Camillo Castello Branco


NAS

TREVAS

Sonetos sentimentaes e humoristicos

LISBOA
LIVRARIA EDITORA, TAVARES CARDOSO & IRMÃO
6, LARGO DO CAMÕES, 6

1890


NAS TREVAS


Camillo Castello Branco


NAS

TREVAS

Sonetos sentimentaes e humoristicos

LISBOA
LIVRARIA EDITORA, TAVARES CARDOSO & IRMÃO
6, LARGO DO CAMÕES, 6

1890


Typ. Christovão—60, Rua de S. Paulo, 62

Á memoria immaculada do Conde de S. Salvador de Mattosinhos, consagra o author estas derradeiras pulsações da sua vida litteraria.

[{7}]

Nota Illustrativa

No soneto XVI d'esta collecção, dirigido ao sr. conselheiro e ministro d'estado honorario Thomaz Ribeiro, a posteridade, louvando o caracter honesto d'este funccionario, invectiva indirectamente a probidade de muitos comtemporaneos d'aquelle honrado secretario d'estado. Os versos dignos de reparo são estes:

«Dirão de ti as porvindouras eras:
«Ministro pobre em Portugal!... Chimeras!
«Ou viveu farto, ou nunca foi ministro..»

Eu já respondi á posteridade injusta nas[{8}] paginas d'um livro provavelmente esquecido: «Maria da Fonte

«O bispo de Vizeu, algumas vezes ministro, quando estava no poder, cedia os rendimentos da mitra e não podia sustentar dois sobrinhos em Coimbra por falta de meios; e por sua morte, o espolio da guarda-roupa prelaticia eram dois pares de calças, umas muito no fio, outras com fundilhos. Antonio Rodrigues Sampaio um luctador de meio seculo, legou á sua familia um miseravel monte-pio. O conde de Thomar estava pouco menos de pobre quando o conde de Ferreira lhe legou cem contos. E a alma immaculada do gentilissimo duque de Loulé? E o austero duque d'Avila encouraçado de commendas e cruses para que o demonio dos maus pensamentos lhe não penetrasse no peito? E Rodrigo da Fonseca, rival de Passos Manuel no desinteresse? E Fontes[{9}] Pereira de Mello, invulneravel em pontos de honra, como Anselmo Braamcamp? Antonio de Serpa, Mendes Leal e Andrade Corvo, quando deixaram de ser ministros iam ganhar a sua vida no jornalismo e no magisterio, e saldar com esses mesquinhos salarios as suas dividas contrahidas no poder. E Lobo d'Avila, um destro gymnasta do talento que se tem dado por bem pago com a benemerita reputação de muito esperto? E Latino Coelho? um ministro que, em materia de ladroagem, só correu eminente risco de ser roubado nos diamantes do seu estylo, se se demorasse no gabinete a ler e a subscrever portarias bordalengas? E o lovelaciano Barjona, grande salteador de corações incautos e mais nada? Não se viu Thomaz Ribeiro, quando largou segunda vez a pasta, abrir escriptorio de advogado? E Lopo Vaz, que tem sahido do governo mais illibado e[{10}] menos martyr do que sahiu do governo da India outro Lopo Vaz, seu problematico avô? Pinheiro Chagas escreve correspondencias para o Brasil e artigos avulsos nos jornaes litterarios afim de conservar a velha freguezia dos seus admiradores. José Luciano de Castro acinge-se ás restricções de uma austera parcimonia, para educar os filhos com o seu patrimonio. Ao Conde de Casal Ribeiro perguntem-lhe por metade dos seus haveres!

*
* *

Outro soneto que remetti ao meu amigo Thomaz Ribeiro era acompanhado de algumas quadras significativas da conformidade com que eu me recolhi ás minhas trevas como d'antes ao meu gabinete de trabalho cheio de luz.

A imprensa jornalistica, transcrevendo[{11}] essas singelas coplas, revelou, de par com o sentimento da commiseração, uma especie de contentamento pela ressurreição da minha alma n'este mundo escuro em que a saudade da luz faz o milagre de me representar por momentos as coisas tragicas e as risonhas da minha vida passada.

Aqui estão as quadras que eu não posso estremar dos outros versos meditados na minha longa e já agora perpetua escuridade.

A Thomaz Ribeiro

Se cá vens jantar, meu anjo!
Dou-te o esplendido soneto,
Que n'esta data remetto,
E talvez te faça arranjo.

Uma prenda caprichosa
Dá-se em mim e não t'a nego:
É que depois que estou cego,
Já não sei fallar em prosa.[{12}]

Tem delicias esta cruz
Feita de pranto e poesia!
Ah! que estranha anomalia...
Quanto mais trevas mais luz!

Homero, Milton, Castilho,
Portentos d'inspiração,
Acharam na escuridão
Sóes d'eterno e immenso brilho.

Poetas epicos d'Iliadas
Temos duzias; mas eu colho
Que tinha apenas um olho
O que escreveu os Lusiadas.

Quando regressou da Persia,
Um perfeito proletario!
Touxe um olho solitario
Sempre a chorar por Natercia.

