BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NÃO PÓDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco


PUBLICAÇÃO MENSAL


N.º 12—DEZEMBRO


LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
96, Largo dos Clerigos, 98
PORTO
EUGENIO CHARDRON
4, Largo de S. Francisco, 4
BRAGA

1874


PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA

68—Rua da Cancella Velha—62


1874

BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA


NOITES DE INSOMNIA


SUMMARIO

[O que eram frades][Quem desterrou José de Seabra da Silva?][D. João 4.º e as regateiras][Fielding][Mania e hypocondria][Aos diplomatas descontentes][Bibliographia][O ultimo carrasco, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella][O horror da demencia][Restauração de um documento historico valioso][A dança][Fim]


[O QUE ERAM FRADES]

Houve-os de santa vida, que prégaram o evangelho dos bons exemplos, e deixaram na terra vestigios do martyrio—o grande martyrio do coração abafado e morto na estamenha do habito; e d'esses alguns deixaram livros divinos, desde o pensamento até á linguagem. Ganharam assim duas eternidades luzentissimas: a do seio de Deus, e a benção dos que, n'este mundo tão outro e tão estrondeado do caboucar do progresso, alta noite, os estudam á lampada solitaria do seu ermosinho, onde sorri a paz, porque a inveja lá não entra.

Houve-os, tambem, frades funestos que escavaram com pulso sacrilego a sepultura dos bons no atascadeiro da politica; e a politica, na hora em que póde arpoal-os, na torrente dos seus enxurros, atirou-os, bons e maus, ao monturo das instituições podres e pestilenciosas.

O descredito das ordens monasticas é quasi coevo da sua instituição. Os santos padres, os concilios, as communas, os poderes civis lavraram desde os primeiros seculos protestos formidaveis contra as religiões alheias do primitivo espirito do seu instituto. A volta do seculo XVII, os mosteiros em Portugal, desatados do vinculo da humildade, e cegos da sua opulencia e authoridade no animo dos principes, haviam tocado o cairel da voragem. E logo que, depois da perda de D. Sebastião, a guerra civil fermentou nos bandos faccionarios dos pretensores ao throno, e a corôa resvalou da fronte do cardeal-rei, a fradaria sahiu dos seus cenobios, e saltou para as praças e arraiaes arrancando a espada do talabarte que cingia o habito.

Reportando-se aos indisciplinados frades d'esse tempo, referem as historias que, no anno 1580, se passou um escandaloso motim no mosteiro dos Jeronymos de Belem. Rebello da Silva repete assim o caso com as particularidades noticiadas por Conestagio:

«Os monges do mosteiro de Belem, da ordem de S. Jeronymo, vendo o reino sem monarcha, as justiças sem respeito, e os abusos sem castigo, intentaram tambem prevalecer-se da desgraça do tempo para vingarem antigas queixas.

«Usando dos poderes de principe e da authoridade ecclesiastica de legado pontificio, e violando a regra e observancia monastica, o cardeal D. Henrique tinha arrogado a si a nomeação dos prelados da casa. Pareceu apropriada aos padres a conjunctura para sacudirem o jugo; e juntos em communidade foram bater á porta da cella de fr. Manoel de Evora, que exercia as funcções de provincial. Abriu-lhes, sobresaltou-se, e acabou de cahir das nuvens, quando lhe disseram que se demittisse logo, porque não tendo sido eleito em capitulo, era nulla a sua jurisdicção, competindo-lhes a elles prover, e designarem por suffragio quem os havia de governar.

«Resistiu; altercaram; lançou-lhes em rosto a demasia e a desobediencia, clamaram; negou-se positivamente a consentir, e viu-se de repente maltratado das mãos dos subditos, preso e encarcerado em um celleiro.

«Achou modo de avisar os parentes, uniram-se e supplicaram ao nuncio, Alexandre Frumento, que se interpozesse, obrigando os frades a soltarem e reconhecerem o seu prelado.

«Responderam com soberba, que o nuncio não era seu juiz. Foi necessario recorrer ao braço secular. Informados de motim tão escandaloso e offensivo da humildade religiosa ás abas da capital, os governadores do reino mandaram aos ministros da cidade, que fossem executar a sentença apostolica acompanhados de tres bandeiras de soldados.

«A resistencia dos padres não diminuiu. Cerraram as portas do mosteiro, deixaram as da igreja abertas, e de dentro das grades do côro na capella-mór respondiam, cantando os officios divinos, ás advertencias e admoestações dos magistrados.

«Por fim a paciencia exhauriu-se; a tropa entrou no templo, e arrombou a grade do côro, que era de pau. Seguiu-se um verdadeiro alvoroto; os guardas forcejando por prender os monges; estes esquivando-se em tropel, ou a um e um, e oppondo as armas espirituaes ás temporaes, bullas, crucifixos, ceriaes, tocheiros, monitorias e excommunhões ao pulso vigoroso dos perseguidores.

«A final, cercados e rendidos, foram quasi arrastados em triumpho pelos vencedores ao celleiro aonde jazia o provincial captivo, e para maior desgosto tiveram de lhe beijar a mão em publico e de ajoelhar aos seus pés como subditos arrependidos. Entretanto não se submetteram sem o protesto de que cediam constrangidos pela força, e de que appellariam do nuncio de Roma.»

Até aqui o distincto historiador.

Porém, outras causas que vou contar motivaram a insurreição dos monges contra o seu prelado.

Eu não me assombrarei se o leitor me atalhar o enthusiasmo, com que pretendo illustral-o, dizendo-me no arrugar da sobrancelha que se dispensa de saber profundamente as causas que amotinaram uns frades ha duzentos e noventa e quatro annos. Todavia, em menoscabo dos meus creditos de escriptor futil, insto no esclarecimento d'este episodio de abastardamento do heroico Portugal, que Luiz de Camões cantára.

O documento, que vou publicar e nos alumia o escuro caso, nunca esteve em mão dos que escreveram a historia.

D. Christovão de Moura não perdia lanço de remover estorvos á usurpação de Philippe II. Acudia prompto com a corrupção onde quer que palpitasse coração portuguez. Se a peçonha do ouro não vingava ulcerar as consciencias, empregava a persuasão dos direitos de Philippe, mediante a eloquencia de jurisconsultos castelhanos e nacionaes.

