III
Elle (l'histoire) enseigne qu'une âme pêse infiniment plus qu'un royaume, un empire, un système d'états, parfois plus que le genre humain.
De quel droit? du droit de Luther, qui, d'un Non dit au pape, à l'Eglise, à l'Empire, enlève la moitié de l'Europe.
Du droit de Cristophe Colomb, qui dément et Rome et les siècles, les conciles, la tradition.
Du droit de Copernic, qui, contre les doctes et les peuples, méprisant à la fois l'instinct et la science, les sens même et le témoignage des yeux, subordonna l'observation à la Raison, et seul vainquit l'humanité.
MICHELET.
Levantei-me cedo para esperar o carrasco.
Luiz «o Negro» nascera no lugar de Capelludos d'Aguiar, freguezia de S. João Baptista, e comarca de Villa Pouca de Aguiar, a sete de maio de mil oitocentos e seis.
Entravamos, então, n'uma das mais dolorosas épocas da nossa historia moderna. Adejavam por sobre a peninsula as aguias do imperio, e rasgando o vôo iam penetrar nas nossas fronteiras. Queria o ambicioso da Corsega, como um dos conquistadores do paiz da aurora, açoutar as vagas indomitas e enfurecidas do oceano nas extremas do occidente.
Napoleão ia decretar, no seu olympo de Fontainebleau, que a dynastia de Bragança cessára de reinar, e sentia-se já, pelo silencio da noite, o ruido pavoroso da marcha compassada dos legionarios das Gallias.
Se os Braganças, como os patricios da velha Roma, tivessem esperado o Brenno moderno, sentados nas cadeiras curues, na omnipotencia augusta do Lacio!...
Não esperaram! Fugiram apavorados e... nervosos, para além do Atlantico. Deus lhes perdôe.
Chego a crêr—o Eterno se amerceie de mim se erro—que esta absurda e ephemera conquista foi a alvorada da liberdade em Portugal.
Receio pouco que me alcunhem, agora, de jacobino ou afrancezado. O anathema actual macúla, fere e extermina sómente, n'estas horas d'angustia afflictiva e demorada para toda a democracia europêa, os alcunhados defensores, aqui, da fusão iberica e do cantonalismo peninsular. Para todos os outros heresiarchas ha perdão nos amplos recintos da politica orthodoxa. Os Mac-Mahons e Serranos nasceram para edificação das monarchias. Substituiram os Lafayettes e Monks de todos os tempos.
Para serem apedrejados e expostos ás ignaras vaias da multidão temos nós Victor Hugo e Garibaldi no nosso seculo.
Christo, em Jerusalem, antes de suppliciado, percorreu as ruas vergando sob o lenho do seu proprio supplicio.
Assim seja—até que o verbo esplendido da democracia surja como luzeiro da redempção da humanidade.
Os phariseus de todas as épocas teem sempre uma accusação adrede, para extinguirem a luz da alma nos homens do futuro.
É antiquissima e vetusta usança injuriar os espiritos elevados e prescientes de todos os tempos, infamando-os com os epithetos, que o seculo detesta e abomina, para os crucificar, sem dôr nem piedade, e entregal-os, depois, á irrisão da gentalha, e á execração immorredoura dos vindouros.
É esta a lenda de Christna e de Bouddha no Oriente, de Socrates em Athenas, dos Gracchos e de Spartaco em Roma, de Christo e dos apostolos em Jerusalem, de João Huss e de Jeronymo de Praga na Allemanha, de Savonarola em Florença, e de todos os reformadores da humanidade—desde Abel, se aceitamos o mytho biblico, até ao ultimo pastor das Cevennas, e até ao derradeiro Karl Marx das sociedades modernas.
Convem estudar a época em que nasceu o carrasco.
Depois o ouviremos.
Os tres estados eram a base da nossa organisação politica e social: clero, nobreza e povo. Todavia, elementos preponderantes eram os dous primeiros. Vivia e medrava o povo como machina. Trabalhava, suava e mourejava para alimentar e enriquecer o sacerdocio e a nobreza. Nas horas de perigo, no momento das grandes luctas apparecia como comparsa, enfileirava-se nos córos das supremas tragedias, e morria na obscuridade de legião, no completo desprezo da sua insignificancia. Acclamava o mestre de Aviz, cahia desconhecido e ignorado nos areaes d'Africa, passava desapercebido, para as chronicas, nos galeões da India, e nos recontros e batalhas figurava pela força numerica, como hoje se designam nos mappas de brigada as forças vivas de qualquer regimento ou batalhão. Afóra estes lances era a plebe, era a villanagem, era a mó do povo, era a peonagem, era o numero.
