BEM VINDO!

Brindo o leitor com o capitulo primeiro d'um livro que ha de chamar-se os salões.

Firma-o--escuso apresental-o--um nome que, ha vinte annos, alvoreceu por entre duas formosissimas auroras: a das letras amenas, e a dos triumphos forenses.

O visconde de Ouguella esteve já a meio caminho da montanha fragosa por onde se trepa a outra ordem de mais estrondosa celebridade. Por um triz que o não enxertam na estirpe tyrannicida dos Harmodios e Catões.

O governo, o delegado, a côrte e o Moraes do Mosquito principiavam a desbastar-lhe o marmore para o nicho no templo da Memoria, quando vem o jury, e nos diz que o visconde de Ouguella nem queria matar el-rei nosso senhor, nem vender-nos a Castella, nem frigir em petroleo as nossas carnes, mais ou menos pingues.

Esta decisão abriu um sorriso de socegado contentamento desde o poço do Borratem até á rua da Betêsga, não ha duvida; mas o visconde achou-se de repente reduzido sómente á celebridade que tinha: a do talento.

Um d'estes dias fui vêl-o a Lisboa. Achei-o na sua livraria, entre dous bustos de bronze que projectavam sobre elle umas sombras verde-negras, que lhe davam toques de luz sinistra. Os bustos figuraram-se-me de Ravaillac e Fieschi--os regicidas.

Passados alguns minutos, afiz-me áquella meia luz crepuscular descórada pelos bronzes, e o meu coração e o meu figado aquietaram-se. Os bustos representavam a primor os dous estadistas mais philodynastas que deu Portugal: o duque de Palmella e Rodrigo da Fonseca Magalhães. O visconde, que, ao principio, me pareceu, nos tufos hirtos e espessos do seu cabello, o que quer que fosse de Mirabeau, já me transluzia no semblante o sorriso amoravel com que alumia o caminho de sua alma aos que lá sabem ir pela lealdade do coração.

Relancei os olhos, ainda suspeitosos, á sua banca, e vi papeis escriptos recentemente. Com a liberdade de condiscipulo desde a escóla, inclinei-me sobre o manuscripto, e li no alto de uma folha de almasso: os salões. Depois li o capitulo, que era o primeiro; dobrei-o, metti-o na algibeira, resolvido a estampal-o entre as minhas insomnias, como um despertar alegre, lucido e côr de rosa, entre dous pesadelos.