Sabia o confidente do rei de Hespanha que a maioria dos mosteiros pendia ao duque de Bragança, ou ao prior do Crato; e, entre os mosteiros mais temiveis na propaganda a favor de monarcha portuguez, estremava-se, quando o cardeal-rei falleceu, o convento do Belem.

Urgia-lhe, pois, influir no espirito d'aquelles monges com a eloquencia de varões authorisados, que submettessem á lei e á justiça as demasias peccaminosas de um patriotismo incongruente com a legitima soberania.

Vieram de Castella dous frades bem apropositados ao intento; e, como fossem da mesma ordem, hospedaram-se em Belem.

O cardeal D. Henrique morrera no ultimo de janeiro de 1580, e já a 10 de fevereiro os dous frades castelhanos colhiam na rede da sua rhetorica o cardume das consciencias dos frades Jeronymos, a occultas do prelado fr. Manoel de Evora, cujo affecto aos Braganças era inflexivel.

Não obstante o segredo com que os commissarios de D. Christovão de Moura corrompiam o mosteiro, fr. Manoel de Evora deu tento da perfidia, e intimou a sahida aos frades forasteiros. Não lhe obedeceram, animados á rebeldia pela contumaz defeza da communidade. O prelado desobedecido deu conta do estranho successo aos governadores do reino, que demoravam em Almeirim. Os cinco governadores, eleitos pelo defunto cardeal, immediatamente ordenaram a expulsão dos dous monges castelhanos, em um aviso que eu possuo autographo, escripto por mão do arcebispo de Lisboa, e assignado pelos seus quatro collegas D. João Mascarenhas, Francisco de Sá, D. João Tello de Menezes, e Diogo Lopes de Sousa.

A carta é do seguinte theor. Nem lhe altero a orthographia nem a parcimonia da pontuação:

Os guovernadores e defensores destes Reynos e senhorios, fazemos saber a vos Reverendo padre presidente do conuento de nossa sôra de Belem da ordē de saõ Jeronimo, que a ese conuento saõ cheguados dous frades da vosa orde castilhanos, e pello que delles se tem entendido e do seu yntento, naõ conuem á quietaçaõ destes Reynos estarē n'elles, pello que tanto que vos esta for dada lhes mandareys cõ obediençia, ou da maneira que vos pareçer, e isto mais eficazmente se possa comseguir que demtro em dois dias se sayaõ fora da cidade e seu termo, e demtro de oyto se sayaã fora do Reyno, porque naõ o fazendo e sendo n'elle achados seraõ castigados como merecerē, e avisareis a todas as cassas da vossa orde que ymdo a elas ter estes frades com tençaõ de fazer mays detença que os ditos oyto dias os naõ recolhaõ nem aguasalhē e o façaõ a saber ao corregedor da comarca ou juiz de fora do lugar omde estiverē para niso proceder da maneira que o poder fazer e que volo faça loguo a saber, de que tambem nos avysareis e do mays que delles tiuerdes emtendido por que asy conuē. Scryta em almeirȳ a 16 de fevereiro de 580. Arcebispo de Lisboa. D. João Mascarenhas. Francisco de Sá. D. João Tello de Menezes. Diogo Lopes de Souza[1].

Tirantes o arcebispo e D. João Tello de Menezes, os governadores signatarios d'esta ordem, poucos mezes depois eram escravos submissos de Christovão de Moura; ainda assim, é justo presumir que em fevereiro de 1580, expedindo tão severa ordem contra os emissarios de Philippe II, mantinham ainda a honrada energia digna d'aquelle D. João de Mascarenhas—o defensor de Dio!

Como quer que fosse, a ordem da regencia transmittida pelo prelado aos seus conventuaes, produziu a rebellião descripta por Rebello da Silva, de pag. 361 a 363 do tomo II da Historia de Portugal. Se o leitor quizer marginar o seu exemplar com o resumo d'esta noticia tem preenchido a lacuna; e, se por curiosidade, quizer vêr o documento justificativo, mostrar-lh'o-hei com outro mais valioso de que vou dar-lhe traslado.

Havia n'aquelle tempo um grande fidalgo chamado D. Pedro da Cunha, antigo governador de Ceuta, general das galés que defendiam a costa do Algarve, e capitão-mór do reino quando D. Sebastião passou a Africa. Este era pai do celebrado arcebispo D. Rodrigo da Cunha.

O ancião, tão querido de D. João III, e respeitado do infeliz de Alcacer-kibir, foi ainda bemquisto do cardeal até á hora em que se manifestou contra Castella; e, governando as armas em Lisboa, ameaçou repellir das suas muralhas o rei estrangeiro, se D. Henrique deixasse a corôa portugueza ao castelhano.

Os governadores, nomeados no testamento do cardeal, veneravam D. Pedro da Cunha, e solicitavam-lhe o beneplacito, indo ao encontro da sua vontade com mercês e promessas de maiores galardões. Porém, no modo como o faziam, transluzia-se o muito respeito que lhe tinham, e o tino com que se esquivavam a melindrar-lhe a dignidade.

É o que se vê de uma carta original que Diogo Lopes de Sousa lhe envia, desde Almeirim, aos 23 de abril de 1581. A copia é textual. Veja-se como escrevia um dos homens illustres d'aquelle tempo, o regedor das justiças, e governador da casa do Porto, o antepassado que tão grande parte foi no luzimento e nos haveres dos condes de Miranda, dos marquezes de Arronches e dos duques de Lafões. E tamanho varão escrevia assim:

Sñer. Oje sábado receby de v. m. e loguo maõdey[2] pedir a bastião[3] dias a portaria, maõdoume[4] esa dos dosemtos mil reis de temça que maõ do[5] a v. m. a dos cem mil reis que hada ver cadano[6] lhe maõdarei loguo ou quaõdo v. m. qua[7] mandar fazer o padraõ dos dosentos mil reis antam se fará a provisaõ deste cemto que hadaver quadano o que poso afirmar a v. m. he que estaõ postos os sñers g.dors[8] a sirviremno nacomenda e emtodo o mais que nelles forem como v. m. uerá pois eu eyde ser o solicitador.

