INTRODUCÇÃO

... Elle eut pour lui cette reconnaissance que la perle doit avoir pour le plongeur, qui l'a decouverte dans son écaille grossière sous le ténébreux manteau de l'océan.

THEOPHILE GAUTIER.

Era um dia esplendido de inverno n'este ignoto canto do occidente. Abri o Almanach da agencia primitiva de annuncios, e a paginas dez encontrei o seguinte:

«20 Terça. S. Sebastião, martyr. Festa na sua freguezia, e na igreja do hospital de S. José.»

Perdoem-me os devotos. Nenhuma d'estas festividades me impressionou o espirito.

Resolvi ir á feira da Ladra.

Ás terças feiras, assemelha-se o campo de Sant'Anna a um bazar africano, na selvagem e cynica disposição dos objectos que constituem o mercado.

Estas tristes e lugubres origens berberes demonstram-se sempre, e a cada passo. As magnificencias orientaes, em todo o esplendor e opulencia das inacreditaveis e sublimes raridades da Asia, nos seus soberbos e sumptuosos caravanseraes, não existem aqui. Lêem-se nos livros, aprendem-se nas Mil e uma noites, adivinham-se nas chronicas dos nossos navegadores, estudam-se nos espolios atrozmente mutilados das casas antiquissimas e esplendorosas dos vice-reis da India. Hoje são um mytho. Para nós—pobre povo—empurrado para as vagas espumosas do oceano, pelas civilisações que se apossaram da Europa, e que nos varrem sem piedade nem dôr para a Africa carthagineza, como se nós foramos os numidas das lendas romanas ou os ferozes kabylas das raizes do Atlas.

E o que somos nós? Deus o sabe.

Somos um povo essencialmente temente a Deus, essencialmente catholico, devotado á virgem de Lourdes e á Senhora de la Salette, essencialmente constitucional, e essencialmente ignorante n'estas lutas, que despedaçam thronos e proclamam republicas.

«Tudo quanto Deus faz é por melhor», assevera esta familia lusitana, n'um proloquio de origem celtica, que tem todo o fatalismo e sabor das raças e linguas orientaes.

As lutas do catholicismo e do crescente mourisco crearam uma epopéa grandiosa, que se traduz n'este eclectismo philosophico e religioso, que afoga, em vastas dissertações aristotélicas, e em tristissimas lutas das escólas de Alexandria, estas simples e ingenuas verdades christãs. A graça, evangelisada pelos doutores da igreja, é, talvez, efficaz para apagar estes torneios nas consciencias, e remir peccados de reminiscencias tão pagãs.

E assim vamos vivendo. A phrase é chata e villã. Mas está officialmente reconhecida e estampada nos muito veridicos e piedosos discursos da corôa, tal qual resa e commemora o agiologio parlamentar.

Houve um dia, antes das ordenanças de Carlos X, em que um jornal francez, tão lido que aterrava o throno, terminava o seu principal artigo—esculpido hoje nos bronzes da historia—com esta phrase singela e prophetica: Pobre França, pobre rei!...

Se eu dissera aqui: pobre Portugal!—Não digo.

Entrei na feira da Ladra.

Na entrada do campo, a um dos angulos, em face do convento de Sant'Anna, levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.

Ao fundo está gizado um microscopico jardim que, na louca ambição da sua tristissima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradissimo buxo, caberia á vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das possessões indo-britannicas.

Pelo meio do campo, em deploravel estendal, havia pannos, pranchas de pinho e taboleiros ignobeis, onde jaziam, na mais intima convivencia, os residuos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.

Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:

«Lasciate ogni speranza, voi che entrate.»

Achava-me em presença do inventario de uma capital.

