(1872)

I

A casa grande das quinze janellas branqueja no espinhaço do monte.

As janellas fecharam-se ha seis mezes, ao mesmo tempo que duas sepulturas se abriram.

A sepultura do Africano que chegava ao cemiterio, quando a filha expirava; e a sepultura de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos funeraes do pai.

*
* *

Ao homem, que morreu n'aquella casa triste, chamavam o Africano.

Estou-a vendo d'aqui.

As vidraças reberveram o sol poente.

Eu, ha hoje dez annos, vi abrir os alicerces d'aquella casa.

Lidavam operarios a centenares.

Entre os alveneis estava um sujeito, na pujança dos annos, magro, macilento e tostado pelo sol da Africa.

Disseram-me que era homem muito rico, e viera do cabo do mundo, e se chamava o «Duque» por appellido, e o Africano por alcunha.

Avisinhei-me d'elle com o semblante risonho de cortezias para lhe perguntar como ia, em monte assim agro e ermo, fabricar edificio tão grandemente cimentado.

Respondeu que tinha em Benguela uma filha, com quem andára viajando na Suissa. E que a sua Deolinda, estanciando nas empinadas serras de S. Gothard, lhe dissera que seria feliz se morasse no topo d'uma montanha, em casa imitante de outra onde pernoitára, e d'onde vira levantar-se o sol do seu leito de neve.

E elle, pai extremoso, rico e saudoso da patria, disse á filha que, por cima da casinha onde nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava um alto monte, golpeado de regatos que derivavam por entre arvoredos fresquissimos.

E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamára:

--E quando vamos?

--Irei fazer a casa no alto do monte, e depois irás tu, e levaremos para a capella os ossos de tua mãi. E eu descançarei d'esta labutação em que pude grangear mais que o preciso ao teu passadío, visto que preferes a viver em Paris uma casa nas serras de Portugal.

E sahiu de Benguela, provido de dinheiro para edificar o ostentoso chalet que a filha phantasiára.

Ora, os architectos do Minho, como não percebessem a planta do Africano, construiram-lhe um palacio aldeão, espécie de dormitorio monastico, um leviathan de granito zebrado de vidraças enormes e portas alterosas.

Perto d'alli, na outra lombada do mesmo outeiro, está o antigo solar torreado dos senhores de Farelães.

E eu que, n'aquelle tempo, me embrenhava nas ruinarias grandiosas do paço senhorial de Ruivães, a decifrar a lenda meio historica dos Corrêas de Sá nos frescos do tecto apainelado, ao perpassar pelas grossas cantarias do Africano, dizia entre mim: «O palacio cavalleiroso que desaba, e o palacio industrial que se levanta. Aquelle recorda as manhas epicas do peito illustre lusitano, a industria da lança que atirou da India para alli, na ponta ensanguentada, a pedraria dos reis de Chaul, de Calecut e Mombaça. Ergue-se o novo palacio para assignalar á posteridade que o peito moderno lusitano é ainda illustre e emprehendedor, differençando-se do antigo sómente no que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o indio pela frente, ou verberar o ethyope pelas costas.»

Mas eu não sabia se aquelle homem, tão entranhadamente pai, amealhára os seus haveres por entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não. A riqueza não é sempre o estipendio generoso dos homens crueis. E, em corações afistulados por peçonha de cubiça--sêde execravel que se apaga em lagrimas--não cabe o exaltado e santissimo sentimento do amor paternal. Quem chora por um filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar escravos dos braços de suas mães. Verdade é que os praticos d'estes ultrajes a Jesus--ser divino em que Deus se manifestou no mais elevado grau da consciencia humana--dizem que lá, nas cubatas, não ha mães, nem filhos: ha individuos bestialmente rebanhados, e inconscientes de laços de familia. Se assim é, meu Deus, porque não déstes á vossa creatura de epiderme negra o amor maternal que dulcifica as meiguices da hyena enroscada nos filhos?

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* *

Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos, os patins, as portas, a capella e o jardim, Duque, o Africano, saudoso da filha, deixou a obra em meio, e dinheiro de sobra ao seu feitor, pautando-lhe que, no prazo de doze mezes, a casa estaria feita.

E voltou a Benguela, onde tinha centenas de escravos, armazéns de café, de marfim, de gommas, e as suas vastas sementeiras sobre dez leguas circulares de terra, onde o suor da pelle fusca, porejado pelo sol a pique, era um como adubo forte, um guano de sangue estillado por entre febras vigorosas e distendidas pelo latego.

Vendeu as fazendas, enfeirou as bestas e os negros, abarrotou a galera de carregação sua, esquipou a tolda, decorou de frouxeis de sêda o camarim da filha, e proejou á patria. Parecia um dos antigos viso-reis que voltavam da India, d'uns que não se chamavam João de Castro nem Affonso de Albuquerque.

--Vale duzentos contos a carga da Deolinda!--diziam os amigos do Africano, quando as velas da galera, chamada com o nome da filha de seu dono, trapeavam bafejadas por aprazivel briza.

A navegação, por perto da costa, e sempre ajudada por prosperos ventos, correu alegre e descuidosa de receios.

