O ORACULO DO MARQUEZ DE POMBAL
Costumavam os nossos avós queimar os judeus--(não assevero que os avós de quem isto escreve não fossem tambem queimados). Se os não colhiam ás mãos, confiscavam-lhes os bens. Mas, dado caso que os judeus fugitivos enviassem lá do exilio aos reis ou aos ministros bons alvitres da arte de governar, aceitavam-lhes o favor e praticavam o seu parecer; mas não lhes concediam voltarem ao reino, sem a condição de se deixarem torrar. Isto aconteceu nomeadamente com o famoso Antonio Nunes Ribeiro Sanches, medico portuguez, nascido em Penamacor em 1699, e fallecido em Paris, por 1783. Vivendo 84 annos, grande parte dos quaes curtiu nos invernos da Russia, não precisa exhibir melhores certidões de bom medico. Se se deixa ficar na patria, havia de custar-lhe a resistir á temperatura alta que os frades dominicanos faziam no campo da Lã em obsequio á hygiene da alma.
Antonio Nunes Ribeiro Sanches, conselheiro de estado da imperatriz da Russia, correspondia-se com os estadistas portuguezes, christãos velhos. O marquez de Pombal, ou não quiz, ou apesar da sua omnipotencia, não logrou assegurar repouso na patria ao seu douto oraculo, em paga dos conselhos e projectos de boa administração que o neto de hebreus lhe suggeriu de Paris, e o valido ingrato aproveitou, occultando-lhes a procedencia. A creação do collegio dos nobres, por carta de lei de 7 de março de 1761, havia sido aconselhada por carta de Ribeiro Sanches, datada em Paris, em 19 de novembro de 1759.
Possuo esta carta autographa. Contém 129 paginas em 4.o maior. Não sei se um rarissimo livro intitulado Cartas sobre a educação da mocidade, impresso em Colonia em 1760, é o traslado d'este manuscripto. Não vi ainda exemplar algum. Entre as obras ineditas do illustre medico, nomeadas na biographia que Vicq-d'Azir lhe escreveu e Francisco Manoel do Nascimento traduziu, ha uma intitulada: Plano para a educação de um fidalgo moço. O manuscripto, de qualquer modo precioso, que possuo, deve ser o original de alguma das duas obras.
Dous escriptores portuguezes de subida reputação, ambos ministros de estado honorarios, os snrs. José Silvestre Ribeiro e D. Antonio da Costa, enriqueceram recentemente a litteratura patria, com os seus livros intitulados Historia da instrucção popular em Portugal desde a fundação da monarchia até aos nossos dias, e Historia dos estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos de Portugal nos successivos reinados da monarchia. Os doutissimos authores, com certeza, aproveitariam optimos subsidios da leitura do raro livro de Ribeiro Sanches, se o manuscripto, que tenho, é o rascunho do livro impresso em Colonia, cuja raridade o snr. Innocencio F. da Silva encarece. O senhor conselheiro José Silvestre Ribeiro, quando louva o progresso das letras e artes no reinado de D. José I, recordaria com menção gloriosa o nome obscurecido do medico portuguez, e daria ao marquez de Pombal a parte mediana que lhe cabe no alvidramento da reforma da universidade, do collegio dos nobres, nas escólas militares, e no mais, respeitante aos beneficios que a historia lhe desconta na ferocissima condição.
Ribeiro Sanches, antes de indicar o methodo proficuo na educação dos fidalgos, discorre ácerca da educação antiga, e chegando ao meado do seculo XVI, escreve:
«.... Vimos acima que, desde o anno 1500 até o anno de 1570, existiu o maior luxo que jámais viu Portugal. El-rei D. Manoel introduziu-o na côrte, e foi o primeiro que se vestiu umas vezes á franceza, outras á flamenga[7]. Como não teve guerra na Europa, nem seu filho, nem seu bisneto el-rei D. Sebastião, com as riquezas do Oriente cahiu a fidalguia no maior luxo, e por consequencia n'aquelle total esquecimento da boa educação que tinha ou na paço dos reis antigos ou em casa de seus paes. No tempo d'el-rei D. Pedro, o Justiceiro, tanto que se sabia no paço que tinha nascido algum filho de fidalgo, mandava logo el-rei a sua casa a provisão da moradia ou fôro que deixava em poder da mãi ou da ama que creava o menino, e n'estes tempos se chamavam os reis paes de seus vassallos. Depois, crescendo o numero, se ordenou que sómente se usasse d'esta graça com o primogenito, e d'esta resolução veio a descahir aquelle amor da patria, porque faltou a boa educação que tinham no paço todos os filhos de fidalgos com moradia.
