarcavam os francezes, com a opima presa, defronte de Miragaya. No meio do rio, combinaram entre si desfazer-se do denunciante, que os importunava lembrando-lhes a promessa de um quinhão do roubo. A execução foi rapida como o plano. O portuguez foi arrojado ao rio com algumas pancadas na cabeça; mergulhou, veio á tona da agua, fincando-se na quilha do barco, á maneira de rémora, pendurou-se n'um dos bordos, os francezes convergiram para o ponto, os caixões escorregaram para esse lado, o barco inclinou-se tanto, e o barqueiro com tal arte ajudou á catastrophe, que se virou o barco: francezes e caixões tudo se sumiu nos abysmos, salvando-se, apenas, o barqueiro, por ser grande nadador, e merecer salvar-se como instrumento que foi da justiça providencial.
Não sabemos ao certo quantos contos de réis o Douro sepultou nos seus reconcavos. Mais de cem, afóra o dinheiro e caixões do bacharel Sampayo, se calcula a perda. Os haveres de Norberto de Meirelles estavam todos alli. Restava-lhe, apenas, a granja do Candal e a casa da rua das Taipas; mas, o arrozeiro, no mez immediato, tinha que pagar letras, que os portadores, fiados na segurança do aceitante, não haviam apresentado no dia do seu vencimento, rogando-lhe, por favor, o conservar em seu poder os pagamentos até se restabelecer a ordem no giro commercial.
Era, pois, desgraçadissima a posição do pae de Carlota Angela. Via-se pobre, e sentia-se desfallecido e velho para reconquistar o producto do trabalho e da astucia, nem sempre legitima, de quarenta annos. Ainda mesmo que amigos e credores o ajudassem, como de feito ajudariam, esse balsamo não fecharia a chaga. A pena do seu dinheiro era uma angustia infernal, que as palavras animadoras da christã e resignada esposa não alliviavam.
—Deus o deu, Deus o tirou, Norberto,—dizia ella, convidando-o pela religião á paciencia.
—Vae-te d'aqui com as tuas beatices!—respondia elle—Estamos pobres por tua causa. Se fosses uma mulher amiga de teu marido e de tua filha, não dizias onde estava o meu dinheiro, o meu dinheiro, o dinheiro da minha alma!
E, exclamando assim com vozes que derretiam o coração, chorava como uma creança o pobre homem, arrepellando as suissas e os cabellos.
Atalhava Rosalia:
—Não te mortifiques, Norbertinho. Eu se disse onde estava o dinheiro foi para te salvar a ti, porque o tal homem da cara coberta disse-me que tu estavas preso, e te matariam se eu não dissesse onde estava o dinheiro.
—Deixasses matar; antes isso, do que ficar assim... sem nada!
—Ainda temos com que viver, meu amigo. Se eramos ricos, as nossas despezas poucas eram. Faz de conta, Norberto, que o dinheiro está enterrado onde estava; tanto nos serve elle debaixo da terra, como na mão dos francezes. Sabes o que se ha de fazer? Tornemos a trabalhar como quando nos casamos. Para comer e vestir como até aqui sempre hemos de ter. Aos credores dá-se-lhe alguma cousa do que se deve, e vae-se pagando o resto aos poucos. A nossa Carlota quer ser freira, e o dote pequeno é. Eu lh'o arranjarei com as economias que poder fazer. Tenho algumas joias que se vendem, e pouco faltará para o dote de Carlota. Não achas que tenho razão, Norbertinho? Ora vamos, tem paciencia, e agradece ao Senhor em nos ter deixado a vida.
—De que diabo me serve a vida! ah! o meu dinheiro, o dinheiro da minha alma, que tanto me custou! Agora é que os outros me hão de pôr o pé no pescoço. Como não estarão contentes os invejosos! Foram elles que me roubaram. Esse homem que trazia o lenço pela cara era algum dos nossos visinhos, que não podia ver como eu ia medrando! Estou roubado! levaram-me o meu dinheiro, a minha vida, o meu suor, a minha alma. Agora matem-me, com trinta milhões de diabos! Quero morrer, antes que me vejam pobre! vou partir esta cabeça n'uma pedra, e tu fica para ahi a pedir uma esmola, já que disseste onde estava tudo quanto tinhamos.
N'estas e n'outras lamentações, em que a blasphemia não faltava nunca, curtiu, no Candal, a empeçonhada existencia o miserando arrozeiro, durante tres semanas, até que lhe pegou uma febre, e uns frenesis de energumeno, que o pozeram ás portas do inferno. Salvaram-o algumas tisanas, e os confortos de dois ou tres amigos compadecidos que, rogados por D. Rosalia, lhe foram dar esperanças de rehaver com capitaes emprestados, senão tanto quanto perdera, ao menos mais que o necessario para viver com decencia e satisfação. A convalescença foi morosa, e arriscada com recaídas, procedentes de vertigens que advinham depois dos prantos pelo seu dinheiro.
Voltando ao Porto, logo que o exercito francez saíu, fez uma honrosa concordata com os seus credores, e retomou as redeas do seu mester, ajudado pelos amigos e desvelos da mulher, que toda era energia, actividade, e carinho para fazer esquecer a pobreza a seu marido, preoccupando-o com a esperança de enriquecer outra vez.
N'aquelle tempo, porém, esta cousa a que hoje, em francez, se chama fortuna, não se alcançava com a rapidez de agora. A perda do proveito de quarenta annos lidados na vida commercial eram necessarios outros quarenta annos para restaural-a. Por isso que o caminho de ferro era uma utopia, e a celeridade do fio electrico um ideal dos contrasensos impossiveis, a maquina de fazer dinheiro era um mytho, em que se acreditava porque a moeda corrente era fundida e cunhada; mas nenhum particular julgava possivel fazer em sua casa dinheiro.
A posição de Norberto era, portanto, relativamente má. Descorçoado para as labutações do negocio, sufficientemente obtuso para chegar por devezas e atalhos á estrada que os outros palmilham tarde e a más horas, o negociante decaído lá sentia em si roer a desconfiança de que não havia para elle mais readquirir a centena de contos, que tão perto d'elle estavam encalhados entre as fendas de alguma rocha.
Esta descrença entibiava-lhe o animo, infundindo-lhe uma melancolia taciturna e lethargica, d'onde não havia nada que o podésse divertir.
Carlota Angela, recolhida ao seu suspirado mosteiro, soube da desgraça de sua familia. Ergueu as mãos ao Senhor, pedindo-lhe que alliviasse as mágoas de seus paes, e lhes désse, em troca da riqueza perdida, a esperança de maior felicidade no céo.
Quando D. Rosalia disse ao marido qual era a supplica incessante de Carlota, Norberto respondeu:
—Ora! qual céo, nem meio céo! Diz-lhe que peça a Deus que me dê dinheiro.