Deolinda deleitava-se a remirar a prata das ondas espumantes, ou, enlevada em leituras amenas, passava as tardes na tolda, em quanto não chegavam os seus amores mais queridos, as estrellas do céo e as phosphorescencias do mar.

Ella era mulata, e bella quanto cabe ser, com a face beijada por aquelles raios ardentes e o sangue escaldeado das lufadas do deserto--mulata, com as feições levemente denunciativas da raça materna, quasi tirante a esmaiado amarellido, um bem harmonisado conjuncto de graças, avantajadas ao que se diz belleza, debaixo d'este nosso céo de rostos niveos, sangue pobre, e epiderme alvacenta.

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* *

Trasmontada a linha, e festejado o passo com descantes da maruja, o céo entrou de nublar-se, a nortada a ringir nas gaveas os silvos agoureiros, e o piloto esperto a encarar mui fito em um nevoeiro que se acastellava, sobre noite, á volta do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1889.

Ao repontar a manhã do dia seguinte, o mar urrava acapellado, as nuvens desciam a sorver as ondas que se encurvavam, o sol apenas entreluzia frio e marmoreo na baça claridade da manhã.

Ao meio dia, o escurecer fez-se rapido e pardacento como um crepusculo de noite invernosa.

Bravejou subita furia de mar, apenas colhido o velame.

O piloto vira terra, e cobrára alento na esperança de aproar a Cabo Verde, com quanto se temesse d'aquella costa infamada de muitos naufragios, desde que portuguezes se andam á cata de ouro e opprobrio por entre os colmilhos da morte, na espadoa das tempestades; a braços com a ira de Deus e dos homens.

Noite alta, estrondeou no cavername da galera um como estampido de peça que detonasse dentro.

Deolinda foi colhida nos braços do pai, quando resvalava da camilha ao pavimento, com o livro das suas orações nas mãos convulsas, e o nome da Mãi dos afflictos nos labios.

--Morreremos, meu pai?!--perguntou trespassada de horror.

--Animo!--murmurou elle--abraça-te em mim, que eu não quero chorar-te nem que me chores, filha... Morreremos juntos.

Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros, o rojar rispido das amarras, os gritos, as supplicas, os apitos, o troar da peça que pedia soccorro, e o dos trovões, que reboavam, e um relampadejar que azulava os abysmos.

E, de subito, a galera, após aquelle repellão que lhe vibrou as cavernas, quedou-se arquejante, a roçar nos espigões da restinga.

E as vagas, raivando contra aquelle estorvo, galgavam-no rolando-se, refervendo e marulhando de um bordo a outro. O porão descosia-se, bebendo e golfando jorros de agua como o monstro dos mares escalavrado pelos arpéos.

O capitão, pallido mas sereno, debruçou-se no corrimão da camara, e disse:

--Encalhou a galera, snr. Duque. É tempo de sahir a terra.

--Nenhuma esperança?--perguntou o Africano.

--As vidas salvam-se... talvez...

--Só?...

Perguntou o homem rico; mas aquelle monosyllabo, estrangulado na garganta, rouquejou como um arranco da vida. Só! Só a vida? O meu suor de quarenta annos, os meus duzentos contos de reis não se salvam? Eu hei de sahir pobre d'entre esta riqueza que é minha, que é o repouso da velhice, o patrimonio de minha filha? Só!

E as lanchas, balançadas no vai-vem das ondas, chofravam nos flancos do navio por entre espadanas de espuma.

Deolinda atravessou corajosa, e firmada no braço do pai, até ao portaló. O Africano levava no rosto um terror indescriptivel, e nas contorsões e visagens de afflicção a agonia da peor morte.

E ella saltou de impeto ao escaler, apenas amparada na mão de um passageiro, que lhe disse:

--Adeus...

--Não vem?--perguntou ella.

--Primeiro hão de ir as crianças, as mulheres e os velhos.

Deolinda contemplou-o alguns momentos, e amparou-se na face do pai, onde as lagrimas derivavam copiosas.

Os escaleres vararam na areia, revessados no rolo da vaga. Estavam salvos os velhos, as mulheres e as crianças.

E, logo, os remadores intrepidos que outra vez se arrostavam com a morte, viram a galera a balouçar-se entre o vagalhão, e ouviram o estralejar do cavername por sobre os clamores dos naufragos; depois, levantou-se um grande mar, e a lancha ficou para além d'essa formidavel montanha; e, quando o escarcéo descahiu para solevar a barca, um momento quieta nas fauces da voragem, os mareantes já não viram da galera senão o gume da quilha, e á volta d'ella o bracejar dos agonisantes.

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* *

Um dos que alli morreram foi aquelle que, dando a mão a Deolinda, lhe dissera: «Adeus!»