Na vida campestre emparelhava com o boi, dormia ao lado do rebanho, inventariava-se entre as alfaias da officina rural—era a força empregada no impulso da enxada, era o guia do arado, era, finalmente, a machina, que desbravava a charneca, que enxugava o paúl, que roçava o matagal basto e espesso, que Semeava o terreno lavrado pelo seu esforço, e que, mais tarde, colhia e arrecadava o fructo.
Na sociedade urbana era o operario—mal ensinado, parcamente retribuido, entregue a si e aos seus proprios e escassos recursos, sem lição, sem exemplos, sem estimulos, sem auxilio, e sem mercado vasto e animado para os productos da sua industria.
O commercio de grosso tracto, monopolisado entre algumas dezenas de capitalistas e armadores, vivia fóra da acção productiva do paiz, como n'um eden de bemaventurança, onde a entrada era vedada a profanos.
Desde a casa da India até á casa dos vinte e quatro era longa a historia das prerogativas e privilegios de classe n'esta nação algemada—exclusivismo absurdo da mais inexperiente e ignara administração politica, economica e social.
E o povo vivia assim—submisso e reverente—porque as misericordias, irmandades, e ordens monasticas de todas as categorias e religiões adoçavam a miseria publica com o caldeirão da sopa fradesca, generosamente offerecido na portaria do mosteiro. Ensinava-se oficialmente um povo inteiro a ser mendigo. Era esta a vida economica e social de toda a peninsula.
Decretava-se a mendicidade como dogma. Eram o pauperismo, a ociosidade e a degradação humana nobilitados pela Igreja. E nos amplos e lageados claustros e escadarias do cenobio havia aula publica de abjecção, de humildade ignobil, de torpe vagabundagem e de crimes até. O fanatismo religioso nunca desadorou a Calabria, a Floresta negra, e a Serra-Morena. Que o digam as offertas ás madonas de Italia.
Viviamos assim.
E por isso os nossos monarchas se appellidavam fidelissimos perante a curia do Vaticano, e gozava de pragmaticas rituaes a Igreja lusitana, que só eram permittidas na sé apostolica de Roma.
Com as fogueiras da inquisição e a esmola aviltante, distribuida no peristylo do templo, alcançáramos tudo: destruiramos e aniquiláramos a raça heroica da peninsula ibérica.
Louvado seja Deus! A expulsão de judeus e mouros, a fogueira inextinguivel do catholicismo, e a esmola aviltante e hypocrita d'um clero hediondo, devasso e fanatico, assemelhava-nos, na torpeza, no aviltamento, e no cretinismo da fórma ás colónias jesuiticas do Paraguay.
A semelhança das evoluções communaes, que, pouco a pouco, foram erguendo e levantando o poderoso collo da burguezia em toda a Europa—quiz o marquez de Pombal, nos vastos designios da sua potente administração, crear e estabelecer, aqui, a classe média.
Baldado empenho.
A morte do ministro valido de D. José I deixou, em profunda anemia, o vigoroso e energico elemento social, que elle intentára crear.
Expulsáramos os sarracenos tão tarde, organisáramo-nos, como nação, em época tão proxima, que sem termos soffrido os vexames do feudalismo, não creámos, tambem, a classe, que mais arcou com elle, e que o assoberbou e venceu.
Temos sido sempre o echo remoto e longiquo das luctas sociaes, politicas e economicas da Europa.
Ao passo que a communa, originada no municipio romano, sahia das trevas da meia idade, depois das cruzadas e das luctas feudaes dos grandes vassallos, caminhando tenazmente por entre os recifes dos direitos senhoriaes e do poder real até chegar, em França, á revolução de 1789, e affirmava, sem mais contestação possivel, os legitimos direitos do terceiro estado—entre nós a burguezia, a classe média foi sempre uma creação ephempra, uma entidade sem solidez nem significação valiosa, e tanto assim que, depois das luctas constitucionaes, quando triumpharam alguns dos principios liberaes, pouco a pouco, a parte mais opulenta, mais rica, mais dinheirosa d'essa creação ficticia ennobreceu-se, afastou-se com desdem e desprezo da sua propria classe—se classe era—buscando no luzimento e esplendor das armarias e librés um marco divisorio, que a separasse para todo o sempre dos seus irmãos no trabalho. E os grupos restantes, menos abastados, menos felizes, e menos poderosos, pelos haveres, mergulharam, por instincto, educação e costumes, no seio da plebe onde existem e jazem, quaesquer que sejam as vaidades com que pretendam esconder esta communhão de interesses, habitos e sentimentos.