Tiuemos aguora requado de Castella. ElRey aimda esta em seu opinião, tornamos aguora a repliquar, queira deus que aproveite, elle vemse a merida[9] que he ja perto de nos, bem podera v. m. ouuir o Uasques[10] para o acomselhar, posto que o que v. m. fez foy como portuguez antigo, por que nos mordénos uaõ qua graõdes velhaquarias[11], temos emleitos[12] dom dioguo de Sousa e martin guomsalues da camara a fazer as armadas e fartar este cleriguo de neguocio por que sempre diz que se não faz nada[13]. O criado de v. m. não tenho visto, deue[14] de estar no degredo com diogo da fomsequa[15], bem sinto estar ainda a cidade desa maneira, quererá noso sñr dar lhe saude, eu trabalharey por auer[16] a quimtaã de luis de saldanha se o filho aquy uier[17] noso sñer sua muito ilustre p.ca[18] guarde ainda por mtos anos e acresemte: dalmeirim a xxjjj de abril

Diogo Lopes de Sousa, G.or

Sobrescripto: Ao muytto illustre sñer o sñr dom pedro da Cunha capitão mor da cidade de Lisboa meu snõr.

D. Pedro da Cunha governava as armas de Lisboa, quando D. Antonio, já acclamado rei, alli foi, e deixou-o entrar. Não temos provas de que os louros do ancião colhidos na Africa se tingissem no sangue da batalha de Alcantara. Sabemos que elle expirou nos carceres da torre de Belem, legando a seus filhos odio figadal a Castella.

D. Rodrigo vingou-o; e mais heroicamente o haveria vingado, se não recebesse como prelado do Porto, Braga e Lisboa as mitras da mão dos Philippes.

De D. Pedro da Cunha dizia o prior do Crato, na sua carta a Gregorio XIII:

«... Mas as cãs de D. Pedro da Cunha foram acaso mais veneradas? Quem desconhece como aquella honrada velhice acabou amargurada, não querendo nem podendo sobreviver aos affrontamentos do vencedor, depois de tão dilatada e gloriosa carreira principiada em Ceuta?...»

[1] Não sou exacto no traslado das assignaturas, porque difficilmente as perceberia quem não tiver lidado, com a calligraphia e abreviaturas d'aquelle tempo. Á excepção do arcebispo, os outros governadores são imaginosos nos garabulhos a termos de não se perceberem. Por exemplo: D. João Mascarenhas, assigna: dfºmozs. E Francisco de Sá: ffrançisq deSá. D. João Tello de Menezes, escreve: Tello. m. E Diogo Lopes de Sousa: Gd.º lop; sus. Na orla da carta está o sello das armas reaes. Sobrescripto: Por os governadores. Ao presidente do conuento de nossa sorã de Belem da ordē de S. Jeronimo.

[2] Mandei.

[3] Sebastião.

[4] Mandou-me.

[5] Mando.

[6] Que ha de haver cada anno.

[7] Cá.

[8] Governadores.

[9] Merida.

[10] Bem podéra v. m.ce ouvir o Vasques para o aconselhar. Este Vasques, inculcado por Diogo Lopes de Sousa, era um jurisconsulto hespanhol, de nome Rodrigo Vasques de Arse, que juntamente com outro jurisconsulto, doutor Molina, tinham vindo de Castella com Christovão de Moura, como vogaes da junta consultiva nos negocios de Portugal, para explicarem aos fidalgos portuguezes juridicamente a legitimidade de Philippe II. O governador, que já estava aconselhado, recommendava ao indeciso D. Pedro da Cunha que ouvisse o Vasques. O velho fidalgo, bem que recebesse o padrão da tença, com certeza não comeu a tença nem attendeu ao Vasques.

[11] Porque nos modernos vão cá grandes velhacarias.

[12] Temos eleitos.

[13] Diogo Lopes trata Martim Gonçalves da Camara de clerigo de negocio. Revê no apódo o odio secreto que tinha ao jesuita inimigo de Castella. O escrivão da puridade de D. Sebastião até certo ponto, remiu parte dos seus delictos na opposição poderosa e pertinaz que contrapoz ao usurpador. O Diogo de Sousa, ahi nomeado, havia sido general da armada de D. Sebastião na desastrosa batalha.

[14] Deve.

[15] Foi um corregedor muito affeiçoado a D. Antonio, e perseguido logo que o prior foi desterrado.

[16] Haver.

[17] Vier.

[18] Pessoa.


[QUEM DESTERROU
JOSÉ DE SEABRA DA SILVA?]

O desterro de José de Seabra é segredo, ao que parece, inaveriguavel.

Os indagadores mais versados e praticos nos archivos das secretarias, os proprios descendentes d'aquelle eminente estadista, os mais affeitos a lapidar e esclarecer os fuzis da cadeia historica oxydados pela acção dos seculos ou obscurecidos por tradições erroneas, nenhuns conseguiram alumiar este assim nubloso quanto importantissimo successo da historia, tão achegada á do nosso seculo.

A tradição viu de diversas maneiras o facto, e parece que todas as pontarias desacertou. Disseram uns que José de Seabra, ajudante do marquez de Pombal, no ministerio, facultára aos bispos a confirmação nas ordens sacras, com independencia do beneplacito regio; e d'ahi a demissão e o desterro, por arbitrio ou conselho do marquez, affrontado por tal concessão. Querem outros, manchando a honra de José de Seabra, que á demissão precedessem extorsões, concussões e litteralmente roubos praticados com a resalva dos altos cargos que exercia. Opinam alguns que elle descobrira a D. Maria I o proposito de a esbulharem da successão da corôa seu pai de accordo com o ministro valido. Outros, em fim, alludem a segredos de estado que sinceramente ignoram, por isso mesmo que eram segredos. Estes são os mais discretos.

O snr. Pinheiro Chagas, apoiado em uma honrosa e critica defeza que o snr. Antonio Coutinho Pereira de Seabra e Sousa, bisneto do estadista arguido, publicou, em 1868, respondendo ás arguições do snr. Soriano—indelicada e perfunctoriamente expendidas contra o ministro degredado—refuta as conjecturas das atoardas, e deixa insoluvel a duvida.