Era um homem de trinta annos, bem figurado, ares de fina raça e maneiras de cortezão, com palavras polidas e muito alheias das usuaes nos homens que viandam por aquellas paragens. Não lhe sei o nome, nem que lh'o soubera o diria. Foi-lhe tumulo o mar, como se a sorte quizesse que o seu nome se não lesse em epitaphio. Sei que elle cumprira sentença de tres annos em Angola, porque aspirára ás honras de ser rico, sem escrupulisar nos meios. Tinham-lhe dito que os seus conterraneos mais nobilitados se haviam enriquecido, trocando as riquezas da sã consciencia por outras que levam ao inferno, é verdade, mas pelas portas do paraiso das regalias d'este mundo. Via-os saborearem-se em socego dos bens mal adquiridos, sem remorso que lhes desvelasse as noites, nem injuria da sociedade que lhes pozesse ferrete na testa; ao revez d'isso elles eram a classe mais ao de cima, a gente chamada ás honras, sem desconto na estupidez nem proterva reputação, quanto á procedencia de seus bens de fortuna.

Nascimento illustre, educação primorosa em letras, e bastante descuidada em moral, pobreza repentina por effeito de demandas que o esbulharam do patrimonio, impaciencia, ruins exemplos de infames prosperados--todas estas cousas se travaram de mão para o perderem. O seu crime foi associar-se desaproveitadamente com moedeiros falsos, prestando-se a servir de passador de notas no Brazil; no acto, porém, de fazer-se á vela para lá, de um porto do archipelago açoriano, foi denunciado, preso, e condemnado.

De volta para Portugal, foi visto por Deolinda a bordo da galera de seu pai, que o tratava com desdem, senão desprezo. A filha do negreiro--negreiro no começo da vida mercantil, mas depois (bemdita seja a civilisação!) philanthropo seguidor das leis humanitarias impostas pelo cruzeiro--soube de seu pai o crime do passageiro, e não se compenetrou do racional horror de tamanho delicto. Bem que o condemnado não ousasse abeirar-se dos mercadores, e menos d'ella, Deolinda usou traças de conversar com elle uma fugitiva hora de noite serena, em quanto o pai, no seu camarim, formava esquadrões de algarismos, dos quaes tirou a prova real de que os seus haveres excediam para muito os duzentos contos que lhe attribuiam.

Desde essa hora da noite estrellada em que ella ouvira palavras nunca ouvidas, accendeu-se no coração combustivel da mulata o fogo que costuma purificar as culpas do homem amado, tanto monta que elle seja moedeiro falso, como homicida, quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada.

E elle soube que era amado d'aquella mulher que havia de herdar muito ouro, e nem por isso lhe deu o galardão de ter descido até ao pobre estigmatisado para sempre. Nem palavra de humildade agradecida, nem de animo alvoroçado por esperança de ser, a um tempo, amado e rico. Deolinda ousou arguil-o de frio e desdenhoso. Elle explicou docemente a sua frialdade, dizendo que só havia no mundo uma mulher que não devia desprezal-o, e uma só a quem elle devesse amar sem pejo nem temor de ser repellido.

--Quem é?--perguntou ella em sobresalto.

--É minha mãi. Vou procural-a, e pedir-lhe perdão, porque puz a minha ignominia á cabeceira do seu leito de moribunda. Se a não mataram vergonhas e saudades, é porque Deus quer que eu a veja.

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Quem sabe ahi dizer o que Deus quer de nós?

O degredado, na volta da patria; alli morreu n'aquelle naufragio, depois que ajudou a salvar as crianças, as mulheres e os anciãos, despedindo-se de todos com aquelle sereno adeus que dissera á filha do Africano.

E Deolinda, quando soube que elle era um dos vinte e cinco cadaveres escalavrados na costa de Cabo Verde, chorou poucas lagrimas, e parecia querer romper no seio uma represa d'ellas, que lhe deliam os estames da vida.

--Estamos pobres!--exclamava o pai.

--Temos de mais para o que havemos de viver--respondia ella com uma alegre serenidade.

--Porque has de tu morrer, minha filha?--volvia elle já conformado com a desgraça.

--Porque senti ha pouco um estalo no coração, e cuidei que morria abafada. Passou esta ancia, mas sei que hei de morrer d'isto. Parece que vejo a sepultura aberta, e que o frio do cadaver me trespassa.

O pai aconchegou-a no seio, como quem aquece uma criança enregelada, e soluçou:

--Ó meu Deus! levai-me minha filha, quando eu me queixar da vossa vontade que me reduziu a esta pobreza!

II

Quando soou em Ruivães a nova de haver chegado ao Porto o Africano, com a filha, os homens ricos e pobres, da terra e de fóra, contribuiram com mais ou menos para se lhes fazer uma espera de estrondo em Famalicão. Contractaram-se as bandas musicaes mais em voga, ou mais na berra, como diziam os antigos. Parece que a phrase seiscentista foi inventada particularmente para as orchestras d'aquelles sitios, as quaes berram pelas suas guelas de metal, quando a paixão philarmonica as não exalta do berro ao mugido, do mugido ao urro, e do urro ao bramido. Ha alli trombetas que parecem ter assistido ao arrazar-se da Jericó da Biblia, e se reservam para trovejarem o horrendo signal da resurreição em Josaphat.