«No tempo d'el-rei D. João II lhe representaram em côrtes que ordenasse se creassem os fidalgos no paço como era costume antigamente: signal certo que se educava alli a primeira mocidade do reino. Já dissemos acima que a educação da nobreza toda se reduzia a fazer o corpo robusto, e fortissimo, o animo ousado, e destemido; além d'aquelle agrado que reinava no galanteio, e serviço das senhoras, não deixavam de instruir o animo com aquelles poucos conhecimentos scientificos que se conheciam: sómente na familia do infante D. Henrique foi esta educação mais consideravel, porque sahiram muitos do paço d'aquelle famoso principe excellentemente instruidos nas mathematicas e boas letras, como foi o grande Albuquerque, e D. João de Castro.»
Discorre o medico ácerca das causas que abastardaram a educação dos fidalgos:
«Mas tanto que os reis tiveram mais que dar que as terras da corôa; tanto que tiveram commendas, governos, e cargos lucrativos, tanto nas conquistas, como no reino, logo os fidalgos começaram a cercar os reis, e ficarem na côrte; porque pela adulação, pelo agrado, e pelas artes dos cortezãos sabiam ganhar as vontades dos reis, não tendo aquellas occasiões forçosas de obrarem acções illustres para serem premiados por ellas. Isto vêmos succedeu no tempo d'el-rei D. Duarte, quando ordenou que todo o fidalgo que não tivesse cargo na côrte que fosse a viver nas suas terras.
«Logo que todos os fidalgos fizeram a sua assistencia na côrte no tempo da paz, logo que seus filhos eram educados em suas casas, já ricas, e poderosas pelas dadivas dos reis em commendas, pensões, governos e cargos, necessariamente se havia de seguir uma educação estragada; a meninice entregue na mão das amas, e de mulheres communs; a puericia entre as mãos dos criados, e dos escravos; até o tempo d'el-rei D. Sebastião poucos sabiam mais que lêr e escrever; porque já a escóla do infante D. Henrique estava acabada; e toda a educação se reduzia a saber os mysterios da fé, porque os seus mestres sendo ecclesiasticos e ignorantes da obrigação de subdito, de filho, e de marido, chegavam á idade da adolescencia com o animo depravado: sem humanidade, porque não conheciam igual; sem subordinação, porque eram educados por escravas, e escravos, ficava aquelle animo possuido da soberba, e vangloria, sem conhecimento da vida civil, nem com a minima idéa do bem commum. Assim degenerou aquella educação do paço, na qual pelo menos aprendiam a obedecer, na mais insolente tyrannia de todos aquelles com quem tratavam.»
E, vindo ao ponto da reforma urgente na educação da nobreza, escreve:
«Parece-me que vistos os notaveis inconvenientes da educação domestica, e das escolas ordinarias, que não fica outro modo para educar a nobreza, e a fidalgia do que aprender em sociedade, ou em collegios: e como não é cousa nova hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo de corpo de cadetes, ou escóla militar, ou collegio dos nobres, atrevo-me a propôr á minha patria esta sorte de collegios, não sómente pela summa utilidade que tirará d'esta educação a nobreza, mas sobre tudo, o estado, e todo o povo.»
Ahi está o aviso do christão novo, seguido, e executado dous annos depois, quanto á fundação do collegio dos nobres.
Depois, indica o doutor Ribeiro Sanches as sciencias que devem ensinar-se já no collegio, já nas aulas militares. Todas entraram na organisação dos estatutos.
Em um §. intitulado: Em que idade deveriam entrar os educandos na escóla real militar, divaga o insigne medico por considerações a respeito das mães. Transcrevo o que me parece digno de ser lido por ellas:
«Tanto que as riquezas da Africa e do Oriente entraram em Portugal, logo começou a mostrar-se o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades estrangeiras; começou a esfriar-se o amor das familias, e por ultimo da patria. El-rei D. João III foi o ultimo rei que foi creado com ama nobre, e já seus filhos, nem seu neto el-rei D. Sebastião, tiveram amas, mais que da classe plebêa; indicio certo que as senhoras não creavam já seus filhos, como nos tempos anteriores: introduziu-se este destructivo costume da raça humana, do amor filial, e dos bons costumes; e apesar de tanto sermão, missões, e praticas espirituaes, nenhuma senhora quer sacrificar a sua formosura. Seria loucura persuadir o que ninguem quer abraçar.
«Tem para si estas mães, que não criam, que conservarão por mais tempo a formosura, e que dilatarão a vida com mais vigor e forças, e que perderiam a sua boa constituição creando por dezoito mezes ou dous annos. Mas é engano manifesto, e o contrario se sabe pela experiencia, e pela boa physica.
«A mulher que deu á luz um filho, e que não o cria, em pouco tempo vem a conceber de novo: a gravidez de nove mezes é uma enfermidade, que enfraquece mais o corpo, do que crear aos peitos por anno e meio: e como concebem antes que as partes da geração adquirissem pelo repouso a sua natural consistencia, succede, que estas senhoras abortam mais frequentemente: enfermidade tão consideravel, que muitas ou perdem a vida, ou ficam achacadas; perdendo em poucos annos o idolo da sua belleza, ficando frustradas do seu intento, e expostas a viverem por toda a vida com mil desgostos, e pezares.»