É doloroso dizel-o, mas embora: aceitemos os acontecimentos como são. A revolução de 1832 e 1833 em Portugal, em presença da sciencia, não só não foi uma revolução social, mas nem sequer foi uma profunda revolução politica em todo o rigor do vocabulo.
Foi uma guerra de successão a um throno contestado por dous irmãos, que se reputavam ambos legitimos, cercados de partidarios com interesses e direitos offendidos, e em que um dos pretendentes—o mais habil, senão o mais feliz—soube crear sympathias heroicas e indestructiveis dedicações, appellando para a corrente das idéas do seu seculo, e alcançou captivar as almas generosas, outorgando uma carta constitucional, simulacro de liberdades, que não prenderam nem limitaram—como o não tem feito—o exercicio constante e absoluto do poder e governo pessoal.
Podem-me contestar uma tão resumida e rapida exposição. Os factos, porém, não deixarão desmentir estas verdades.
Nas luctas de 1833 achava-se a nobreza antiga, a nobreza de sangue dividida nos dous campos, pelejando em fileiras diversas, e por vezes inimiga no seio dos proprios solares. Todavia não era a diversidade de crenças, nem a sinceridade das convicções, que a traziam, assim, desavinda e odienta. Era o egoismo dos interesses perdidos, era o ciume do valimento ou o odio pelos desprezos da corôa, era o orgulho de preeminencias e prerogativas nas familias titulares, eram as desconsiderações dos seus pares, sentidas, e cuidadosamente legadas, que iam passando, no mysterio dos tombos e cartorios, com a successão dos vinculos por diversos reinados, eram vinganças sumidas e occultas por entre os pergaminhos de raça, e todas estas ruins paixões, todas estas heranças em que o amor proprio e a soberba dos avós, que se transmittia aos netos, achou, na lucta dos dous principes, respiradouro por onde se expandisse e rebentasse a explosão.
Foi assim.
Como casta, as crenças eram as mesmas. Se a palavra augusta de crença póde ter cabida onde se falla de orgulho inexoravel, de implacaveis interesses, e onde germina o desprezo inveterado e profundo por tudo e por todos, que não descendem d'avós, já nobilitados, nos seculos undecimo e duodecimo da nossa modernissima monarchia.
Os reis podem fazer nobres, mas não teem poder para crear fidalgos.» Estas palavras, nascidas da orgulhosa colera d'um adversario puritano da fórma politica actual, explicam á nobreza moderna—se ella sabe meditar—como são sinceros e affectuosos os afagos e blandicias com que a antiga aristocracia a trata e recebe. Fica escripto por uma vez: o ultimo filho segundo d'uma casa secular, ainda o mais empobrecido, e o mais privado de intelligencia, será sempre estimado, pela sua casta, acima de todos os genios, e de todas as illustrações do seu seculo.
Foi a experiencia, talvez, d'estas justas considerações, que, nos salões de Luiz XVIII, levou um dos mais illustres marechaes do imperio a dizer a um fidalgo do exercito de Condé: «Eu sou o meu proprio antepassado.»
A nobreza antiga, com excepções rarissimas de que me não occupo agora, queria liberdades e garantias—queria; mas exigia-as dentro do circulo da sua casta, requeria-as para si e para os seus.
Fóra d'esta linha divisoria, d'este limite sagrado só via a plebe. Direitos, faculdades e poderes originavam-se no numero dos avós. Quem não tinha ascendentes conhecidos e nobilitados não era pessoa juridica, não era homem: vivia á mercê da misericordia infinita da nobreza. Triste situação era esta! Mas era assim.
Rezam as lendas ou as chronicas, que uma nobre dama da côrte dos Valois não escrupulisava despir-se diante dos seus lacaios, segundo o dizer de Brantôme. Que importava a sensualidade da gentalha! N'este esquecimento e desdem, pela plebe, vivia a aristocracia portugueza, na contemplação de si mesma, como o Zeus dos indus na vasta cosmogonia do Oriente.
O vulgo, a populaça era a machina posta ao serviço do fidalgo.
Terminada a lucta da successão começaram a recuar, nos seus esforços patrioticos, muitos dos nobres, que militavam nas fileiras populares.
Era de prevêr.
Os factos consummados tinham mais força do que todas as aspirações, e cegos desejos da nobreza—que se dizia liberal.
Espiritos pouco previdentes, por nenhuma fórma habituados a estudos sociaes, inexperientes em todos os actos da vida civil, creados no desprezo e desconhecimento do trabalho, que, accumulado, produz a riqueza publica, esperavam encontrar, na côrte do imperador, as tenças realengas, obtidas, pelos serviços, que só não são estereis para a lisonja, imaginavam conservar, como monopolio das suas casas solarengas, os cargos hereditarios, os empregos vitalicios, as patentes no exercito, sem habilitações obrigadas para as exercer, e os lugares privativos e rendosos em todas as ordens militares e religiosas.