Se alguma hypothese póde aclarar a vereda de ulteriores investigações, é a que attribue ao cardeal da Cunha a desgraça de José de Seabra da Silva. Quasi se evidenceia que o marquez de Pombal foi mero, e, com certeza, forçado executor das ordens do rei. Da consideração que Pombal guardára pelo desterrado, nos é testemunha a ordem que elle mesmo transmittiu ao governador de Angola, mandando repatriar José de Seabra, quando D. José I vivo ainda, mas já prostrado de mortal doença, perdera a energia rancorosa que tempestúa nas almas ruins até ao despegar da vida.

Esse decreto, assignado por Martinho de Mello e Castro, foi expedido em 15 de dezembro de 1776. No principio de outubro de 1777 chegou ao presidio das Pedras Negras, onde estava o desterrado, a ordem de embarque. Em 20 de dezembro sahiu de Loanda José de Seabra. Deteve-se na Bahia, d'onde, em 6 de fevereiro de 1778, escreveu a seguinte carta inedita ao ministro Martinho de Mello e Castro:

«Ill.mo e exc.mo snr. Devendo a v. exc.ª a expedição das benignissimas ordens de S. M. que Deus guarde, que me pozeram na liberdade de sahir de Africa, e de passar ao reino, me persuado que tambem a tinha para significar a v. exc.ª a minha sincera, e fiel gratidão pela parte que v. exc.ª teve n'esse beneficio, o maior que eu podia receber na minha situação; segurando a v. exc.ª, que n'isto encerro os limites da minha liberdade, sem me adiantar a escrever a minha mulher, nem a meu irmão, que sei ha poucos dias, que ainda vivem.

«No principio de outubro chegou ao presidio das Pedras a minha redempção: preparei-me como melhor pude para chegar nos fins de novembro a Loanda, d'onde parti em 20 de dezembro, depois de pagar o devido tributo da carneirada, com que esta cidade hospeda aos mais robustos, e aportei a esta Bahia com quarenta dias de viagem. A necessidade de roborar um pouco as forças, e de me prover de quasi todo o preciso para me transportar com menor incommodidade, me fará demorar aqui mais dias, do que desejo, ainda considerando a vantagem de salvar o inverno nas costas de Portugal.

«Tanto que ahi chegar ha de v. exc.ª sabel-o, e desejára eu que v. exc.ª quizesse mandar-me insinuar a bordo o modo, tempo, e lugar do meu desembarque; porque a experiencia me tem ensinado muito á minha custa, que tinha habilidade para errar todos os passos, que governo pela minha má cabeça.

«Depois de desembarcar aonde, quando, e para o lugar que v. exc.ª me ha de ordenar, continuarei a minha peregrinação, como devo, até o lugar, onde ella teve principio. Permitta-me v. exc.ª que eu lhe confesse entretanto que a debilidade da minha philosophia, pela dureza do meu coração, e por falta da christandade, que a devia vigorisar, não me deu até agora a conformidade que eu devia ter para me ser menos sensivel a desgraça de ser representado ao meu soberano, e meu bemfeitor, como o mais infame, e o mais abominavel ingrato, e como tal despedido ignominiosamente do real serviço, separado da minha triste familia, encerrado em uma prisão; d'ella tirado para ser tranportado ao Rio de Janeiro, e d'ahi a Loanda, e de Loanda ao presidio das Pedras: levando para supplemento da falta quasi total de tudo as severas ordens, de que só vi a execução na parte que se dirigia a ser tido por morto na Europa, e empestado na Africa: e tudo isto sem sentença nem processo, porque não tive audiencia ao menos para se me dizer a culpa.

«Se todos os meus successos fossem restrictos a ser despedido do serviço, e mandado retirar para minha casa, nada diria; porque me havia de parecer extraordinario que um monarcha necessitasse de mandar fazer uma demanda para despedir de seu serviço um criado, que se lhe representasse ou mau, ou inutil, ou desagradavel: mas as demonstrações contra mim passaram muito adiante com o fatal esquecimento de me dar audiencia quem quer que se empenhou em me fazer tão famoso delinquente na real presença.

«Releve v. exc.ª este desafogo na substancia e no modo, porque até me falta ha quatro annos o uso de fallar e de escrever, mas não falta o desejo efficaz de me justificar, sem saber de que, para viver o tempo, que me resta, satisfeito, e descançado com o antigo conhecimento confirmado por custosas experiencias e serias reflexões, de não prestar para outra cousa, e menos para as em que fui mettido violentamente, e contra a minha vontade nos tempos passados.

«E ultimamente, exc.mo snr., cheguei até aqui, e ainda vacillo, se será atrevimento rogar a v. exc.ª que por mim (que não posso ter essa felicidade) queira beijar a mão a S. M. pela piedade, e clemencia, que commigo usou, permittindo-me que eu veja ainda ao menos a minha patria e familia. Se isso poder ser, eu o confio do antigo favor que devo a v. exc.ª, e, se não podér ser, eu sei que v. exc.ª mesmo ha de desculpar n'esta occasião a um africano rude e grosseiro, que não quer certamente retribuir offensas e atrevimentos por beneficios.

«Á pessoa de v. exc.ª guarde Deus muitos annos. Bahia de Todos os Santos, 6 de fevereiro de 1778.

«Ill.mo e exc.mo snr. Martinho de Mello e Castro.

«De v. exc.ª

«maior venerador e criado, mais fiel obrigado

«JOSÉ DE SEABRA DA SILVA.»

Lida esta carta, que não elucida o mysterio, dir-se-ha que o proprio José de Seabra ignorava o crime que lhe assacára o aleivoso a quem o rei prestára credito. Observe-se que esta ignorancia, se fosse dissimulada, seria tambem indecorosa; e, sobre tudo, offensiva do ministro Mello e Castro, que não podia ignorar os delictos do homem destinado a ser seu collega no ministerio. Como quer que fosse, a memoria do ministro de D. Maria I está illibada. O motor dos seus infortunios é insondavel. Estes segredos, vulgares nos governos despoticos, se deixam laivos de infamia, é na memoria dos monarchas.


[D. JOÃO IV E AS REGATEIRAS]

O que elle tinha sobre tudo era o talento dos solertes velhacos.