Eram quatro as philarmonicas chamadas a festejarem a entrada de Antonio Duque no concelho. A musica de Landim, famosa por seis cornetas de chaves, que executavam valsas e peças theatraes, de modo que, se Ducis as ouvisse, diria que a opera lyrica balbuciára os seus primordios entre as florestas druidicas. A banda de Fafião competia com a de Guinfões na substancia das trompas e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se ás tres rivaes na delicadeza das modas e sentimentalismo com que as charamelas respiravam o sopro d'aquelles musicos, cujas bochechas pareciam estar cheias de alma e castanhas assadas.

Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho saboreado os innocentes deleites que prodigalisam ao seu auditorio as quatro bandas musicaes de Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum amigo vai alegrar o ermo de S. Miguel de Seide, chamo logo a musica mais delicada, a de Ruivães; principalmente se o amigo é de Lisboa, e frequentador de S. Carlos. O senhor visconde de Castilho e seu filho Eugenio são chamados a depôr n'este processo da immortalidade que vou instaurando ao figle e á requinta, principalmente á requinta de Ruivães. Não vi o senhor visconde chorar de prazer, mas observei que s. exc.a estava commovido quando a requinta assobiava uns guinchos estridentes da Maria Caxuxa.

Thomaz Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se ás vezes, não ao seu quarto a calafetar os ouvidos, mas ao intimo de sua alma a fazer viveiro de inspirações. Eugenio de Castilho, o poeta das phantasias louras, quer a musica de Ruivães lhe amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinoes das ramarias lhe déssem invejas dos seus amores, fosse o que fosse, foi assaltado e vencido d'uma paixão.

Esta paixão tem uma historia. Não sei se elle tenciona escrevel-a nas suas memorias posthumas; e, assim, contal-a eu, é esbulhal-o da novidade e primazia; desconfio, porém, que o meu hospede e amigo desconhece a historia d'aquella raparigaça de cabellos de ouro e ancas boleadas que deslumbrava a duzia de moças requebradas que lhe apresentei na eira.

Chamava-se ella Amelia de Landim. Contava-se que tinha vindo para alli da roda dos expostos de Barcellos. Naturalmente, porque era linda e pobre, ou se vendera ou tinha sido vendida. Assim se disse; mas o certo foi que um filho de lavrador rico lhe dera o impulso no alto da ladeira, ao fundo da qual estava a voragem. Póde ser que a alma se abysmasse e requeimasse no fogo dos infernos por onde resvala a mulher perdida. Póde ser. Do corpo é que ella não perdera a menor belleza; nem sequer o viçor dos dezoito annos.

Teria então vinte e cinco. Não era belleza peninsular. Aquelle escarlate, os olhos azues, os opulentos cabellos louros, a pujança das fórmas, a musculatura rosada e rija, a elegancia congenita, o riso, a desenvoltura sem despejo, a graça lubrica do trajo, em fim, a mulher, os arvoredos, a musica de Ruivães, nomeadamente a requinta, e em meio de tudo isto um rapaz de vinte e dous annos, poeta porque é Castilho, e ardente porque é trigueiro, e apaixonado porque é ardente, eis aqui o porquê d'aquelles amores.

Castilho carecia de um confidente com ouvidos e critica. A poesia não lhe deu para se confidenciar com os sobreiros da mata, nem me consta que elle se andasse a entalhar na cortiça iniciaes e datas.

O seu confidente foi o morgado de Pereira, ultimo senhor da honra e couto de Esmeriz, um rapaz de grande coração, que eu apresentei, no Limoeiro, a José Cardoso Vieira de Castro, que, em 5 de outubro do anno passado, morreu no degredo, para onde o acompanhou aquelle morgado. Este neto dos Ferreiras Eças, e dos remotos castellões de Riba d'Ave, é hoje em Cassengo, na Africa, negociante de café, de marfim, de gommas, de farinhas, etc. Depois de haver bandarreado vida de fausto, com muitas illusões perdidas, mas pouquissimas lagrimas, porque a desgraça lhe anda sempre a morder os tacões das botas, em dia de fieis defuntos, ajoelhava, e então chorava, no cemiterio de Loanda, defronte do cómoro onde jaz Vieira de Castro, o mais sublime desgraçado que os homens injuriaram, desde que o sol de Deus aquece condições de feras dentro dos covis que se chamam arcas do peito.

Ó meu caro morgado, estas linhas não chegam ao seu sertão, nem eu desejo que as leia, para lhe não darem rebates de saudade d'aquellas noites de 1866, quando vossê e mais o seu gentil confidente, com intervenção da lua, fallavam da Amelia de Landim, em quanto os meus queridos visconde de Castilho e Thomaz Ribeiro se embellezavam nas trovas da Custodia da Feira, que seria Hypathias, se nascesse na Grecia, ou Corina, se os amavíos de Italia lhe coassem no seio cousas mais limpas do que as coplas que a trovadora do Minho tirava do estomago em perfumes de vinho verde.

