SANTOS-SILVA

Bravo! almas generosas do meu brioso Portugal que amparastes a viuva e os sete orphãos do egregio orador!

Bravo! corações que avaliastes o talento do pai e o infortunio dos filhos!

Formoso rastilho de luz foi esse que vos guiou desde a sepultura de Santos-Silva até ao recinto em que uma viuva, entre a saudade e a pobreza, ampliava o regaço para aconchegar do seio aquelles sete rostos banhados das ultimas lagrimas de seu pai.

Entrou, a um tempo, n'aquelle lugar de angustias, a mortalha e o manto da misericordia. Sahia um cadaver, e entrava o anjo da caridade.

João Antonio de Santos-Silva levava espelhadas na retina morta as oito imagens queridas; e a Providencia rodeava de amigos aquelle sagrado grupo de crianças que punham as mãos—expressão unica das agonias inexprimiveis.

A fatalidade da morte justificava, não menoscabava os designios do Altissimo.

*
* *

Eu conheci-o pouco: fallei com elle duas vezes; lia-lhe os seus discursos como quem estudava a grande phrase lusitana no mais correcto e energico orador parlamentar.

Tem lanços admiraveis de força e de atticismo as suas orações. Não sei nem entendo o quilate politico dos seus discursos. Estudava-o meditativamente, sem lhe graduar a justiça da aggressão ou da defeza. Os seus adversarios, a julgal-os pelo tamanho do gladio que os feria, pareciam-me grandes, como os de Isocrates e Demosthenes. Se o não eram, o orador magnanimo deu-lhes a honra de o inspirarem.

Tambem eu lhe mereci a consideração de algumas cartas em que me vejo honorificado com o titulo de amigo. Mal pensava eu, quando ha dous annos lhe fallava da irreparavel perda da minha saude, que tão cedo o seu nome iria ajuntar-se aos de tantos amigos mortos, a quem eu dissera o ultimo adeus.

E, quando eu lhe fallava de meus filhos com o coração cheio das presentidas lagrimas de dous orphãos, dizia-me elle que lhes seria protector n'esta vida, se Deus lh'a não tirasse ás suas seis criancinhas.

Como esta carta está revendo as lagrimas e a santidade de pai!...

Porque não hei de eu dar um quinhão d'esta melancolia aos que tem filhos? E uns assomos de jubilo aos que abriram mão redemptora á familia de Santos-Silva?

Esta carta foi datada em 24 de outubro de 1871.

«.....: Vou dar-lhe um conselho. Estudei e exerci a medicina por uma boa duzia de annos. Estudei-a nos outros, com os escrupulos de uma sã consciencia, e como quem tinha a sua missão por um sacerdocio. Tenho-a tambem estudado em mim, porque a isso me obrigam os meus padecimentos. Dos desenganos que colhi na sciencia e na pratica, resulta para mim uma regra que, se não é uma verdade infallivel, é com certeza muito geral. Nada ha mais falso ou pelo menos incerto do que o juizo que o paciente faz do seu estado, pelo que diz respeito ao diagnostico e prognostico da sua molestia. Os proprios medicos são os que, n'este ponto, mais se enganam, por que são os que mais exageram.

«Não creia, pois, nas suas anemias, nem nas suas ethicas; mas não descure restaurar as suas forças, e seguir tenazmente um tratamento hygienico, analeptico e moral, que lhe reconstrua o sangue, lhe regularise qualquer desarranjo de funcção, lhe tranquillise o espirito, ou o levante de qualquer ligeira prostração. Creia tambem na sua idade, e na força medicatriz da natureza, que, quando é bem dirigida e auxiliada por um medico prudente e habil, faz milagres.

«Falla-me o meu amigo de dous filhos seus, e appellou para o coração de um pai que tem seis. Feriu a minha corda sensivel; estremeceu-a com as mais vivas vibrações. Não sei se todos os paes são como eu sou: devem sel-o. De todas as desgraças humanas a que mais confrange a minha alma, e mais me angustia o coração, é a que se desata em lagrimas e em infortunios sobre a orphandade desprotegida e desamparada, a quem Deus esqueceu na hora em que encerrou o livro da vida ao pai que só vivia do santo amor de seus filhos.

«Se Deus me alongar a vida, e seus filhos precisarem de mão valedora que os guie e ajude n'esta escabrosa peregrinação, irmanal-os-hei aos meus. Repartirei com elles o meu prestimo, se então o tiver. Estas palavras não são só de consolação: são compromissos solemnes, que espero não desmentir.


«A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus antecessores.


«Meu caro amigo, não pense em morrer. Pense no que necessita, e de que Deus, que é justo, o não póde por ora privar. Pense na sua vida, que é a vida de seus filhos.»

Elle morreu; e, na hora derradeira, reconhecia ainda a justiça divina, posto que estivesse lendo nas lagrimas de sua familia e nas agonias proprias que era chegada a morte. Abençoou-a como enviada de Deus, quando sentiu na garganta a constricção da asphyxia.

O halito consolador da Providencia passára, como vaticinio, por aquella alma, quando me escrevia as esperanças realisadas em seus filhos: A posteridade nem sempre se esquece de pagar as dividas sagradas de seus antecessores.

Pagou. O monumento do grande orador é o pão da sua viuva e dos seus sete filhos.