Primeiramente requestou com meiguices os fidalgos que, depois de afagados, o acclamaram.

Assentado, mas não seguro, no throno, cerceou a confiança aos fidalgos, e fez-se o idolo da canalha a fim de estribar-se n'ella, quando a nobreza irritada se bandeasse novamente com Hespanha. Assim lh'o aconselhára o seu ministro Lucena, em 1641; e, n'esse mesmo anno, a plebe rodeou o rei ameaçado pelos nobres, e applaudiu o supplicio dos marquez de Villa Real, duque de Caminha, conde de Armamar, D. Agostinho Manoel e outros. Francisco de Lucena, que emprestára o cutelo para a degolação dos traidores, foi mais tarde convicto de perfidia e degolado.

As cidadãs que mais se estremaram na celeuma das praças contra os conspiradores, foram as regateiras da Ribeira, capitaneadas por uma virago mulata, de alcunha a Maranhã. Esta mulher privava muito com o rei. D. João IV mandava parar o coche, quando a encontrava, dava-lhe a mão, e detinha-se em risonha palestra com a regateira. Assim o conta o diplomata D. Luiz da Cunha ao principe, que depois foi José I, em carta que corre impressa: O snr. D. João IV... mandava entrar no estribo do seu coche a celebre «Maranhã» que dominava todas as regateiras da Ribeira para se fazer mais popular, pois costumamos dizer que a voz do povo é a voz de Deus, o que nem sempre se verifica.

Outra regateira, não menos notavel em seu real beneplacito, chamava-se Brigida d'Alfama. No dia 1 de dezembro de 1640 foi ella quem de envolta com os petintaes levou de rojo o cadaver de Miguel de Vasconcellos.

Brigida, quando soube que o marquez de Villa Real e seus cumplices eram presos por traidores, pediu a qualquer poeta cesareo que lhe escrevesse cousa que ella pozesse nas regias mãos do seu soberano.

O poeta, provavelmente, trocando versos pelas colladas de Brigida d'Alfama, escreveu uma Silva, com que a regateira se foi ao paço mui aforçurada, e logrou, sem demora, entregar a D. João IV.

Eis a Silva:

Fôra descompostura
de grande atrevimento
(rei, que o mereceis ser de mil imperios),
sem ter prima tonsura
do poetico assento
tão cheio de grandezas e mysterios,
n'esta tosca Ribeira
cantar de vós a musa regateira.
Mas amor, que perdido
nos estanques passados
em que vendia carne aos tres estados
quiz, por vêr se melhora de partido,
ser cego de papeis, e a mim por musa,
que com sciencia infusa,
com quarta, ou gorgoleta
entre nos contubernios de poeta.
Amor é pois que abona
estas dôces reliquias de capona,
que Brigida começa
a entoar subida na tripeça,
por não ser o Bandarra,
que cantou cysne, o que aprendeu cigarra.
Chegue-se pois a bordo
com juizo pernialto,
para critiquizar, qualquer figura,
que aqui não canta tordo,
nem melro, que em contralto
esperdiça seu mal pela espessura.
Não ha aqui ruisenhor no bosque frio,
maganão de assobio,
e entre dôces avenas
ramilhete com voz, harpa com penas;
as minhas cantilenas
accentos são mais graves
do solidario inquisidor das aves,
que authorisado canta
compassos de guela por garganta,
hymnos á noite fria,
que viuva do dia
em anaguas se veste
bordadas de ouro sobre azul celeste.
Mas entremos no thema
e este breve intervallo
sirva de frontispicio do libello.
Escondida postema
em troiano cavallo
para tornar Lisboa um Mongibello
tinha a perfidia grega
de negra inveja, e de malicia cega,
mas lá de cima a intelligencia boa,
que ampara vossa authentica pessoa
quebrou as armadilhas
ás torpes sevandilhas
que bichinhos da terra
gigantes contra o céo sonhavam guerra;
e descobrindo o lusitano zelo
a ponta do novello
poz a cousa em estado
que quem vinha por lã, foi tosquiado.
A mim não me destouca
a primaz alimaria[19],
que era astuta serpente;
nem a cabeça louca
da poesia varia
do marquezote simples, e innocente;
nem os mais inimigos,
que da coca tocados
da esperança vã de altos estados
deram com o cabedal por esses trigos.
Tu és só que me matas,
ó Cochambre em sapatas[20],
tu, que aguia real com louco assombro
praticavas com o sol hombro por hombro
e inquinaste a lysia bizarria
de tua tão vidrada fidalguia
em affrontoso thalamo
ferindo pactos com Baeça, e Alamo[21].
Quando por sorte, ou erro
da vinha quasi morta
as velhas cepas, a maleza occulta,
é medicina o ferro:
umas, justificada a fouce corta,
outras, prudente o enxadão sepulta,
e trocando-lhe a fórma
a vinha assim reforma
pai de familias destro.
Toma o ginete um sestro,
degenera em sendeiro
das leis da fidalguia
da sua paternal cavallaria
prudente o cavalleiro
cobre com atafaes torpes, e feios
o que havia de ornar jaez e arreios.
Não sois de engenho tardo,
entendei-me o remoque, que é bernardo.
O franco, que do carro
da deusa da batalha
as avenas agora modifica;
o inglez bizarro
com toda a mais canalha
que aos altares de Marte se dedica
a vêr este interlunho
todos estão com os olhos como punho.
Se podaes esta parra
julgarão que se anima
vosso valor para fazer vindima,
se a deixaes á solta, e se desgarra
dirá vosso adversario,
que possuis o reino por precario.
N'este transe, senhor, n'esta apertura
será fraqueza a minha piedade,
pouco valor a magnanimidade,
e falta de poder qualquer brandura.
Pese tudo a prudencia a ouro fio
entenda-me che pò, que me entend'io.