A carta constitucional poderia tornar-se letra morta. Demais, a nobreza não tivera tempo para estudar foraes, nem cartas de alforria. A aristocracia estava habituada a vêr derogar leis do reino por provisões regias. Para alguma cousa deviam servir os poderes magestaticos.
Mas quando os acontecimentos vieram, nos primeiros assomos d'enthusiasmo, desmentir estas esperanças, e deram começo á obra de destruição das velhas instituições, em que andamos todos empenhados—foi, então, que se descerrou a venda de olhos tão poucos perspicazes, e a nobreza viu, com pasmo inaudito, que suppondo-se ella, só ella, o engenheiro, que dispára as catapultas, empregadas pelas facções—era, apenas, a singela alavanca, posta nas mãos dos homens do povo, e que estes apontavam e dirigiam a seu talante e sabor.
O clero, na sua maioria, na força viva da sua organisação—esse, não se deixou illudir.
Só podia estar ao lado da reacção—e, por isso, esteve.
E á medida que os factos se vão desenrolando, que novas crenças e novas idéas transformam as sociedades—o clero acompanha sempre os partidos retrogados, senta-se junto do passado, afaga-o, anima-o, protege-o, defende-o, por vezes alimenta-o, e arrasta-o, depois—até á vertigem e ao delirio.
Quando hirto e inanimado jaz como cadaver sepulta-o, na indifferença do mais torpe egoismo, e vem á beira do circo, onde se degladiam os homens, que outr'ora foram irmãos, e que as leis do progresso já dividiram em bandos oppostos—busca, ahi, a phalange reaccionaria, a que estacionou, a que receou caminhar, fascina-a, pela mesma fórma, apodera-se d'ella, envolve-a na infinita rede, e nos tenebrosos tramas do seu sinistro mysticismo, até que uma nova evolução social, por seu turno, despedace este elo historico, e o arremesse para a noite dos tempos.
É por isso que o povo, na grandeza dos seus instinctos, e nos periodos solemnes das suas transformações—quando as leis inexoraveis, que regem a humanidade o impellem e obrigam fatalmente a caminhar—encontra-se só, entregue ás suas proprias forças, e ao luzeiro do seu destino.
Os chacaes, as hyenas, e os corvos vem, depois, pela calada da noite, devorar, no silencio das trevas, os cadaveres dos que pereceram nos campos da peleja.
Mais tarde aboliram-se as communidades religiosas, annullaram-se as doações dos bens da corôa e ordens, quebraram-se todos os privilegios e collocações obrigadas na magistratura, na Igreja, na administração publica e no exercito, cercearam-se os lugares do paço, simplificaram-se as leis dos foraes, abriram-se tribunaes communs para todos os cidadãos, creou-se um systema uniforme de julgar, acabando com as provisões regias, fóros privativos, e decisões especiaes, finalmente a nobreza conservou os titulos e os cargos honorarios, mas ficou igualada em direitos e deveres a todos os outros homens.
O imperante perdera—pelo menos na apparencia—o moto proprio e a sciencia certa, com que representava a divindade, entregando aos poderes consignados, na carta, a harmonia da vida constitucional.
*
* *
Quando o relógio da cadêa dava nove horas, entrava, no meu quarto, um fachina das salas do Limoeiro com o manuscripto do carrasco. Elle não podia vir. Sentia os primeiros symptomas da enfermidade de que morreu.
Escreveu-me um bilhete, que ainda conservo. Dizia-me que viria, mais tarde, saber o que eu pensava da sua vida tão dolorosa e tão angustiada.
Conservo o bilhete e o manuscripto.
Vou confiar ao leitor os segredos d'alma d'esta existencia excruciante e afflictiva, que pereceu no fundo d'uma enxovia.
VISCONDE DE OUGUELLA.
[29] Este e outros capitulos virão a lume, mais tarde, quando a occasião fôr opportuna.
[O HORROR DA DEMENCIA]
Rachel Varnhagen, insigne allemã, esposa do grande escriptor do seu appellido, escrevendo a Frederico de Gentz, dizia: «Tres grandes cousas me horrorisam n'este mundo: 1.ª uma manada de touros bravos; 2.ª a plebe; 3.ª a demencia.»
A demencia é mais triste que horrorosa. Os que a padecem, se soubessem a compaixão que inspiram, seriam ainda mais desgraçados,—se desgraçados são os que não tem a consciencia de o serem.
