FORMOSA E INFELIZ

A dita e a formosura,
Dizem patranhas antigas,
Que pelejaram um dia,
Sendo d'antes muito amigas.
Muitos hão que é phantasia;
Eu que vi tempos e annos,
Nenhuma cousa duvido
Como ella é azo de damnos.

BERNARDIM RIBEIRO.

São verdadeiras as trovas do poeta das Saudades.

Aquella Maria da Penha que o leitor viu, ainda agora, carpida n'um soneto, foi muito incensada por formosa antes da sua queda. Uns poetas a embriagaram com o perfume da lisonja, em quanto ella se manteve honesta; outros lhe depozeram alguns bagos de assafetida na ambula funeraria, quando os seus creditos eram mortos e responsados no catafalco que a sociedade levanta ás suas mesmas victimas.

E já que eu trasladei o soneto, como epitaphio do seu tumulo no convento onde se finou, trasladarei tambem uns versos que lhe deram alor e azas á vaidade que a perdeu.

Suspeito que o poeta d'estes cantares não fosse o fidalgo que a levou arrebatada de entre um thalamo e um berço. Os poetas, por via de regra, costumam enflorar os holocaustos sacrificados nas aras da prosa. Assim o requer o equilibrio do cosmos. Á poesia--a lyra que insinua no coração da mulher as phantasias com que mais se alinda e encarece; á prosa--as delicias d'essas bellas cousas, o dominio das aves do paraiso, que os poetas farejam, á laia de nebris que pairam a denuncial-as ao caçador sagaz.

A meu vêr, em quanto o marquez de Gouvêa mandava ajaezar os cavallos para a funesta fuga, um dos muitos idolatras da formosissima Maria motejava uma quadra e derivava d'ella a glosa tão presada n'aquelles tempos:

A D. MARIA DA PENHA DE FRANÇA

MOTE

Abre-te, penha constante,
serás minha sepultura;
e, se os meus ais te não movem,
digo-te, penha, que és dura,

GLOSA

Penha, já sei que és tão dura,
porque dous soes te geraram;
seus raios te despojaram
das reliquias da ternura:
Porém, se a corrente pura
de meus olhos incessante
abrandar um diamante;
a meu pranto sucessivo,
quebra-te, marmore vivo,
abre-te, penha constante.
Até nas mais duras penhas,
lavrador o tempo sendo,
as aguas, que vão correndo,
fazem regos, abrem brenhas.
Não receies tu que venhas
a perder por menos dura;
pois meu pranto o que procura
é desfazer-te em piedade;
e, se abrir concavidade,
serás minha sepultura.
Lagrimas não te enternecem
antes te tornam mais dura;
roubou-lhe o preço a ventura
ou por minhas desmerecem.
Meus ais sentidos parecem
golpes, que pedras commovem;
mas como faiscas chovem
de ti, que farei, oh penha,
se o teu rigor mais se empenha
e se os meus ais te não movem?
Teu nome a dizer se empenha
quem tu és por semelhança;
pois no garbo és toda frança,
na dureza és toda penha:
Penha em que pienha tenha
essa rara formosura;
mas, se estatua ser procura
a meu suspiro incessante,
mais que o mais duro diamante,
digo-te, penha, que és dura.