IMPRESSOENS

D'UM PASSEIO, NO JARDIM DE S. LAZARO.

Que delicias não encerra

Esta bem fadada terra

N'um domingo, em mez d'Abril!

Nem eu sei se a natureza

Deu mais pompas a Veneza,

Que no mar reina gentil.

Não na ha terra mais linda

Nem sonhal-a eu pude ainda

Nos meus sonhos da manhan.

Uma só os dons lhe abate,

És só tu, patria do vate,

Donairosa Campanhan!

Mas, aqui, terra das auras,

Espontaneas brotam Lauras

Por entre sacas d'arroz.

E, quaes ferteis cogomelos,

Nascem Dantes de chinelos,

E Petrarcas d'albornoz.

Tudo vai do ceo formoso,

Que derrama ondas de goso

Nestas almas d'alfinim.

Ouem não viu anjos de saia,

Serafins d'alva cambraia

No fantastico

jardim

?

Inda, ha pouco, eu vi delicias

Invejei doces caricias,

Que lá vi... oxalá não!

Entre tantas a mais bella,

A rainha... ai! era ella...

D. Eusebia d'Assumpção!

Ella sempre!.. espectro! larva

Por quem fiz esta alma parva,

Por quem dei cavaco até!

E tão linda!.. impia cegonha,

Tão folhuda!.. era uma fronha,

Um travesseiro de pé!

E, tão tolo, eu quiz fallar-lhe

Quiz mysterios revelar-lhe

Deste amor, desta agonia;

Quiz dizer-lhe em voz terrivel,

Com rancor inconcebivel:

«Passou bem? que bello dia!»

Não me ouviu, virou-me a cara,

E eu jurei vingança avara,

E a vingança... oh! eide-a ter!

Não te rias, lagarticha,

Eide atirar-te uma bicha,

Eide vêr-te a fralda a arder.

Feito o horrivel juramento,

N'aquelle acerbo momento

Dona Eusebia me esqueceu!..

Procurei entre outras flores

Nova fé, novos amores...

Poderia achal-os eu?

Dona Eustaquia era formosa,

Tinha os dentes côr de rosa,

Meigos olhos de marfim;

Tinha o collo verde-gaio,

Lindos braços cor de paio,

Lindas mãos de marroquim.

Mas Eustaquia não podia,

Conceber-me esta poesia,

Que me escalda o coração!

Ao pé d'ella estava um grulha,

Um rival, um gêta, um pulha,

Um palerma, um pelitrão.

A pretexto de meiguices,

Vomitorio de sandices

Era o tal... que eu não direi...

O que eu fiz foi pôr-me ao largo,

Pois luctar é sempre amargo

Contra um estupido de lei.

Outra vi; julguei-a vaga;

Era Dona Saramaga,

D'olhos garços de matar.

De cabello em grande rôlo,

Sua testa era um rebôlo,

Mas rebôlo de encantar!

Esta sim: ouviu-me as fallas,

Conheceu que estava em tallas

Meu dorido coração.

Deu me affectos desvellados,

Deu-me quatro rebuçados

Com sensivel emoção!

Perguntou-me se a Geordano

Ficaria para o anno,

Ou iria p'ra Pariz.

Respondi-lhe que a cantora,

Por em quanto, era senhora

Da garganta e do nariz.

Dito isto (e não é pouco)

Retirei-me quasi louco

De paixão, que é de matar.

Mas palpita-me que um dia,

Consummida esta poesia,

Pés de burro eide apanhar!