«Até agora os damnos que soffrem as mães. Mas os mais consideraveis e lamentaveis são aquelles que se imprimem no animo das crianças creadas por amas. Se fôramos nascidos para viver nos desertos da Africa, ou nos bosques da America, pouco importava que as amas imprimissem no nosso animo aquellas idéas de terror de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade, e de vingança; mas somos nascidos em sociedade civil, e christã; aquellas idéas que nos dão as amas são destructivas de tudo o que devemos crêr, e obrar: ficam aquellas crianças expostas ao ensino de mulheres ignorantes, supersticiosas; são os primeiros mestres da lingua, dos desejos, dos appetites, e das paixões depravadas: chegou o menino a fallar, já está cercado de duas ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas do que a ama; porque estas são mais velhas, e sabem mais para destruir aquella primeira intelligencia do menino: chega á idade de caminhar, já tem seu mocinho, ordinariamente escravo, e como foram pelas mães creados por taes amas, e velhas, são os terceiros mestres até á idade de seis ou sete annos: e se o mau exemplo do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica o menino embebido n'estes detestaveis principios, que mui difficilmente os melhores mestres podem arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade pueril.
«Será impossivel introduzir-se a boa educação na fidalguia portugueza em quanto não houver um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma escóla com clausura para se educarem alli as meninas fidalgas desde a mais tenra idade: porque por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros mestres do nosso; todas as primeiras idéas que temos provém da creação que temos das mães, amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil, e das nossas obrigações, reduzindo todo o ensino d'estas meninas fidalgas á geographia, á historia sagrada, e profana, e ao trabalho de mãos senhoril, que se emprega no risco, no bordar, pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos são sagrados, e em outros passatempos onde o animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe; mas o peor d'esta vida assim empregada é que se communica aos filhos, aos irmãos e aos maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação, da mesma familia, e da mesma casa, estão introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de fallar: a conversação que se deve ter com as senhoras, não ha de ser sobre materia grave, séria; estas conversações judiciosas ficam reservadas para algum velho, ou para algum notado de extravagante: e assim succede que ficam as senhoras por toda a vida (ordinariamente) meninas no modo de pensar, e com tão miseraveis principios vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a serem os mestres d'aquelles destinados a servir os reis.
«Não me accuse v. ill.ma que sahi fóra do intento que lhe prometti: achei que tratar da educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas merecia a maior attenção, porque por ultimo vem a ser os primeiros mestres de seus filhos, irmãos, e maridos. V. ill.ma sabe muito melhor do que eu aquelles monumentos que temos na historia romana, e tambem na nossa, de tantas mães que por crearem, e ensinarem seus filhos foram as que salvaram a patria, e a illustraram: houve em Roma muitas Cornelias, como em Portugal muitas Philippas de Vilhena. Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução não se tinha apoderado do animo portuguez, porque as riquezas não eram tão appetecidas. A connexão que tem a educação da mocidade nobre que prometti a v. ill.ma me obriga a ponderar, se não seria mais util para a conservação e augmento da religião catholica transformarem-se tantos conventos de freiras, e das ordens, principalmente militares sem exercicio algum da sua destinação, n'estes estabelecimentos que proponho, tanto para a mocidade nobre masculina, como feminina? Com o exemplo das educandas, ou Filles de St.-Cyr, fundação perto de Versailles, e com o da escóla real militar, se poderiam fundar no reino outros ainda mais vantajosos para a mesma nobreza, e para a conservação e augmento da religião e do reino. Mas espero ainda vêr nos meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo, ou em parte que satisfaçam todo o meu desejo.»
Eu tinha vontade de prolongar o traslado; mas a leitora que é mãi, joven e formosa, desdenha os conselhos do medico; a que não é mãi, de certo não percebeu as theorias physiologicas em que se fundamentam as censuras; e o leitor que de certo leu á esposa as paginas impregnadas de maternidade, n'aquelle tom circumspecto de nossos avós patriarchaes, dorme... patriarchalmente.
Boa noite.
[7] Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas soas Memorias ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota: «Duarte Galvão, um dos benemeritos varões do seu tempo, foi secretario d'el-rei D. João II, e por elle e seu successor el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por embaixador a differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino, escreveu nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando, servindo em toda a sua vida com muita aceitação dos seus principes os empregos que lhe confiaram.
«Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia mandou a Lisboa um embaixador com grandes presentes para el-rei D. Manoel procurando sua amizade e propondo reciprocos interesses; e, querendo el-rei corresponder-lhe, entrou na consideração de quem seria a pessoa que lá mandasse por embaixador. Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India; e, no dia em que o vestiu, sahiu a uma sala em que estavam varios fidalgos, a cada um foi mostrando o gibão, que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como fosse um d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe que os reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em atavios do que em cumprirem com os encargos que Deus impunha aos reis. Seria melhor que não fallasse assim para seu descanço, porque isto decidiu a eleição do embaixador que havia de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos de honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que morreria no caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão em 9 de junho de 1517.»