VOLTAS DO MUNDO

Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazão e Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. João III.

Teve quatro filhos e duas filhas.

Os rapazes, á excepção de um que morreu na infancia, foram todos servir na India: eram Ruy, Alvaro e Gonçalo.

As meninas professaram, e foram abbadessas perpetuas no mosteiro de Cós.

Os tres soldados grangearam fama no Oriente; e Ruy Ferreira de Mendonça, o mais velho, avantajou-se nas proezas--nas crueis façanhas que os Coutos e Barros chamaram proezas.

Não lhes desluzam, por isso, a memoria. Era seculo de trevas e de missionarios. Reinava D. João III, o inquisidor. Cada qual é do seu tempo. Se algum contemporaneo, como o bispo de Silves, protestou contra o fanatismo sanguinario, deve-se o protesto honroso a não ter ido lá o insigne escriptor. Se fosse, pegaria d'elle a contagião da carnagem, a peste d'aquelle ar infecto da sangueira, o colera que accendia sêdes de cubiça insaciavel.

No seu solar de Barcellos ficára Ayres Ferreira, sósinho e triste. Doia-lhe mais que tudo a saudade de Ruy, o seu primogenito, que lhe fugira, ancioso de batalhas, e invejoso dos irmãos, cujos nomes começaram a ser laureados na Asia em 1543. N'aquelle tempo, um mancebo de appellido Goes, renunciava esse appellido, que era o de seu progenitor, em affronta ao pai que lhe impedira servir as armas na India!

Um dia, Ruy Ferreira de Mendonça recebeu em Goa carta de seu pai, queixando-se dos filhos que o deixaram velho, desamparado, e exposto aos affrontamentos de quem já lhe não temia o braço alquebrado por annos e desgostos.

E contava que o abbade de Creixomil, clerigo fidalgo e possante, ousára pôr-lhe as mãos nas barbas.

Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe licença para vir ao reino. O vice-rei negou-lh'a, com o intento de evitar um crime, privando-se de um dos seus mais valentes capitães. E, sabendo que o fidalgo lhe não obedeceria e se andava negociando clandestinamente passagem nas náos, deu-lhe ordem de prisão até que os navios levassem ancora.

As náos abalaram, e Ruy foi posto em liberdade.

Apenas livre, correu á barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se ás ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao sossobro, que já o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as náos balouçavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capitão, que lhe quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em tamanho quebranto de forças que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado duas leguas de mar!

Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho.

S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso, demorava no termo de Barcellos.

Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira.

Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e enviou-lhe o seu nome.

O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes, o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo estas vozes frementes de odio:

--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho!

E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas, e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a India.

E lá foi ceifar novos louros.

Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na capella do Santissimo Sacramento da igreja matriz de Barcellos, onde estavam os ossos de seus paes e avós.

Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai.

Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que naturalmente os tinha, de collaboração com as mais nitidas ovelhas do seu rebanho.

Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da Maya, a sua prima D. Joanna de Eça, da casa de Cavalleiros. Ganhou a demanda.

Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de Souto.

Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India.

A representação d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraçado que teve aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendonça, casou com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira.

Eu não sei se algum dos trinta e quatro barões que conheço, estando no Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que não; e faria muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno eterno, cavalgou na sua mula, e lá foi socegadamente para Lisboa, e de Lisboa para a India. Hoje em dia, se o barão de Ranhados matar o Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita á d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o barão, quando chegar, mais aqui ou mais além, dá de cara com dous policias, e depois bem sabemos o resto.

Mudaram os tempos pela mesma razão que mudaram os fidalgos. Não ha pai por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro.

Entre heroismo antigo e dinheiro moderno está um fosso. Quem quizer palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no ridiculo ou... nas mãos da policia.