D. Domingos de Magalhães, o arcebispo de Mitylene, morreu, quando a fome voluntaria o acabou de matar. Não houve razões de amigos e de theologos que o movessem a tomar um pouco de alimento. Não dava explicação, sequer insensata, da sua rigorosa abstinencia; mas, entre os seus manuscriptos, se nos depara tal qual luz, consoante ella se póde desferir das profundas trevas.
Diz assim um capitulo intitulado O Impassivel:
«A impassibilidade ha de ser a futura condição do homem santo que seria semelhante ao cadaver; a natureza corrompida e degenerada é a séde da dôr e da molestia, porque a sua sorte e futuro destino será a maxima degeneração do ente, ou a regeneração e renovação do servo, que o Senhor creou, e collocou no paraiso.
«Existe na sciencia theologica um paralogismo, que convém decifrar e resolver: a cada passo ouvimos dizer que o homem mau não morre, e que a sua sorte é a morte eterna: a questão está só na dicção e na phrase; é uma amphibologia ou questão de palavras. O homem mau não aceita a morte voluntaria para expiar a pena do peccado; e, como resiste ao decreto da divina misericordia e graça, não morre para resuscitar, não se regenera, perverte-se e corrompe-se cada vez mais.
«O homem santo mata o corpo natural para receber o eterno, perde o maculado para conseguir o immaculado, troca o barro pelo ouro, e corôa-se com o martyrio do sangue e do amor, ou com o diuturno da penitencia e da santidade. Toda a vida humana deve ser um martyrio, ou um aggregado de virtudes e de qualidades equivalentes. O homem mau tenta conservar o fumo, que o asphyxia no inferno, não se mata nem resuscita, perverte-se e degenera, corrompe-se e materializa-se cada vez mais.
«O primeiro homem morreu no paraiso, mas conservou o cadaver da galvanisação eterna; o segundo homem perde-se no exilio, aonde morrem todos os que o preferem á patria, e renuncia-o ás suas saudades, amor e realeza.
«O homem mau tem duas degenerações: a primeira materialisou-o, a segunda ha de bestialisal-o a desfigural-o, privar o ente de suas esperanças, promessas, e de toda a gloria, fraternidade e bemaventurança eterna.
«A regeneração faz o homem impassivel, e opéra muitas vezes em vida os seus beneficos e maravilhosos effeitos. O paraiso ha de exaltar e acrisolar estas sublimes virtudes, porque a humanidade santa ha de seguir até ao fim dos seculos e das gerações e conquistar pela divina misericordia todos os dotes sobrenaturaes dos corpos gloriosos.
«O homem santo será impassivel, sem dôr e sem temor, superior á natureza, e semelhante aos anjos, e comtudo pagará o seu tributo á morte por uma diuturnidade de provas pela penitencia e pelos votos mais solemnes e agradaveis ao Senhor, e por todos os sacrificios que podem exagerar e exaltar a virtude do homem.
«Muitos santos conseguiram em vida alguns dotes de impassibilidade; os authores pouco versados na sagrada theologia e nos seus arcanos, ousam asseverar que a dôr e a fome, a morte e as tribulações são consequencias necessarias da natureza humana por ser limitada, contingente, e passageira: se dissessem, que são consequencias immediatas da natureza degenerada, e penas propostas pelo Senhor ao reato, do peccado original, diriam a verdade, e fallariam ou escreveriam com exactidão, com logica e coherencia de principios.
«Se bem me lembra, Antonio Genuense cahiu no erro dos que mettem a fouce na seara alheia sem conhecimento de causa, sendo em geral mui prudente e avisado.
«S. João Baptista não bebia vinho nem cerveja, comia mel silvestre; o Stylita comia um bocado de pão só aos domingos, e permanecia sempre fixo, immovel, e levantado sobre a sua columna de dia e de noite, de verão e de inverno, annos e lustres por divino milagre.
«S. Paulo Eremita era sustentado por um corvo, comia diariamente só o que a ave do agouro podia trazer no bico, era um bolo do céo: os exemplos são innumeraveis: todos provam que a humanidade santa ha de conseguir no paraiso até o fim a impassibilidade da dôr e da fome; porque no céo não se come: os maus soffrerão lazeira e esuria no inferno, porque o mundo está condemnado ao fogo e á perdição.