Não sei como Eugenio de Castilho sahiu de S. Miguel de Seide, pelo que respeita á alma. Lá dizia-se que Amelia, a douda, vehementemente apaixonada, iria depós elle. Eu receei o lanço de fino amor, d'onde adviriam ao meu hospede agros desgostos. Se os de Lisboa lh'a vissem, quantos rivaes, que mordentissimos ciumes! Aquillo era mulher para destinos extravagantes. Que a sentassem n'uma friza de S. Carlos! Os binoculos assestados n'ella seriam tantos como as paixões, e ao outro dia a engeitada de Landim, se não fizesse ministerios, havia de fazer muito amanuense de secretaria, e dar vazão ao estanque de muito bacharel.

Não foi: estava-lhe reservado menos brilhante, mas mais pacifico destino.

Um dia, appareceu em Landim um homem de Barcellos, procurando a mulher, que trouxera da roda dos expostos, em 1851, uma menina chamada Amelia. Vivia ainda a ama que a creára. Foi chamada a exposta á presença do homem que se dizia portador de uma fausta nova.

Chegou Amelia, o recebeu do velho desconhecido o tratamento de excellencia. Cuidou-se ella ludibrio do sujeito, e riu-se ás casquinadas para lhe agorentar o prazer da zombaria.

No em tanto, o velho, composto gravemente o aspecto, disse-lhe:

--Minha senhora, não é para gargalhadas a missão que venho cumprir...

--Pois v. s.a está a dar-me excellencia!--volveu Amelia.

--Dou-lhe o tratamento de seu pai e seus avós. Seu pai, o snr. Alvaro de Mendanha, antiquissimo fidalgo e representante dos alcaides-móres de Barcellos, falleceu ha tres dias com testamento, em que declara que houvera de uma sua parenta, áquelle tempo freira no mosteiro de Vayrão, uma filha, que por justos motivos expozera, assignalando-a com o nome e outras circumstancias. Acrescenta que tem noticia de existir em Landim essa menina, que elle reconhece sua filha, e a institue sua universal herdeira. É v. exc.a por tanto a herdeira do snr. Alvaro de Mendanha.

A ama abriu a bocca e despediu um ah surdo, que vinha da garganta afogada pelo jubilo.

Amelia quedou-se immovel, pensativa, triste, e murmurou:

--Se meu pai sabia que eu estava aqui, porque me não levou para a sua companhia?

--Respondo, minha senhora. Quando v. exc.a tinha dezoito annos, seu pai indagou e descobriu que a snr.a D. Amelia estava aqui; porém, ao mesmo tempo, exactas ou inexactas informações lhe asseveraram que a senhora levava uma vida pessima, deshonrada e cheia de opprobrio. Receou, com algum fundamento, o snr. Alvaro de Mendanha que o aviltamento de sua filha desluzisse o lustre do seu nome, e por isso abafou o coração e o remorso debaixo do peso da dignidade, ou recuou diante da irrisão do mundo...

--Mas...--interrompeu Amelia--se eu estava perdida, foi porque elle me atirou ao mundo e á sorte sem amparo de ninguem...

--Tem razão, minha senhora, e foi essa mesma a razão que moveu seu pai a deixar-lhe todos os seus bens.

--Mas eu antes queria conhecel-o e ser pobre, que ser rica por morte d'elle.

--Já que não é remediavel essa nobre dôr--tornou o testamenteiro de Mendanha--receba v. exc.a a suprema prova do arrependimento de seu pai. N'este legado dos bens está o legado do coração. Seja de hoje em diante v. exc.a digna d'elle, já que desde esta hora os seus appellidos são dos mais illustres d'esta provincia.

N'este mesmo dia, D. Amelia de Mendanha sahiu para Barcellos, onde entrou a occultas para o palacete de seu pai, a fim de trajar luto e apparecer convenientemente aos numerosos parentes que confluiam a desanojal-a.

Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa antiga e solida. Alfaias do tempo de D. João V a dourarem os salões de tecto apainelado, com reposteiros brazonados. Na parte mais velha do edificio cadeiras repregadas de bronze, contadores atauxiados de prata e enxadrezados a côres, guadalmesins nas paredes, amplas mesas de pés torneados, leitos rendilhados com as armas dos Mendanhas na espalda, bufetes, jarras da India com as iniciaes de um governador de Chaul, oriundo de Mendanhas, retratos de familia a começarem em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de Barcellos. Em meio d'isto, e senhora de tudo isto, aquella Amelia de Landim, ó meu amigo Eugenio de Castilho! aquella Amelia, que sarabandeava a cana verde, o Leva agua o regadinho, e descantava umas torradas com manteiga que não ha ahi mais que se diga.

--Onde estava ella?

Perguntavam entre si as primas e os primos.

E diziam exactamente onde ella estivera e de que infectos paues se levantára com azas de ouro aquella borboleta sahida de tão feio casulo! Relatavam-se os pormenores da sua desgraçada vida, encareciam-se, como se fosse preciso, as deshonestidades... e visitavam-na.

Volvidos alguns mezes, tres padres, á compíta, lhe sahiram a propôr tres casamentos: rapazes, parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e gentilissimos de suas pessoas.

Rejeitou-os.

Um dia, sahiu D. Amelia de Barcellos, na sua sege, apeou em Famalicão, sahiu a pé, e parou perto de Landim, á porta de um lavrador. Procurou por um homem que dava pelo nome de Antonio do Couto-de-baixo.