Não sei se o mesmo, se outro vate patriota, escreveu e distribuiu primorosamente calligraphados alguns exemplares da seguinte poesia—tão sanguinaria quanto boçal—quando ainda fumegavam no cadafalso do Rocio os cadaveres dos conjurados, cujo supplicio pedira Brigida de Alfama:

ÁS MORTES DE D. LUIZ DE MENEZES, MARQUEZ DE VILLA REAL, DE D. MIGUEL DE NORONHA, DUQUE DE CAMINHA, DE RUY DE MATTOS DE NORONHA, CONDE DE ARMAMAR, DE D. AGOSTINHO MANOEL, OS QUAES MANDOU DEGOLAR NA PRAÇA DO ROCIO, EL-REI D. JOÃO O IV, E MAIS TRES, E UM BAEÇA, ARRASTADOS, ENFORCADOS, E ESQUARTEJADOS TODOS POR TRAIDORES, HOJE 29 DE AGOSTO DE 1641.

Ao marquez de Villa Real

Senhor marquez, eu quizera,
(testemunha me é Jesus)
de vos trocar o capuz
por sêda de primavera;
mas vossa condição fera
teve a culpa d'este mal;
que havieis de ser leal
apesar de mil traições,
quem tem tão nobres brazões
como os de Villa Real.

Ao duque de Caminha

E vós, duque, porque não
podéreis isto fazer,
mudando de parecer,
pois do marquez a tenção
era sómente traição:
e já que mal attentado
e com tão pouco cuidado
vos quizestes derrotar,
para tudo se acabar,
soffrei o ser degolado.

Ao conde de Armamar

Em theatro hão de parar
vinte e dous annos de idade,
e de Braga a falsidade
faz a taes transes chegar[22]!
Mas se o conde de Armamar
olhára para seu tio
no dia de nosso brio
que jogava o esconder,
nunca viera a perder
em tal peça tal feitio[23].

A D. Agostinho Manoel

Um Manifesto fizeste
que foi manifesto a todos,
e agora com baixos modos
a tudo contradisseste.
Outro tambem compozeste
quando estiveste na côrte;
e, por não seguir o norte
com que por cá navegaste,
por indiscreto, ficaste
tambem manifesto á morte[24].

Ao mesmo

E já que de tal maneira
te quizeste manifestar,
sabe-te determinar
n'esta hora derradeira:
não sendo tal a cegueira
com que até agora viveste,
se no que compozeste
te mostraste declarado,
hoje que és degolado
sente o mal que te fizeste.

Ao perro do Baeça

Habito de Christo a vós?[25]
Maldito seja o judeu
que lá na côrte o vendeu
tal como vossos avós!
Padecei tormento atroz,
neto de uma cominheira:
porque me dava canceira
quem não era a Deus fiel
que escapasse de um cordel,
escapando da fogueira.

A opulencia de Pedro de Baeça provinha-lhe da senhora com quem casára. Os trinta mil cruzados não lh'os aceitaram a troco da vida; mas lá foram depois, em nome da lei, buscal-os ao casal da viuva. Reduzida a penuria extrema, esta mulher fugiu para a Hollanda, onde morreu soccorrida por parentes que eram hebreus.

[19] D. Sebastião de Mattos, arcebispo de Braga.

[20] Talvez D. Agostinho Manoel de Vasconcellos.

[21] Jorge Gomes Alamo, e um filho, que entraram no Limoeiro, onde foram atormentados, e nada revelaram. Os historiadores não se occupam em lhes averiguar o destino.

[22] Este conde era sobrinho do arcebispo de Braga.

[23] No dia da acclamação do duque de Bragança, o arcebispo de Braga correu perigo de ser assassinado como amigo de Castella. E, não obstante as demonstrações hostis d'este prelado, D. João IV chamou-o ao seu conselho, afastando alguns fidalgos que jogaram a cabeça, tirando-o da cobarde inercia de Villa Viçosa.

[24] D. Agostinho Manoel de Vasconcellos, além de outras obras estimadas, escreveu: Manifesto na acclamação d'el-rei D. João IV, 1641. É extravagante cousa que publicasse um livro tão a favor de quem, no mesmo anno, o mandou degolar como inimigo.

[25] Pedro de Baeça, mercador muito rico, era cavalleiro do habito de Christo. Foi este o que melhormente pareceu comprehender a abjecção dos seus inimigos, offerecendo trinta mil cruzados pela vida. Elle sabia que o avô do rei, e os avós dos seus juizes se tinham vendido por menos a Philippe II.


[FIELDING]

Quatro mezes antes de morrer, o visconde de Almeida Garrett, passeando em Lisboa, no cemiterio dos inglezes, com Francisco Gomes de Amorim, fallou assim ao seu extremoso amigo, defronte da inscripção tumular do romancista britannico Henri Fielding:

«Não leia isso que é tudo mentira; a unica verdade que ahi está é o nome de Henrique Fielding, e ninguem o sabe ou não se lembram d'elle. Pois foi um grande nome! Walter Scott chama a Fielding o pai do romance inglez e la Harpe disse que o Tom Jones é o primeiro romance do mundo. Apesar de tudo esta enorme tumba de pedra encerra um punhado de cinzas que foram consideradas em quanto as animava uma multidão de paixões revoltas!... agora... quem sabe que ellas estão ahi? O que o epitaphio não diz é que Henrique Fielding viverá eternamente no Tom Jones, como Squire Western. O que tambem não diz esse estupido epitaphio é que nem a Inglaterra nem ninguem se lembrou da viuva nem dos filhos d'este homem illustre, que morreram ignorados, depois talvez de terem vivido como mendigos entre homens poderosos de estado que foram condiscipulos e se diziam amigos de seu pai... Ah! mundo enganador!...[26]»

Tristissimo lance, se os filhos de tão estremecido pai mendigaram! Eram criancinhas quando elle morreu em Lisboa, no anno de 1754.

Forçado pela enfermidade a procurar o clima de Portugal, sahiu d'entre as caricias e lagrimas da esposa e filhos no dia 24 de junho de 1754.

