EGAS MONIZ

Representa-se no Porto um drama chamado Egas Moniz. Não louvo nem censuro a composição, nem discuto se melhores interpretes a realçariam no palco. Tambem não levanto a já debatida questão da veracidade do facto. O snr. Alexandre Herculano crê que o aio de Affonso Henriques praticou o feito heroico. É o bastante.

Quando o drama se annunciou, a primeira vez, nos cartazes, um homem de sessenta annos, vestido de preto, sobrecasaca no fio, o velludo da gola rapado, as calças recortadas e lamacentas á volta das botas azuladas de velhice, parou á esquina da rua Formosa, a lêr o cartaz grudado no cunhal da igreja das Almas.

Eu reconheci-o a distancia, avisinhei-me, e parei, por detraz d'elle, em frente do cartaz, meditando.

E meditava isto:

Egas Moniz gerou Lourenço Viegas, o espadeiro;

Lourenço Viegas gerou Egas Lourenço;

Egas Lourenço gerou Sueiro Viegas Coelho;

Sueiro gerou João Soares Coelho, valido de D. Affonso III;

João Soares Coelho gerou Pedro Annes Coelho;

Que gerou Estevão Coelho;

Que gerou Pedro Coelho, o matador de D. Ignez de Castro;

Pedro Coelho gerou Gonçalo Pires Coelho;

E assim se foram gerando uns dos outros com uma constancia digna da nossa admiração, até que uma senhora da casa dos Coelhos, senhores de Vieira e Felgueiras, casou na casa dos senhores da Teixeira e Sergude, e d'este consorcio gerou-se:

Gonçalo Pinto Coelho, que gerou:

Martim Teixeira Coelho, que gerou:

Bernardo José Teixeira Coelho, que gerou:

Gonçalo Christovão Teixeira Coelho de Mello Pinto de Mesquita, senhor da Teixeira, de Sergude e do Bom Jardim, pai d'aquelle homem pobremente vestido que lia o cartaz do drama Egas Moniz, na esquina da rua Formosa.

Aproximei-me d'elle, puz-lhe a mão no hombro, e disse-lhe:

--Está o meu amigo regosijando-se de lêr em letras enormes o tio de seu decimo oitavo avô Egas Moniz...

--Não, senhor--respondeu elle sorrindo--estava a scismar n'uma cousa que me não regosija absolutamente nada...

--Bem sei--acudi eu com a minha notoria esperteza--estava v. exc.a meditando que já não ha portuguezes que, á semelhança do seu avô, fossem de corda ao pescoço dar satisfação da palavra mal cumprida.

--Não, senhor; pensava em outra cousa...

--Bem sei... pensava no apagado luzimento d'esta heroica estirpe dos Viegas, dos Coelhos, dos...

--Não, senhor; pensava em ir vêr ao theatro Baquet representar a façanha d'este meu illustre avô; mas vejo aqui escripto que um lugar da galeria custa duzentos reis; e eu, decimo oitavo neto de Egas Moniz, se tivesse dous tostões, iria empregal-os no jantar de meus filhos, que estão em jejum.


Snr. Antonio Moutinho de Sousa, dê no seu theatro um beneficio a favor de alguns netos do aio de D. Affonso I, e convide-os a levantar o obolo que os admiradores de seu avô d'elles depositarem na bandeja dos pobres.

Os descendentes do fidalgo, que ensinou o primeiro rei portuguez a ser honrado, não deviam ter fome e frio, quando as plateias desbordam de gente jubilosa de bom patriotismo e de melhor jantar.