Sahiu a fallar-lhe no quinteiro, ou alpendre, um sujeito de trinta annos, boa figura de camponio, estupidez em barda por todo aquelle carão.

--Antonio--disse ella--conheces-me?

--A senhora, a senhora... acho que é...--tartamudeou o lavrador agadanhando no occipital.

--Sou a Amelia de Landim. Quando eu tinha 15 annos, amei-te. Era então innocente. Esperava ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai não te quiz deixar casar commigo, porque eu era pobre. Sei que soffreste, e quizeste fugir para o Brazil, a fim de ganhares dinheiro, para depois me receberes. Eu não te deixei ir. Sabes qual foi a minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te amo, porque foste a origem da minha desventura. Queres casar commigo? Responde.

--Quero.

--Então segue-me.

--Deixa-me ir dizer a minha mãi; que essa queria que eu casasse comtigo.

--Podes dizel-o a teu pai, que esse tambem quer agora.

E, d'ahi a momentos, o pai e a mãi sahiram ao alpendre a recebel-a, e levaram-na para o sobrado entre caricias.

Ahi pernoitou.

O velho nunca pôde desarticular os queixos da apostura do espasmo, desde que D. Amelia principiou a contar por milhares de alqueires de milho o rendimento de sua casa.

Ao outro dia, que era domingo, leram-se os primeiros banhos, e, com dispensa dos immediatos, casaram-se na igreja de Santa Maria de Abbade.

*
* *

Mas a que proposito cahiu este conto, que não tem que vêr com AQUELLA CASA TRISTE!...

Ah! foi por amor da requinta da musica de Ruivães, que está agora silvando na Barca da Trofa, á espera de Antonio Duque, o Africano.

III

As quatro musicas reunidas na Ponte da Trofa, depois de espavorirem os passarinhos, que, ao descer da tarde, se emboscavam nas ramarias do rio Ave, retrocederam, porque o Duque não chegou. Os promotores da festa, mandando sobraçar os feixes de foguetes de tres estouros, disseram entre si que o Africano, faltando á hora da espera triumphal, bem demonstrava ser filho do capador da Lamela. Outro era de parecer que o Duque, tratando de resto as pessoas que o obsequiavam, dava a perceber que não queria amigos... do seu dinheiro.

O Africano havia escripto de Lisboa ao seu feitor, annunciando-lhe o dia em que tencionava chegar á sua casa de Ruivães, com recommendação de lhe ter preparados os leitos e assoldadada uma boa criada para o quarto de sua filha.

Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do naufragio, porque a não sabia. Se o homem lesse gazetas, informaria os seus visinhos do desastre de seu amo, da riqueza engolida pelas guelas da tormenta, da quasi pobreza em que ficára o naufrago, e, em fim, das piedosas lastimas com que os periodicos deploravam a catastrophe de duzentos contos grangeados honestamente. Se isto se soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse em busca de musicas, competindo entre si os obsequiadores sobre qual arranjaria aquella que maiores gritos fazia dar á fama pelos buracos da requinta. Quanto ás vinte e quatro duzias de foguetes de tres estouros, que os rapazinhos de Ruivães tinham carregado até á Ponte da Trofa, é bem de vêr que ninguem se abalançaria a tamanho estrondo de generosidade, se se soubesse que o Duque não vinha em circumstancias de chorar de ternura abraçado ao peito magnanimo d'onde rabiavam tantos foguetes.

No dia marcado ao feitor, devia o Africano chegar á Ponte, onde era esperado; porém, apeando na estalagem da Carriça, legua e meia distante, ouviu dizer que na Trofa estava o poder do mundo, com quatro musicas, e muito fogo do ar, á espera de um brazileiro que vinha da Africa.

Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse a parelha da sege, porque resolvera sahir de madrugada.

Depois, foi contar á filha o que ouvira, e o desgosto que queria evitar no encontro de festas, tão desapropositadas da tristeza de ambos.

Deolinda, prostrada no leito, approvou a resolução do pai, queixando-se de agonias, suffocações e desmaios do coração, que mal a deixavam seguir a jornada.

Passou o pai o restante do dia e parte da noite á beira da cama, inventando com santo esforço alegrias que divertissem Deolinda da concentração que uma ou outra lagrima desafogava por momentos. Alegrias!...

Que heroismos cabem em peito de pai! Quantos ha que são suppliciados por esse amor que parece vir da mão de Deus! Que maiores angustias tem esta vida, se comparamos todas á d'aquelle pai que alli estava ao pé da filha que os medicos de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado perdida!

