VII
Se Luiz de Camões, em pureza de costumes, condissesse com a sobr'excellencia do engenho, seria exemplar unico de talento irmanado com o juizo. Não se conciliam as regras austeras da vida serena e pautada com as convulsões da phantasia. Amores d'alto enlevo e de baixa estôfa, o ideal de Catharina de Athaide e as carnalidades das malabares e baiaderas levantinas--o exalçar-se a regiões de luz divina e o cahir nos tremedaes do vulgo--essas vicissitudes que a si mesmo fazem o homem assombroso em sua magestade e miseria, tudo isso foi Camões, e em tudo isso foi semelhante aos genios eminentissimos; mas nenhum homem como elle pôde redimir-se de suas fragilidades, divinisando os erros da imprudencia, fazendo-se amar nos extravios, e immortalisando-se em um livro que, ao fechar de tres seculos, alvoroça uma nação. É de nós todos esse thesouro legado por um homem que no dia 10 de junho de 1580 expirava na obscuridade. Elle teve de esmola a mortalha. Permitta a Providencia das nações que os Lusiadas não sejam a esplendida mortalha que Luiz de Camões deixou a Portugal.
[1] Por compra feita ao livreiro snr. Rodrigues, da travessa de S. Nicolau, em 1871.
[2] Nobiliario das gerações d'Entre Douro e Minho escripto por Manuel de Sousa da Silva. D'este genealogico nos dá noticia abonatoria D. Antonio Caetano de Sousa, no Apparato á Historia genealogica, pag. CLXIII: «Manuel de Sousa da Silva, filho de Antonio de Sousa Alcaforado e de sua mulher D. Isabel da Silva, filha de Duarte Carneiro Rangel. Foi capitão-mór do concelho de Santa Cruz de Riba Tamega: escreveu notas ao conde D. Pedro em um grande volume em folio que se conserva original da sua mesma letra na livraria de Luiz Carlos Machado, senhor de Entre Homem e Cavado. Escreveu em quintilhas os solares de todas as familias do reino manuscriptas, e um grande numero de titulos de familias com muita exacção porque viu os cartorios dos mosteiros antigos do Minho de que tirou muitas antiguidades para as familias de que tratou».
[3] Eufrosina. act. I, sc. VI, e act. II, sc. II.
[4] Obras de Luiz de Camões, ediç. Jur., tom. I, pag. 166.
[5] Lendas de Gaspar Corrêa, tom. I, pag. 560 e 561.
[6] Veja as estancias desde LXXVII a LXXXIV do canto II.
[7] Tombo do Estado da India, por Simão Botelho. (Na Collecção dos ineditos para a Historia das conquistas dos portuguezes, pag. 198).
[8] Memorias d'um soldado da India, compiladas por A. de S. Costa Lobo. Lisboa 1877.
[9] Lendas de Gaspar Corrêa, III, 637.
[10] Carta II.
[11] Vida de Camões.
[12] Carta I.
[13] Carta de Simão Botelho, pag. 32. (Na Collecçao de monumentos ineditos para a historia das conquistas dos portuguezes, tom. V).
[14] Ediç. Jur., tom. I, pag. 70 e 83.
[15] Cartas de Simão Botelho, pag. 40 e 41. Este alvitre do veador, sempre honrado e muito aceito ao monarcha, surtiu as cautelas e desconfianças que puzeram Camões ao lado de muitos réos do mesmo delicto, porque sentenceavam a entrega dos dinheiros que «arrecadavam», tornando-os por isso menos liquidos e certos.
[16] Rebello da Silva, Historia de Portugal, tom. V.
[17] Hist. gen. da casa real. Provas, tom. VI, pag. 633 e seg.
[18] Historia e memorias da Academia real das sciencias.