ENTRADA PARA OS SALÕES
Eu não contava com a gloria e o contentamento de estampar nas Noites de insomnia o livro completo de physiologia social, intitulado—os salões.
Cuidei que o pensador severo e estylista primoroso me daria como brinde tão sómente alguns fragmentos, radiados da idéa geral da obra.
Agora sei que todo o livro será meu, será d'estes opusculos que tão benigna e agraciadamente são recebidos e indulgenciados pela bemquerença de 1:000 subscriptores.
E, pois que a publicação dos salões principiou aqui desacompanhada da introducção indispensavel ao complexo dos capitulos, forçoso é que se interponha o soberbo peristylo por onde o leitor mais de grado irá ao entendimento dos trechos que já leu e dos outros que advierem.
Este livro dos salões será a porção mais para durar e sobreviver ás futilidades das Noites de insomnia. O visconde de Ouguella, ainda em annos florentes e vigorosos, póde dizer com o velho e experimentado Rousseau: Je sens mon coeur et je connais les hommes. O seu livro esplende os lampejos sinistros do espirito por onde passaram as duvidas e pungentes ironias de Proudhon—aquelle vidente que Deus mandou apregoar a prophecia da destruição debaixo dos muros da segunda Jerusalem derruida.
A Justiça, a inspiradora do livro que se intitulou graciosamente os salões, apparece-nos ahi sem a venda gentilica, vê pelos olhos da historia—a Fatalidade inflexa—; e emerge á flôr d'estes parceis, que nos atormentam, as evoluções da Providencia.
Não estamos afeitos a taes livros com assignalado sinete portuguez. O melhor romance entre nós é um espairecimento, e o melhor poema uma balbuciação em linguagem nova.
A Poesia ha de vir a ser apostolo, e a trajar insignias circumspectas de Justiça, quando os bons espiritos como Guerra Junqueiro e Guilherme de Azevedo a não descompozerem com a nudeza das tragedias, e as diatribes em que o sarcasmo não suppre o ensinamento affectivo. A «alma nova» não se compadece com uns corações que nasceram velhos.
Livros para este tempo faz-se mister que venham saturados das lições do passado, e se ajustem a entendimentos rudimentares. Aos espiritos cultos pouco ha que ensinar, logo que esses nos admoestam superciliosamente que moralisemos as massas. Mas sejamos todos massas em quanto o povo—a arraia das hortas e das galerias parlamentares—desconfiar que lhe desce do alto o exemplo que a dissolve e acanalha.
O livro do snr. visconde de Ouguella será a historia ideada um pouco á feição do estylo e maneira de Lamennais quando a referia em palavras de crente, e quando as turbas criam e estremeciam ao relampejar do Sinay. Isso passou lá fóra, e estou em crêr que nunca se acclimou aqui. Se alguma hora o fervor politico levantou cachão na consciencia publica, a infamia assignalava as esplosões de civismo com o sangue de Agostinho José Freire. Relampagos de Sinay entre nós são os que flammejam das casernas e reverberam nos gladios dos Quichotes que constituem os reis seus Pansas.
E, como eu me sinta impellido a grandes forragens historicas em terras da Mancha e Barataria, recolho-me ao vestibulo dos salões, e peço ao visconde de Ouguella que nos relate como foi que um providencial acerto lhe deparou o manuscripto do desembargador.