A carta, que elle escreveu n'esse mesmo dia, e a ultima que deixou sentida e chorada na terra natal, dizia assim:

«Hoje quarta-feira, 24 de junho de 1754, nasceu o sol mais triste que eu vi em minha vida, e me já achou acordado na minha casa de Fordhook. Cogitava eu que, á luz d'esse sol, veria, pela derradeira vez, e diria o ultimo adeus, aos objectos queridos que eu amava com a ternura de mãi. Não me tinham ainda callejado as doutrinas da philosophia que me ensinára a supportar a dôr e desprezar a morte. Em tal situação, não podendo vencer a natureza, deixei-me vencer d'ella, que me subjugou como se eu fosse a mais fragil mulher. Pretextando consolar-me, induziu-me a ir gozar oito horas na companhia das minhas criancinhas, e com certeza, o que ahi soffri n'esse curto espaço excedeu todos os padecimentos da minha enfermidade. Ao meio dia fui pontualmente avisado de que me esperava a carroça. Abracei os meus filhos um por cada vez, e embarquei no carro com alguma resolução. Minha mulher que procedera com o verdadeiro heroismo de um philosopho, dado que seja ao mesmo tempo mãi extremosa, seguiu-me com a filha mais velha. Alguns amigos me acompanharam, e outros se despediram de mim, elogiando a minha coragem com louvores mui pouco merecidos.»

E não viu mais aquelle sol triste que se espelhára nas lagrimas de seus filhos!

Que importava o céo, e o sol, e a fragrancia de Portugal áquelle doente excruciado na solidão de Lisboa, por saudades dos seus, atormentadas pela desesperança de voltar a vêl-os! Se lhe não seria mais suave a morte, rodeado dos filhos, e com a mão já morta e ainda quente nos labios d'elles!

Pouco mais de tres mezes viveu. Expirou quando as folhas despegaram e fremiram seccas no chão, revolvidas pelo nordeste, aquella toada sinistra que faz pensar no gemer final dos moribundos a quem as primeiras nevoas congelaram o sangue no coração.

O seu ultimo dia foi o oitavo de outubro de 1754. Tinha quarenta e oito annos.

Não alcancei noticia do destino que tiveram os filhos de Fielding. Pobres sei eu que ficaram, porque seu pai, dado que os amasse muito, ou lhes não grangeou, ou era já tarde quando lhes quiz grangear o patrimonio.

Fielding achou-se uma vez com 1:500 libras, e uma propriedade que rendia 200, no condado de Derby. Montou carruagem, phantasiou librés de côres claras, que se renovavam de mez em mez, hospitalidade de principe, lautos banquetes, saraus, caçadas, a mais fidalga e desastrada imprevidencia, consoante ás tradições de seu avô o conde de Denbigh, e de seu pai o general Edmundo Fielding. No trajecto de tres annos, não tinha um palmo de terra, nem um schilling do patrimonio de sua primeira mulher.

Depois, aceitou o lugar de juiz de paz, especie de commissario subalterno de policia. Collocado em circumstancias proprias ao intento, começou a estudar as ladroeiras e a perseguir os ladrões. No entanto, escrevia novellas; e, gravando em eterno bronze o Tom Jones, creou o romance em Inglaterra.

Se a experiencia lhe fosse mestra e inspiradora, poderia, como escriptor, reparar as perdas de fidalgo. Tom Jones foi pago por 700 libras, e Amelia por 1:000.

Ás alegrias da gloria do ouro, seguiram de perto os rebates da morte. A vida estava gasta nos proprios desperdicios. A alma, no maximo esplendor das suas faculdades, requeria coração vigoroso onde fecundasse as grandes aspirações. Como prova da sua immortalidade, o corpo deperecia, os pulmões deslaçavam-se, e ella entre as regiões infinitas e as tristezas do quasi moribundo, lampejava ainda os derradeiros clarões da Viagem a Lisboa, em que Fielding chorou e sorriu, mesclando aos impetos da satyra os mais desconsolados quebrantos da amargura.

Quando fordes ao cemiterio dos Cyprestes, attentai n'aquelle tumulo, pensai em tudo que é triste; mas não lhe rezeis pela alma, que essa está irremissivelmente condemnada. Henrique Fielding não era dos nossos, não era catholico. Que pena!

[26] Archivo Pittoresco, tom. III, pag. 140.


[MANIA E HYPOCONDRIA]

Certo maniaco imaginava que tinha morrido, e rogava aos parentes e amigos que o enterrassem, porque o seu corpo começava a apodrecer. Tres vezes, dentro d'um anno, o atacou semelhante mania. Amortalharam-no, e fingiram que o levavam ao cemiterio; porém, no caminho, estavam uns homens pactuados com os parentes á espera do sahimento; e, quando a tumba ia passando, começaram a dizer em voz alta:

—Ora graças a Deus, que morreu finalmente aquelle velhaco, aquelle biltre, aquelle perversissimo scelerado!

O maniaco, ouvindo os insultos, irou-se grandemente, e respondeu:

—Canalhões! se eu estivesse vivo, castigar-vos-hia a bengaladas, para vos ensinar a não ter má lingua; infelizmente estou morto; e os mortos não se vingam.

Replicaram os homens que não lhe tinham medo, e desafiaram-no renovando as injurias.

Então o maniaco, erguendo-se de golpe, desembaraçou-se da mortalha, e correu atraz dos homens, que o receberam a murros, e tantos lhes pregaram na cabeça que lhe pozeram fóra de lá a idéa que o atormentava.

O doente recolheu-se a casa bastante contuso; mas curado; e, porque havia tres dias que jejuava, comeu á tripa fôrra.

Este caso, e outro da mesma seriedade, vem referidos em um livro scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em França. É a Hygiene das dôres, por mr. A. Dobay. Os francezes, ao mesmo tempo que nos illustram, alegram a gente com estas passagens que não são vulgares entre os maniacos portuguezes.

*
* *

Um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo, e resolveu nunca sahir do seu quarto. Dormia, comia e bebia como se quer; mas soffria horrorosamente por todo o corpo; devia morrer de morte affrontosa; estava ulcerado e gangrenado; pedia que o não atormentassem, etc.

Fez quanto pôde para se curar; consultou os somnambulos mais acreditados; encarapuçou-se com um barrete encerado; tomou banhos egypcios, e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia: tudo inutil. Depois experimentou o racahout, a revalenta, a mostarda branca, com igual resultado. A mostarda branca, que cura toda a gente, fez-lhe mal a elle. Por ultimo, e em recurso extremo, tomou preparados de ferro, de cobre, de ouro, bezoartos orientaes, o cachundé chinez, o talekamapala dos selvagens americanos, e nada de novo. Sempre doentissimo. Recorreu á escova electrica, ao restaurador da vida. Tudo em vão. Parece incrivel uma cousa tão verdadeira!

