ELOGIO FUNEBRE
A uma dama, prodigio de fecundidade, que dá á luz tres romances, por semana, nos jornaes do Porto.
Atafona de romances,
És um carril a vapor!
Romantisas quanto achas,
E nos folhetins encaixas
Com satanico furor.
Cornocopia da toleima!
Nós fizemos-te algum mal?
Tu não sabes, escriptora,
Como zombam lá por fóra
Das lettras de Portugal?
Não lucrara mais a patria,
E lucráras tu tambem,
Se fiasses n'uma roca.
Com primor, a massaroca,
Que desprezas, com desdem?
Não te fôra mais airoso
Bispontar bem uns fundilhos
Para em tempo competente
Um remendo pôr decente
Nas cuecas de teus filhos?
Mal tu sabes que sciencia
Tem da meia o calcanhar!
Talvez penses que o romance
É mister de mais alcance
Que nas meias pontos dar!..
Eu por mim antes quizera
Nunca ter lido Camoens,
Nem romances d'uma tola,
Que vestir rôta a ciroula,
Ou camisa sem botoens.
Accredito seja um dia
A mulher emancipada;
Ha-de então ser regedora,
Escrivan, e contadora,
Eleitora, e deputada.
Nesse tempo, se existisses,
Tendo em vista essa pericia
Com que ostentas teu saber,
Que logar podias ter?
Eras cabo de policia.
Tenho pena, quando penso
Que serás formosa e meiga,
E encontro os teus escriptos
Nos embrulhos dos palitos
Do toucinho, e da manteiga!
Faz-me dó, pois tu bem podes
Bordar lenços de cambraia
Com bonito
petit-point
;
E, não sendo aqui ninguem,
Podes, ser tudo na Maia.