«Estas verdades são dogmaticas; os herejes negam todos os milagres do divino martyrologio da santidade; obrigam-nos a fallar de nós: quando chegar o tempo da maxima profanação humana, o fiel regenerado beijará a mão que o sacrificar pelo martyrio, e desejará com elevada ambição receber pessoalmente a sua corôa em vez da outorga na communhão e na sua geral misericordia; o que se coroar pelos seus esforços, e pelo odio da tyrannia será mais ditoso e mais laureado: a morte é uma pena para o que recusa pagar a divida eterna; o que paga voluntariamente expia pelo amor divino a maxima gravidade do castigo e consegue a sua impassibilidade: o martyrio é uma virtude de communhão, as suas provas serão cada vez mais faceis e mais suaves para os santos pela união com Deus. No paraiso será um sonho e um devaneio, um magnetismo e uma transmigração voluntaria.
«A impassibilidade, a virgindade, a geração espiritual, o desejo e o voto do martyrio, o jejum completo, ou as aspirações da abstinencia e da penitencia hão de ser frequentes e geraes, admiraveis e sobrehumanas na divina providencia do paraiso: convém persuadir estes desejos e esforços, para que ninguem desanime, ou recuse a reconquista da perfeição e da pureza por julgar impossivel ou difficil o transito, ou aspero e intratavel o caminho que conduz ao summo bem.
«Eu tomei rapé com excesso por espaço de vinte annos, por conselho de medicos, e por habito, gosto, vicio ou paixão, quando principiei em Lisboa o culto soberano do sagrado lausperenne ao Santissimo Sacramento no anno de mil oitocentos e cincoenta e oito; era eu só para o exaltar, não tinha acolyto, nem ministro, dizia missa diaria, adorava duas vezes por dia com treze luzes de cera sendo uma só de azeite, rezava o officio divino, escrevia, trabalhava, compunha, e via-me na necessidade de vigiar de dia e de noite as luzes de cera e azeite que ardiam diante da divina magestade do Santissimo, e de lavar a casa da minha basilica; e por isso dormi poucas horas, e sempre vestido no decurso de dezeseis para dezesete mezes de continua e incessante adoração, sem uma falta, e deixei o uso do rapé por decencia e reverencia até o dia de hoje sem quebra, e sem perigo, sem saudade e sem pezar.
«Minha mãi mandou pôr á minha disposição um bote de rapé no anno de 1860, em Villa Pouca, aonde eu já não adorava, nem podia dizer missa: o rapé esteve na gaveta mais de um anno; eu nunca mais abri o bote e padeci grandes dôres de dentes, que me determinaram a extrahir alguns a ferro; quando fui ao Porto offereceram-me rapé, eu não aceitei.
«Eu vivia parcamente, mas a minha mesa sempre foi abundante e até lauta; jejuava e comia carne nos dias permittidos, o melhor peixe e guisados, e todos os appetites que a boa mesa offerece: eu não procurava os seus regalos, mas não repellia nenhum dos permittidos: agora faço penitencia, e não como carne nem peixe ha mais de oito annos. Em 1860 comi carne algum tempo em pequena quantidade, mas logo a deixei e todo o peixe até agora: passei mais de um anno só com um quartilho de leite por dia e com menos de quarenta reis de pão, e com um arratel de assucar chegava para treze dias até dezeseis.
«Nunca fui apaixonado do vinho, mas não o repellia inteiramente; agora não bebo vinho, nem bebida espirituosa ha annos. Como por dia menos de 40 reis de pão, jejuo tres dias por semana, ás quartas, sextas e sabbados, e ha mais de tres annos ainda não faltei a esta disciplina de jejum nem nos dias de jornada.
«Nos outros dias tomo um café com leite, um vintem de pão, e uma quarta de assucar chega para cinco dias, e diminuo a minha sopa que consta de uma dóse de arroz com manteiga, ou com azeite segundo o dia; um arratel chega para cinco dias, e ás vezes para seis: á noite como um bocado de brôa ou de pão.
«E com esta disciplina e regular dieta trabalho, rezo, escrevo e medito ha muitos annos sem descançar nem um dia e sem interromper o trabalho, que executo de joelhos por divino milagre, ha quantos annos?
«As obras escriptas respondem por nós: muitos dias de inverno principiei a trabalhar ás duas horas da noite, e continuei a minha tarefa até ás duas horas dos seguintes, empregando mais de dezoito horas no afão da escriptura. Escrevo e rezo sempre de joelhos, e sustento-me n'esta reverente posição por mais de doze horas, dias e mezes successivos haverá um lustro, por estar na divina presença.
«A impassibilidade é o presagio do paraiso. Lucifer e a sua maldita confusão e degeneração ha de receber a honra da morte e todas as dôres que causou á humanidade com o peccado original por haver seduzido nossos paes no paraiso das delicias.
«Nenhum peccado ficará sem pena eterna, nenhuma dôr ha de extinguir-se ou aniquilar-se, perder-se, ou evaporar-se: o que é causa da causa é causa de todos os effeitos e consequencias.
