I
—Fui hoje vêr á casa da saude o Duarte Valdez.
—O nosso companheiro de casa em Coimbra?
—Justamente.
—Que tem elle?
—Os dias contados.
—Tisico?
—Perguntei ao doutor Arantes que doença era a do Valdez. Fez com os hombros um tregeito significativo de que a medicina nem sempre tem alçada para devassar das doenças que matam, e denominal-as com terminações inflammatoriamente gregas. Quando, porém, é a alma que mata o corpo, os medicos lavam d'ahi as mãos como o governador da Judêa.
Tive este dialogo, em Lisboa, ha hoje doze annos, e, seguidamente, fui á casa da saude no largo do Monteiro.
Quando, na ida, atravessava o jardim da Estrella, sentei-me a encadear as lembranças vagas e desatadas que eu tinha de Duarte Valdez.
Tres épocas me occorreram.
Primeira, a da nossa jovial convivencia em um casebre da Couraça dos Apostolos, em Coimbra, no anno 1845. Segunda, outra menos modesta e menos alegre camaradagem de quarto, no hotel Francez, do Porto, em 1851.
Antes de mencionar a terceira época, urge saber-se que nenhum de nós se formára. Elle contentára-se com um diploma de insufficiencia em rhetorica, e eu com a prenda não commum de arpejar tres varios fados na viola. Não rivalisavamos em sciencia. Formavamos da nossa reciproca ignorancia um conceito honesto. Não queriamos implicar com sabios, nem para os invejar nem para os detrahir.
A terceira época ou terceiro encontro foi em 1856. Vi-o em S. João da Foz, e ouvi-lhe revelar mysteriosamente que estava emboscado em uns arvoredos, entre Lordello e Pastelleiro, com uma extremosa e estremecida menina, fugida aos paes. Não me recordo os pormenores d'estes amores que elle me disse serem os primeiros e ultimos. Tenho, porém, a certeza de que me ri d'uns amores ultimos, aos vinte e cinco annos de idade.
N'aquelle tempo a fuga de uma menina qualquer não era successo por tanta maneira horrido, que eu devesse desmaiar na presença do meu acelerado amigo. Eu já contava então uns decrepitos vinte e nove annos, e conhecia varios acontecimentos impudicos, por exemplo, aquelle da D. Hermenigilda d'Amarante, que eu exhibi ás lagrimas do publico sensivel nas Scenas da Foz. Aquella especie de pellicula carmezim que assetina a epiderme do rosto, e se chama pudicicia nos droguistas da moral, tinham-m'a delido as aguas lustraes da nossa civilisação pagã, para o que tambem muito contribuiram as reuniões semanaes da Philarmonica, na rua das Hortas, onde os rabecões entravam cheios de cupidos e sahiam cheios de suspiros. Muitas senhoras portuenses, que hoje cedem a primazia da ternura ás filhas, viram n'aquellas salas da Philarmonica os anjos com quem se maridaram. Os annuncios das festas lyricas, enviados dos corações aos corações, rezavam assim: Sabbado, ás 7 da noite, musica de Mozart, e Laços de Hymemeu. Tudo antigo e bom.
Isto veio a proposito de eu não ter uma congestão de pudor, quando Duarte Valdez me segredou que se embrenhára nas selvas rumorosas do Pastelleiro com uma menina perdida de amor, e tão cega de alma que já não via na imaginação, sequer, as lagrimas da mãi, e o mortal abatimento do pai que a amaldiçoava.