Examinei:

Um pires secular de Sèvres, voluptuosamente contornado nas fórmas elegantes do reinado de Luiz XV, escondia-se na penumbra d'uma terrina de faiança, que fôra a ultima aspiração da fabrica de Sacavem. Havia um sacrificio a Diana, em biscuit de Saxe, tombado sobre a espora de prateleira, que fôra triste legado do ultimo marquez de Marialva. Mais longe, espreguiçava-se com a boçal ironia de parvenu, um saleiro da modesta porcelana da Vista-Alegre, sobre os fragmentos de um vaso etrusco, humilhado e melancolico nas mutilações e concertos com que o expunham á irrisão publica. Um espelho de crystal de Veneza, onde os amores brincavam com frechas e carcazes, coloridos sobre o vidro, por mãos de fadas, entre um rosal de perfeito esmalte, n'um berço de verdura e de papoulas, encaixilhado em ebano, aberto a buril, nos cantos, em prata dourada, repousava sobre uma farda de archeiro, coeva dos devaneios da côrte de D. João V, e reliquia marcial, talvez, dos delirios asceticos do mosteiro de Odivellas. A tampa de um assucareiro do mais antigo Saxe, levantando, em relevo, uma deliciosa grinalda de boninas e amores perfeitos, recordava, na suavidade das fórmas e no primor das folhagens, as creações elegantissimas de Vanloo e Bucher. Um prato esmaltado da mais diaphana e transparente porcelana do Japão equilibrava-se sobre um fructeiro de louça das Caldas, onde se traduzia a ridicula vaidade do oleiro, que quizera rastejar no colorido e nos embautidos cambiantes das côres, e pela opulencia dos debuxos e ornatos, com os preciosos trabalhos ceramicos de Bernardo de Palissy.

Mais adiante, por entre uma selva de martellos partidos, fechaduras quebradas, correntes de ferro em completa oxydação, e chaves e cadeados de varias dimensões, dei com o retrato de el-rei D. José, pintado a óleo, em vestuario de côrte, com o globo de ouro e sceptro cinzelados, no estylo classico das monarchias absolutas. Pendia o quadro sobre um candieiro de latão, pharol de tres lumes, contemporaneo, talvez, da lampada a cuja luz Paschoal José de Mello escrevera o seu livro de direito criminal. Após estes primores archeologicos desenrolava-se uma fileira incommensuravel de botinas, sapatos, babuches, chinelas, tamancos, galochas e alpercatas, que se perdiam n'uma extensa linha, talvez a ultima illusão dos seus possuidores. Sic transit gloria mundi, clamavam os escravos, queimando estopa, detraz dos carros dourados dos triumphadores romanos.

Desde o vestuario tragico, que acompanhava em scena os heroes do atheniense Sophocles até ao sóco plebeu da comedia vulgar, onde se expandia o riso de Aristophanes, havia tudo n'este bazar immenso das gerações extinctas. Gigantes e lilliputianos, heroes, semi-deuses e proletarios poderiam calçar-se, afoutos, n'aquelle cháos de todas as civilisações.

Havia a bota de canhão, séria, grave e irreprehensivelmente lustrosa—despojo venerando de algum desembargador da casa da supplicação, de par com a chinela phantastica e imaginosa da cortezã mais desenvolta e elegante. Por entre colchas da India, recamadas de lentejoulas, esmaltadas em mosaicos de fios de ouro, entretecidos em variados matizes, lençoes de Bretanha, finissimos, arrendados em arabescos nas orlas das cabeceiras, columnas de carvalho do norte, abertas a buril, em que pousavam passaros esculpidos sobre pampanos e hastes de videira, no meio de fragmentos de apparatosos biombos de charão escarlate da phantastica China, onde aves e dragões dourados surgiam de vasos idealisados pela imaginosa creação do artista, através de crystaes de Bohemia, partidos e mutilados, enunciando todas as côres do prisma, e de envolta com vassouras de piassaba, modestas e envergonhadas em toda a humildade da sua burguezia, avistei um contador de Boule, moldado em tartaruga, envolto em festões de grinaldas de cobre dourado, no mais correcto estylo Pompadour, e arremedando, na ousadia do desenho e na elegancia e recortes das folhas de metal, as sublimes inspirações de Benvenuto Cellini.

