EPYSTOLA
AO EXCM.o VISCONDE DE ATHOGUIA EM DUAS VIDAS; MINISTRO DA MARINHA DOS TRES BRIGUES, E DOS NEGOCIOS ESTRANGEIROS... AO SENSO COMMUM.
Illustre paspalhão, pasmo dos orbes,
Nata da estupidez, alcool dos parvos,
De Campanhan o bardo te sauda!
Eu nunca fui sentar-me á tua porta,
Mendigando mercês; nunca os meus cantos,
Fedendo ao macassar da vil lisonja,
As nedeas ventas incensar te foram!
É livre a minha voz: creiam-me os povos!
Nobre feudo pagar aos grandes parvos
É do bardo a missão. A minha é esta.
Ha muito que eu de ti pasmado andava,
Contando á minha Antonia, e aos pequenos,
O nome que no peito escripto tinha.
Em casa do Francisco da Thomasia
Os teus discursos li, Visconde incrivel!
N'aquellas chatas caras que me ouviam,
Vi faiscas saltar de enthusiasmo.
Bebêmos-te á saude, a rego cheio!
E, no excesso do goso, os teus amigos
Não podiam lamber-se... eram uns cachos!
Tu, mais novo que o neto, ousado Gorgias,
Ha pouco trituraste os cabralistas
No rijo almofariz do craneo ôco.
Salvaste Roma, ó ganço!.. se não grasnas
Piravam-se os taes páos
e a Lusitania,
Viuva dos seus páos, ia-se á mingua!
És o Curcio das lonas, que remiste
Do jogo infame da Albion perversa
A patria dos Affonsos e Affonsinhos!
A divida fatal, chamada externa,
Saldaste-a c'o producto dessas chapas,
Em que fica chapada a crassa asneira,
Eterna viscondessa d'Athoguia!
Do
Conde de Thomar
se intitulava
O patacho fatal, terror dos povos!
Fulminaste o patacho! A Europa accesa,
Pedira-te energia audaciosa.
Passaste heroica esponja sobre o nome,
E fizeste callar a voz da Europa!
Ó Jervis! tu nem sabes quanto vales!
Que o diga Campanhan, Valbom, S. Cosme,
Onde eu pude chegar, e a minha Antonia.
A machado e eixó, de páo castanho,
Um busto construí: era o teu busto.
Teu nome eternisei, nome que teve
Um
u
, maldito
u
, que tantas febres
Na mente escandecida te abrazára!
Não sei se diga mais, palavra d'honra!
Com esta não te enfado mais, visconde.
Não desdenhes vaidoso a offerta humilde,
Que mesquinho reptil aos pés te arrasta.
Recebe dusia e meia de lampreias,
Cosinhadas por mim; são de escabeche...
A proposito, amigo, ha quanto tempo
Conservas de escabeche a intelligencia?
[1] S. exc.a mandou vender os páos, porque deu na melgueira d'uns empregados, que os regeneravam á surelfa, com grave detrimento da marinha portugueza.
[2] S. exc.a vendeu umas lonas, cujo producto fez subir os fundos em Londres, e permittiu a construcção de trinta navios de guerra, com que s. exc.a espera «sulcar as salsas ondas d'Amphitrite,» segundo a gravissima opinião do snr. J. M. Grande.
O MINISTRO E O JORNALISTA.
(Dealogo).
MINISTRO
Eu vim chamado ao leito desta patria
Matava-a a corrupção, e eu salvei-a!
Se prostrada jazia, ou talvez morta,
Qual Lazaro da campa, alevantei-a!
JORNALISTA
De certo levantou Vossa Excellencia!
Que brade embora a vil opposição...
Esquálidos vestigios de gangrena
Bem profundos deixou a corrupção.
MINISTRO
Se crê nessas doutrinas luminosas,
E quer ser prestadio a Portugal,
Acceite a empreza honrosa, augusta, e nobre,
D'expol-as, sustental-as n'um jornal.
JORNALISTA
Empreza honrosa é; della me ufano!
Irei apostolar o credo novo;
Direi ás multidoens verdades francas,
Será o meu jornal jornal do povo.
MINISTRO
Bem sei que da defeza é árdua a luta...
Odeia-me, sem causa, esta nação...
Embora! na grandeza dos serviços
Compete ao defensor môr galardão.
JORNALISTA
Bem sei quantas calumnias forja a intriga...
Já dellas foi manchado o grande Decio.
Quizeram macular Vossa Excellencia
Chamando-lhe espião, rival de
Mecio
!
MINISTRO
(Commovido, e esfregando os olhos com cebola).
Bemdito seja Deus! só elle sabe
As nobres intençoens de tal acção!
Por honra, por nobreza, e por caracter,
De certo fui, meu caro, um espião!
JORNALISTA
Não é lá grande feito de virtude;
Mas cumpre que eu me saiba haver na luta.
Convém negar o facto, ou confirmal-o?
Bem sabe que é de crêr haja disputa.
MINISTRO
(Limpando os oculos).
Eu lhe digo, senhor, a patria exige
Medidas uteis, providencias, factos.
Accusaçoens banaes, não lhes responda;
A pedra é livre em mãos desses
gaiatos
.
JORNALISTA
Pois bem! sou desse voto, ei-de julgal-as;
Accusaçoens banaes, pretr'idas, nullas;
Mas dado o caso infausto de citarem
Não sei que transacçoens com certas bullas?
MINISTRO
(Enternecido).
Responda-lhe que eu fui proscripto, errante...
E quando ao ninho caro alfim tornei,
Não só não tinha um pinto pr'a despezas,
Mas nem a livraria, em casa achei.
JORNALISTA
Pois bem, triumphará Vossa Excellencia...
Agora, se lhe apraz... sim... cada qual
Emprega neste mundo, como pode,
O seu... ou pouco ou muito cabedal...
MINISTRO
Intendo... quer dizer que não dispensa
Além do beneficio, uma pensão...
É justa, a quem trabalha a recompensa...
Quer cincoenta mil reis? pagos, serão.
Cinco mezes depois.
JORNALISTA
(Escrevendo).
Senhor ministro, eu não posso
Este jornal sustentar
Tenho esp'rado, em vão tres mezes,
Não me acabam de pagar.
Vossa Excellencia me disse,
A vinte e tres de Janeiro,
Que no Governo Civil
Recebesse o meu dinheiro,
Nem um chavo! e os assignantes
Abandonam-me o jornal,
Porque defendo um governo
Vergonha de Portugal.
Se não manda, quanto antes,
Senhor ministro, as mesadas,
Com pesar vou abraçar-me
Ás outras crenças passadas.
MINISTRO
(Só).
Á vista disto, não ha mais fugir-lhe...
Pouco me serve... mas é pobre moço!..
Fazem-me pena quando assim os vejo...
Não ha remedio senão dar-lhe um osso.