«A crueldade antiga em vez de matar os reis legitimos castrava-os, tirava os olhos a outros ou punha mascaras de ferro: a actual das seitas vendeu-me para me occultar a minha genealogia e direito, e obrigou-me a seguir o estado ecclesiastico para me castrar: os seus vicios foram mais impios do que os antigos, e converteram-se contra os insanos.
«Eu seguia o estado ecclesiastico com amor, e aprendi a defender o meu direito na época propria e quando convinha: sou mal por ser do paraiso.
«Toda a minha vida é um milagre diuturno: os monstros jámais poderam privar-me da existencia; as suas conspirações são incessantes, geraes, concentradas, diabolicas e perfidas.
«No dia dez estava para escrever a bulla quinta e não sabia sobre que havia de legislar: abri ao acaso o sagrado concilio de Trento, sahiu a sessão vigesima segunda que falla em legados apostolicos, que é o objecto da referida bulla.
«No dia oito resolvi metter sete folhas no caderno das leis, e inclui por engano só seis folhas, e chegaram e não cresceu o papel: no dia nove metti as sete folhas, e aconteceu o mesmo milagre: todas as leis e bullas são originaes sem borrão, ou copia.
«Deixo o soberano titulo no alto da folha; no dia nove aconteceu ficar em branco a lauda que precede a ultima bulla por defeito ou imperfeição do papel, e foi razão para que não crescesse, nem faltasse.
«Tenho quatro pennas de ave em exercicio de escriptura, uma é negra, e escrevo o «Impassivel» com esta: no dia nove escrevi com as quatro pennas; duas estavam já refugadas, duas eram novas, duas appareceram a um canto: eu já mandei procurar mais pennas mas não apparecem á venda: escrevo, com dous vintens d'estas pennas ha mais de quatro mezes, e com dous vintens de tinta ha mais de meio anno, e quebrou o vidro, aliás seria como a panella inexhaurivel de Elias: o resto da tinta está em um pires de porcelana que serve de tinteiro; eu só tenho dous pires, e duas chavenas.
«No tempo da usurpação de D. Miguel uma senhora chamada Rosa deu-me a effigie do tyranno, eu dei-a em Villa Pouca a um homem affeiçoado á tyrannia; o marquez de Lavradio deu-me uma veronica da Santissima Virgem Immaculada em Lisboa no anno de mil oitocentos e cincoenta e cinco, eu dei-a em Villa Pouca a uma senhora chamada Rosa.
«Visitei em Bemfica, como deputado da universidade de Coimbra, a supposta infanta D. Isabel Maria, a qual não me pagou a visita; uma irmã de Eiris visitou-me em Villa Pouca, eu fui a Eiris, e não a visitei.
«Fiz algumas visitas á supposta imperatriz do Brazil, falsa duqueza de Bragança a rogo e instancias de varios mordomos ou agentes da sua casa; a cruel jámais ousou levantar os olhos para nós: quem pagará ou satisfará estas dividas de amor e de reverencia?
«Depois que estou em Chaves vi duas raposas mortas, uma femea em Santa Maria Magdalena, um macho em Santo Amaro; tenho duas vassouras, fui servido desde o anno de mil oitocentos e sessenta por duas criadas mulatas, uma em Villa Pouca, irmã do burro cruel, outra nos banhos do lugar de Carção ou de Arcozelo: fui servido por duas criadas filhas da viuva, uma de Montenegrelo, outra de Chaves, aquella deu-me um guarda-chuva para a jornada que eu dei a esta, e dei um lenço de sêda á criada de Montenegrelo: já bati em duas, uma fugiu e não levou.
«Hontem veio o homem do leite no momento em que eu acabava a oração da manhã: hoje repetiu o mesmo mysterio.
«José Joaquim dos Reis, juiz de direito de Lisboa, condemnou a dez annos de degredo um energumeno que dizia missa e prégava sem ter ordens, e denunciou-me a simonia que o abominavel patriarcha Guilherme commetteu em Roma: n'aquelle tempo não havia em Lisboa prelado legitimo; eu argui o antipapa, e declarei energumenos todos os seus tonsurados: o falso padre gerou todos os actuaes, mas a sua sorte ha de ser diversa: os herejes amnistiaram o nefando, não podem absolver os traficantes.
«O perfido Cassiomano fallou-me cinco vezes, duas nas Necessidades, e uma em Mafra, são dous paços reaes, outra no paço das escolas, da universidade são dous paços de escolas: porque Mafra é escola militar: esteve commigo duas vezes na academia de Lisboa, no collegio dos Nobres, e no convento da academia, são duas academias, ou mais: uma em Coimbra outra em Lisboa, uma nos Nobres, outra no convento da academia das sciencias, duas de ensino, e duas normaes: porque o militar goza d'esta categoria em relação ás escólas do exercito, duas em Lisboa e duas fóra de Lisboa.