Mas elle, acreditando na sciencia que tem a certeza de ser lesão mortal a hypertrophia do coração, afigurava-se-lhe que a Providencia o não castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver ao perdimento dos bens, para depois amparar em seus braços a filha agonisante. Nunca discutira entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe coubesse no regimento d'este mundo. São meditações estas que, em Africa, passam rapidas como o sirôco, mas não abrazam, nem obrigam as caravanas a curvar o corpo até bater com as faces nos areaes. Os que por alli veniagam, á imitação do pai de Deolinda, pensam, se acaso pensam, que a justiça do céo tem alçada em mais amenos climas, e descura saber se lá o homem tem mais ou menos semelhança com o tigre. Porém, depois que o céo se azula e estrella, áquem da linha, e a briza refrigera o sangue, os expatriados, maiormente os ricos, não recusam crêr que ha Deus, dadas certas condições; fazem-lhe o obsequio de o conjecturar sentado á mão direita do Padre Eterno, e absorvido na perennal gloria de sua divindade, sem entender nas trivialidades d'este globo, mais pequeno que os milhares de mundos que lhe circumvalam á ourela do throno. Esta philosophia é grandiosa e barata. Cançam-se os mestres em a propagar, e todavia qualquer sandeu bem engraxado a tem espontanea na alma, como tortulho em lodaçal, sem que os philosophos lh'a inculquem. Estudem Ario, Spinosa, Renan, e outros, afóra o meu bacalhoeiro, que tem dentro de si tres philosophos, um portico, um lyceu, dentro de si, repito, porque o si, o elle, são as cedulas bancarias, a burra, que tem um nome de predestinação para aviso e escarmento de sabios que se burrificam, não querendo acabar de entender que saber, honras, regalos, respeitos, inviolabilidades, vem tudo da burra.

Succede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se uma onda, que logo se arqueia em vagalhão, e se abre em voragem. Ahi resvala a riqueza do homem, que se arrodelára com ella das farpas do mundo. Os brilhantes impenetraveis do arnez cahiram e rolam na profundidade do abysmo. Aqui está o homem a pensar em Deus, porque está pobre, está sósinho, já se não vê idolo dos outros e divindade de si proprio. A desgraça, que traz sempre comsigo um anjo vestido no céo com uma luz que arde inextinguivel no tumulo de Silvio Pellico, assenta-se ao lado do infeliz, e começa por lhe dizer:

«Que eram esses bens da vida, se tão depressa te reduziste a esta pobreza? Olha tu para as estrellas que scintillam serenamente sobre a voragem que t'os devorou, e pede ao meu anjo que te diga o que ha d'estes milhões de mundos para além!»

Ah! quando esta voz repercute na consciencia de um pai, e ao mesmo tempo a aza da morte roça e tinge de rubor febril a face de sua filha, então sim, Deus entreluz na treva, a alma crê, mas crê para pedir de mãos erguidas. Isto é fé, é fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma hora a razão dos grandes desgraçados foi alumiada por esse relampago.

Pelo que, assim orava o Africano, ás quatro horas da manhã, em pé, defronte do leito da filha adormecida.

*
* *

Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente.

Quando o souberam os visinhos, um correu á igreja a repicar o sino e a sineta, outro rompeu as nuvens com girandolas, a orchestra da terra, que andava dispersa a sachar os milharaes, confluiu de galope a casa do mestre, escodeou as mãos do regato, travou dos metaes, e prorompeu estridulamente á porta do Africano, tocando o hymno de 20, o hymno do snr. Costa Cabral, o hymno da snr.a Maria da Fonte, o hymno do snr. duque de Saldanha, e o do Santo Padre Pio IX.

O Africano sahiu á janella com sua filha, cortejou o publico, assistiu a duas mazurkas tocadas com variações de requinta, e pediu venia para recolher-se em razão de sua filha se sentir mal com o sol que lhe dava no rosto.

O publico murmurou, tregeitando uns momos significativos de menos respeito.

O feitor foi dizer a seu amo que era preciso dar de beber aos musicos, e receber a visita dos parentes e mais lavradores.

O Duque respondeu:

--Vá ahi fóra ao pateo, e diga bem alto que eu estou pobre.

--Pobre!--acudiu o feitor casquinando um riso perspicaz--Bem me fio eu n'isso! V. s.a está a mangar!...

--Faça o que lhe digo--volveu severamente o amo.

E, de facto, o criado foi ao pateo, chamou a si os lavradores mais grados, o mestre da musica, o boticario de Délães, e o boticario de Landim, e o regedor de Vermoim, e disse-lhes:

--O ill.mo snr. Duque manda-me dizer a vossemecês que está pobre.

Os circumstautes olharam uns para os outros, embrutecidos pelo mesmo choque. Um d'elles, porém, que eu presumo fosse um dos dous boticarios, deu aos beiços um geito de quem vai orar. Encararam-o todos, e o boticario tirou do peito estas duas palavras:

--Ora bolas!

E sahiu do pateo.

Tenho esquadrinhado o melhor sentido d'aquellas palavras do attico pharmaceutico. Consultei philologos, que mais convisinham d'este sujeito, e apenas colhi que as expressões «ora bolas» montavam tanto como dizer: ora bolas.

Eu, porém, dou mais lata interpretação ao epiphonema, sabendo que todo aquelle gentio boloirou para casa[1].