Por detraz d'este contador, que era a joia, o talisman, a maravilha, no seio d'aquelle crapuloso e hediondo bazar, equilibrava-se de cocoras, formando como novello, uma velha octogenaria, que se poderia descrever por uma ruga inteira, que em zig-zag ou em grega lhe cortava as faces, e ia perder-se, em espiral, n'uma garganta, que parecia a pelle abandonada por uma serpente do deserto. Encarei-a a medo, e com um pavor inexcedivel. Pareceu-me dar de rosto com uma das feiticeiras de Macbeth. Envolvia-se n'um cafran ou burnus—uma especie de farrapo de panno, que lhe cingia o tronco, deixando solta a cabeça, que apparecia envolta n'um lenço asqueroso, injuriado pelo tempo, e que emmoldurava dous olhos negros scintillantes e vivos, n'uma physionomia baça e livida, como um pedaço de cera amollecido entre os dedos.

Dirigi-lhe a palavra em phrases breves. Cheguei a ter receio do despertar d'aquella sphinge. Ouvi, depois, um ruido surdo, como de um movel, que se arrasta, uns sons roucos e gutturaes, na melopéa arabe, uma voz cavernosa, e sahida dos abysmos, como se fôra uma das pythonissas da velha Escocia. Afigurou-se-me que lhe ouvira a saudação feita ao heroe de Shakspeare: Salvè thane de Glamis, e de Candor!

A fascinação, que me produzira o cofre, explica, de certo, estas allucinações e devaneios acusticos.

Enchi-me de animo, e perguntei-lhe de novo: quanto custa este contador?

A velha, a sibylla, a bruxa, o que quer que era, remexeu-se, por entre os farrapos que a cobriam, rumorejou por duas ou tres vezes algumas phrases, que não chegaram aos meus ouvidos. Alguma invocação infernal, algum preito a Satanaz,—e depois accentuou em voz clara e cadenciada as seguintes palavras:

—Dê-me dez libras, e leva-o de graça.

—E a chave?

—A chave não a tenho. Perdeu-se. Ha papeis dentro. Bem sei que os ha. São comedias, entremezes ou seja lá o que fôr. Doudices do dono. O desembargador João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo escrevia muito nos ultimos annos da sua vida.

—Conheceu-o?

A velha sorriu-se.

A ironia d'este sorriso tinha não sei que reflexo dos lampejos do fogo infernal.

—Se o conheci! Fui sua criada. Tinha sido sua escrava. Comprou-me em Tetuão. Morreu-me nos braços, no ultimo de dezembro á meia noite. Eu vendo os moveis para comer.

Entreguei-lhe as dez libras sem regatear cinco reis. Esperava com esta amabilidade que a antiga escrava do desembargador continuasse a sua curta narração.

Mas a velha guardou o dinheiro n'um sacco que lhe pendia do cinto, velou as faces com o farrapo ou capote que a cobria, e ficou muda e silenciosa como um mysterio.

Não me dei ao trabalho de procurar uma chave. Quebrei a fechadura, achei nas gavetas um manuscripto, e encontrei na primeira pagina o seguinte:

AO LEITOR

Vivi bastante para alcançar mais de metade do seculo dezenove. Considerei, examinei, e estudei os acontecimentos, e os homens do meu tempo. Vou debuxal-os e desenhal-os taes quaes os concebi, e taes quaes elles se teem mostrado n'estas rotações constitucionaes de uma época, que não é a minha. Onde bastar o esboço abandonarei a palheta, e usarei do lapis de carvão. Onde o vulto carecer de mais luz, e de mais vasto horisonte deixarei o pincel, e pegarei do cinzel e do escopro. Não tenho pretenções a Phidias, nem a Miguel Angelo, nem a Rubens, nem a Hogarth, nem a Van-Dick, nem a Aretino, nem a Delacroix. Faltam-me os traços de Zubarran, as linhas de Corregio, as tintas de Ticiano, os perfis de Murillo e o riso sardonico de Gavarni. Com tudo, as sombras d'estes nossos Mirabeaus, Talleyrands, Barnaves, Berriers, Collards, Cavaignacs, Favres e Marats hei de pôl-as de pé, hei de vestil-as, hei de enroupal-as, nas vestiduras do nosso seculo, e hei de com ellas e só com ellas povoar

OS SALÕES

Segue-se o livro.

Vou publical-o.

VISCONDE DE OUGUELLA.