A conversação d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo assumpto: a sua molestia. Se alguem consegue distrahil-o por momentos, esquece-se o homem dos seus atrozes flagicios.

Indo o medico visital-o uma manhã, queixava-se elle de que não podia estender a perna direita; e, para mostrar a difficuldade que sentia, estendia a perna.

—Então o senhor que mais quer?—perguntou o medico.

—Valha-me Deus, queria fazer isto!—e levantava a perna com a maior presteza e facilidade.

O medico desatou ás gargalhaadas; e o doente, cahindo em si, riu-se-tambem. Esta aventura distrahiu-o, e poz cobro ás lamurias.

D'outra vez, queixava-se ao medico de falta de appetite (comia como quatro), e de se estar marasmando.

Ora, o homem tinha tão boas côres e tão proeminente abdomen que o medico não pôde suster o riso. O doentinho, affrontado pela galhofa do medico, pediu explicações.

—Antes de lastimar-se, olhe para a sua barriga—disse o medico.

—É verdade!—disse pasmadamente o enfermo—é verdade! eu não tinha reparado.

E ou por estar convencido ou por imitação, riu-se tambem com o medico.

Este livro da Hygiene das dôres não é dos mais imprestaveis no catalogo da bibliotheca medica. Ha molestias nervopathicas que se modificam pela explosão das lagrimas, outras pelo espirro, e algumas pelas convulsões do riso.


[AOS DIPLOMATAS DESCONTENTES]

Se suas excellencias, os senhores secretarios e addidos de ministros e embaixadores se queixam da parcimonia dos seus ordenados—e accusam de mesquinhos os governos, indifferentes ao esplendor dos enviados que representam este Portugal, tão pomposamente representado em tempos antigos—bem sei eu onde elles podem, se quizerem, colher as provas de liberalidade dos governos absolutos com que confundam a sovinaria dos governos liberaes.

Um diplomata, que brilhou nos tempos prosperos, e me lembra, como exemplo, é Duarte Ribeiro de Macedo. Dizem d'elle os biographos, e particularmente José Maria da Costa e Silva, que nunca enviado portuguez a Paris tão grandes honras recebeu na côrte de Luiz XIV. Nove annos alli residiu o solerte diplomata, ganhando de dia para dia a consideração de Portugal e os gabos dos ministros com quem lidou.

Em 1668 nol-o descreve Costa e Silva melhorado na florente carreira, já como enviado ordinario.

Não nos diz que ordenados Duarte Ribeiro recebe, nem que luxos estadeia na côrte de França; mas do contexto de duas cartas suas e ineditas, facil nos é conjecturar o despendio, o fausto, a ostentação quasi reprehensivel d'aquelle representante, se o não quizerem desculpar por elle ser algum tanto poeta.

Os periodos, que vão lêr-se, devem pruir de inveja os espiritos descontentes dos senhores secretarios, addidos, e enviados de hoje em dia; conformem-se no entanto, confrontando o Portugal de Duarte Ribeiro de Macedo com o Portugal dos que hoje em dia o representam, a jantarem em restaurantes de 2 francos por cabeça.

Vejamos as scintillações de estylo de um enviado ordinario na embriagante atmosphera de Paris que o aureolava com as suas delicias. As cartas datadas em 1669 e 1670 são adereçadas ao regedor das justiças, D. Rodrigo de Menezes.

«...... Dir-lhe-hei a v. s.ª como passo ha quatro mezes. Jeronymo José da Costa me assistiu dous, mas porque a tardança dos provimentos o fazia desconfiar, não quiz valer-me d'elle, e pedi 1:000 francos ao conde de S. Comberg, dizendo-lhe que era para um emprego meu. Não me atrevi a escrever que achava este recurso, para que não désse causa a maior descuido. Já estão pagos estes dous credores; mas não estou livre de cuidar que recahirei no mesmo achaque. Creia v. s.ª que não sei como acerto a servir sua alteza[27] sempre entre os temores de que me ha de faltar o necessario para o servir no mez que vem, se me acaba o provimento. Verjus levou carta minha para o snr. conde da Torre. O que n'ella pedia era que sua alteza me mandasse pagar ou recolher, e confesso a v. s.ª que não posso servir com taes faltas. Se eu disser a v. s.ª o que me tem custado os portes de Madrid, Hollanda e Inglaterra ha v. s.ª de se admirar! Sua alteza, pela mercê que me faz, a qualquer carta minha manda logo acudir: a falta está da parte dos executores das suas ordens... etc.»

Se este periodo não deixa bem definida a situação brilhante do enviado ordinario, ha outro mais explicito:

«... Eu me acho em tal estado que pedi um dia d'estes dez dobrões emprestados. No ultimo de fevereiro se me acabaram as mezadas, e entro em quarto mez de empenho. Até a carne para comer me trazem fiada... Tire-me v. s.ª d'aqui ainda que seja á custa da liberdade.»

D'estas e outras cartas reveladoras de opulencia, de alegria, e patriotica vaidade no serviço de Portugal é que os biographos deprehenderam que o desembargador Duarte Ribeiro, enviado ordinario a Paris, alli fôra recebido com grandes honrarias (diz Costa e Silva) poucas vezes tributadas a ministros estrangeiros, e tantas e tamanhas que até fiavam d'elle a carne os magarefes parisienses.

E, como prova de que a sua abastança não era fineza, mas sim obrigação da patria que lh'a dava, acrescenta o biographo que Duarte Ribeiro, no longo prazo de nove annos que se demorou em França, no exercido d'esta missão importante, promoveu com todo o zelo e sagacidade de que era dotado os interesses e vantagens da nação que representava.

Da comparação da opulencia de Duarte Ribeiro com a pobreza dos diplomatas do nosso tempo, infere-se que elle comia vacca fiada porque era um inepto, ao passo que os seus successores no officio andam por lá saturados de trufas porque sabem manter perspicacissimamente o equilibrio internacional.

[27] D. Pedro, o regente, irmão de Affonso VI.


[BIBLIOGRAPHIA]