O Africano, passados seis mezes, procurou um brazileiro rico de Ninães, recentemente chegado, e disse-lhe:

--Sei que o senhor está resolvido a edificar uma casa. Se quer poupar-se a grandes despezas, incommodos e desgostos, compre-me a minha. Vendo-lh'a por metade do que me custou, com uma condição: se eu e minha filha não tivermos morrido dentro de seis mezes, serei obrigado a dar-lhe a casa no fim d'este prazo; mas, n'estes primeiros seis mezes, o senhor não poderá occupal-a.

Pediu o brazileiro explicações de tão estranha clausula.

O Duque respondeu:

--Minha filha está mortalmente enferma. Tem um aneurisma. Eu tambem me sinto no termo da vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me deixa vêr a morte na face de minha filha. Não hei de sobreviver-lhe, se Deus me não fizer o beneficio de me levar adiante.

Consolou-o o brazileiro conforme soube, aceitou a proposta, e assignou as escripturas no dia seguinte, entregando ao vendedor alguns contos de reis.

Pagou o Africano as dividas contrahidas em Cabo-Verde, encerrou-se na ante-camara do quarto de sua filha, e deu-se pressa em aggravar os seus padecimentos á custa de se remirar no seu infortunio, de cortar bem dentro as fibras ainda rijas do coração, antecipando a imagem da filha morta, repulsando todo o allivio da esperança, furtando-se a todo o desafogo, matando-se com a lentidão de um desvairado que se encavernasse n'um antro, esperando sem terror a entrada da fera, e anciando-a para se lhe rasgar nas presas.

Ao quinto mez do contracto, os padecimentos de Deolinda tocaram nos extremos symptomas da morte. As hemorrhagias amiudaram-se. Estava já entorpecida, immovel, salvo quando arrancava do seio as aspirações, que revelavam ao través das coberturas da cama os arquejos do coração.

N'esta conjunctura, o pai estabeleceu entre si e Deus uma convenção que era já delirio precursor da demencia ou da morte: «Se ella hoje morrer, ou Deus me mata ámanhã, ou, quando ella estiver sepultada, eu me matarei.»

O parocho, que sacramentára Deolinda, ouviu estas vozes, e disse aos botões da sua batina: «Este homem está no inferno.»

Quando ficou sósinha, Deolinda chamou o pai e disse-lhe:

--Não quero ir d'esta vida, sem dizer-lhe um segredo com que não devo morrer. No meu bahú está uma caixinha de folha, que o mar lançou á praia, depois do naufragio. Levaram-me em Cabo-Verde esta caixinha, cuidando um marujo que fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de uma mãi muito extremosa para seu filho. O filho era aquelle rapaz que vinha do degredo, e salvou os velhos, e as crianças, antes de morrer. A mãi, que lhe escrevia, diz-lhe em algumas cartas que tem sentido as angustias da fome. Chama-se ella... Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia... Se tiver morrido, feliz d'ella. Se ainda viver, meu pai, mande-lhe como esmola o que ficar do meu espolio, e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz filho... até morrer... por elle!...

--Cumprirei a tua vontade, minha filha--respondeu o pai.

*
* *

Ditas aquellas palavras, o Africano encarou na filha com a fixidez torva de um amaurotico. Depois, como se sentisse dobrar sobre os joelhos, sabiu da alcova, atirou-se como ebrio para o leito, e murmurou estas vozes:

--Meu Deus! morro por amor de minha filha, e ella... morre por outro... Bem podia consentir a desgraça que eu morresse sem este desengano... Vinte annos a adorar esta filha, um anno a agonisar ao pé da sua agonia... e a final ouço-lhe dizer que morre por um homem... que não era seu pai...

Escabujou em ancias muito afflictivas, pedindo a Deus com dilacerante esforço que lhe abreviasse o transe. Rompeu em soluços; e, suffocado pelo choro ou por um golfo de sangue, arrancou da vida n'um estremecimento instantaneo.

Deolinda ouviu o murmurio rouco d'esta convulsão da morte, e voltou a face para onde suppunha que estava o pai.

Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo esforço. Tangeu a campainha. Acudiu a criada, a quem ella pediu que lhe désse o seu vestido. Foi nos braços da criada á sala contigua, onde o pai tinha o seu leito. Dobrou-se sobre o peito d'elle, colhendo-lhe nos labios um halito ainda quente, como vestigio da alma que passára queimando as fibras por onde abrira a fuga do seu inferno.

--Morto!--bradou ella, golfando-lhe no seio o derradeiro sangue.

Transportada ao canapé fronteiro, alli se quedou empedernida. Não houve rogos que a tirassem de lá. Viu amortalhar o cadaver de seu pai, viu-o sahir no esquife para ser depositado na capella da casa, ouviu o ultimo dobre da sepultura; e então, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos, invocou a compaixão da Virgem Santissima, e expirou.

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* *

Lá está em cima aquella casa triste... O brazileiro, que a comprou, não a quiz habitar. As janellas nunca mais se abriram. O vestido, que despiram do cadaver de Deolinda, pende ainda da espalda do canapé em que ella morreu.

[1]Não se procure boloirar nos diccionarios, em quanto os diccionaristas ignorarem a linguagem popular do classico povo do Minho e Traz-os-Montes. Lá, fazer rolar uma bola, é boloirar.