Tivesse elle olhos normaes,
Com algumas Inscripções,
Faria chilras canções
Sonetos e madrigaes.

Assentemos sem refolhos
Que não seria o cantor
Do feroz Adamastor
Se possuisse os dois olhos.[{13}]

Por que Deus, quando escurece
A luz brilhante de fóra,
Faz repontar nova aurora
Dentro d'alma que amanhece.

Seja pois abençoada
A Providencia divina
Que apagando-me a retina
Me fez da treva, alvorada!

Se eu tiver um cenotaphio,
Em que caibam tres palavras,
A ti te rogo que as abras
Com este humilde epitaphio:

«Venceu emfim as procellas
«E o pavor da escuridade!
«Dai-lhe a vossa claridade,
«Ó lucilantes estrellas!

O soneto relativo ao sr. Oliveira Martins não carece de prosa que o desculpe. Este eminente escriptor e fecundissimo talento sabe, ha muitos annos, quanto eu admiro as suas aptidões litterarias e virtudes civicas.[{14}]

Esses versos foram ditados no dia em que se esperava a nomeação de S. Ex.ª para os conselhos da corôa, onde o discreto publicista não quiz subir, para não descer.

A flecha da satyra pode alvejar certos homens porem não os fere. A couraça do talento, retemperada pela honra, é impenetravel.

*
* *

O soneto Te-Deum Laudamus d'esta collecção necessita de esclarecimentos que me absolvam da culpa da maledicencia. Eu não tive em vista satyrisar nem sequer ligeiramente melindrar o cavalheiro protogonista d'esse inoffensivo poemeto.

Destinei enviar a um jornalista eminente o soneto com uma carta que lhe tirasse as asperesas da mordacidade. Não sei que motivo se deu para que as rimas ficassem até[{15}] agora ineditas. Isso não impede que os versos e a prosa sejam publicados. Dizia assim a carta:

«Considero com respeitosa admiração as faculdades civicas e os talentos do sr. conselheiro Marianno de Carvalho. Ha-de haver 15 annos que Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos m'o assignalou como o mais esperançoso luctador da arena politica.

«Li muitos dos seus artigos humoristicos onde achei confirmado o vaticinio do grande mestre da polemica e da critica.

«Congratulei-me com os amigos de S. Ex.ª quando, ha poucos dias, uma eventualidade auspiciosa o salvou do desastre d'um descarrillamento na via ferrea d'Hespanha.

«Assisti espiritualmente ás missas que se resaram em acção de graças por esse motivo. V. Ex.ª sabe que no amago das coisas mais serias e graves ha sempre um sedimento[{16}] comico, o qual, bem esgaravatado, apparece. Este meu soneto, é o sedimento metrificado em rimas ordinarias e pouco felizes. Eu me persuado que o alto espirito do sr. Marianno de Carvalho se riu das taes missas, primeiramente que eu. Essa luminosa pratica do Catholicismo, que enveste Nosso Senhor Jesus Christo da qualidade, pouco divina, de fiscal e arbitro dos desastres em caminhos de ferro, figura-se-me um contra-senso prehistorico a todas as religiões conhecidas. Seria para mim um germem de revolta e descrença na suprema justiça, saber eu que o sr. conselheiro Marianno de Carvalho saiu do descarrillamento illeso de perigo, sem uma ligeira escoriação na sua epiderme, tendo-me succedido ha 9 annos sahir d'igual desastre com a cabeça oito vezes fendida. Não me posso convencer de que Sua Divina Magestade revellasse tamanha ausencia de[{17}] imparcialidade, como architecto supremo que dirige as cousas do Universo, e principalmente as que em Portugal respeitam ao sr. Marianno de Carvalho e a mim, quando viajamos. Seja como fôr, desejo ardentemente que o sr. conselheiro, dando-me a honra de ler este soneto, haja por bem de o applaudir com um sorriso.»

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O Soneto: Logica de ferro, foi enviado com a seguinte carta a um jornal que o regeitou como inconveniente e desorganisador do systema de convenções methodicas em que todos estamos mais ou menos illaqueados.

«Mande publicar o soneto que lhe envio, senão fôr hostil ás suas opiniões theologicas, em tal assumpto. Eu por mim, pendo a favor[{18}] do Patriarcha, padre catholico, na linha recta dos seus deveres, entre os SS. PP. e os concilios. Aquelles que invectivam o Cardeal, e ao mesmo tempo promovem suffragios por alma d'El-Rei, não digo sejam hypocritas; mas aproveitam a methaphysica do catholicismo para alardearem um espalhafato de piedade.

«O padre catholico opera convicto e por consequencia correcto. Os outros servem-se da religião theatralmente. Como quer que seja, eu me persuado que El-Rei D. Luiz I está serenamente recostado no seu leito de marmore no Pantheon de S. Vicente de Fora; e quem se lembrar da bondade da sua alma, no transcurso de 28 annos de prospero reinado, presta á sua memoria a mais sagrada homenagem com que os vivos podem suffragar os mortos.»[{19}]