«São cinco e seis vezes: porque eu fallei uma vez ao monstro nos paços da universidade como provedor da misericórdia; elle mandou-me um recado á misericordia de Chaves pelo Antunes e pelo provedor.
«O dualismo é uma graça; a perfidia é uma abominação e um horror.»
[RESTAURAÇÃO
DE
UM DOCUMENTO HISTORICO VALIOSO]
Rebello da Silva, na sua Historia de Portugal, reportou-se a um documento que o snr. Ferdinand Denis encontrára na bibliotheca real de Paris, relativo á historia dos motins sequentes á perda de D. Sebastião, e publicára no Portugal pittoresco.
O nosso historiador não trasladou o documento, com quanto fosse importante. E ajuizadamente procedeu; porque, sendo elle versão do portuguez, difficil senão impossivel seria revertel-o á fórma original. Poderia Rebello da Silva pedir o fiel traslado d'esse papel, incluso no codice n.º 10:241, e dal-o no corpo da sua historia, como testemunho das velhas regalias populares nas crises grandes de Portugal; mas dependendo isso de esmeros, pausas e minudencias que se descasam da indole peninsular, o documento ficou desconhecido, apesar da traducção do historiador francez.
E, não obstante correr ahi uma versão miserrima do Portugal pittoresco, o documento alli reproduzido incute suspeitas de falso, porque não tem, no torneio e na phrase, algum vestigio do dizer portuguez de 1579.
E, todavia, não posso já duvidar que Martim Fernandes, sapateiro, e Antonio Pires, oleiro, no 1.º de junho de 1579, estando os fidalgos reunidos na igreja do Carmo para jurarem fidelidade ao cardeal-rei D. Henrique, entraram ruidosamente na assembléa, e proromperam pedindo que lhes ouvissem a falla que iam fazer em nome do povo de Lisboa.
E não duvido, porque sei o que foi a liberdade portugueza até que D. João IV começou de a jarretar á feição do seu genio despota, e porque tenho presente o discurso do mestre sapateiro, escripto ainda no mesmo papel onde lh'o deram para o decorar.
E como é bem cabido mostrar o original em face do retraduzido no Portugal pittoresco, sob palavra do snr. Ferdinand Denis, aqui os defronto, e ponho como advertencia aos que aceitam, sem critica, a historia que nos vem de torna-viagem.
| ORIGINAL | VERSÃO |
| Senhores. Temos sabido que algumas pessoas principaes e nobres descuidadas de suas obrigações e honras fallam de fazer cousas contra o bem commum e seguridade d'estes reinos, a que determinamos de acudir como bons portuguezes, e lembrados do que fizeram os moradores d'esta cidade no tempo d'el-rei D. João I e d'outros reis, por tanto pedimos a vm.ces como a cabeças e membros principaes d'esta republica que nos ajudem e que não percam sua honra e direito por parcialidades nem preitos particulares; que sejam vm.ces certos que para uso e para defensão de nosso direito e castigo dos inquietos portuguezes estamos promptos com 20:000 homens d'esta cidade e seus termos, os quaes ajuntaremos em duas horas sendo necessario, e poremos fogo ás casas dos que já agora começam de fallar e tratar contra o bem commum e socego d'estes reinos, o que não poremos em execução em quanto esperamos castigo e remedio por outra via. E pareceu-nos que deviamos de fazer esta lembrança n'este estado e nos outros dous para com mais seguridade tratarem todos do bem commum e quietação d'estes reinos sem receio de força nem violencia nem outros medos cautelosos e prejudiciaes, e para se não ouvir mais d'aqui por diante os que impossibilitam tudo sem lhe darem nem procurarem remedio, os quaes todos se deviam e devem de haver por mais suspeitosos. | Senhores. Consta-nos que varias das principaes pessoas, e alguns nobres, esquecidos das obrigações a que estão ligados, e fazendo da honra pouco cabedal, usam de uma linguagem, e praticam actos contrarios á segurança d'estes reinos. Como bons portuguezes estamos decididos a dar remedio a este mal, porque nos lembramos do que fizeram os habitantes d'esta cidade no tempo de D. João I, e no de outros monarchas. Rogamos a vossas senhorias, como primeiras pessoas da republica, que a ajudem a sustentar; e que não percam a sua honra e direito, dando orelhas á parcialidade, ou olhando a circumstancias particulares de alguns individuos. Podem vossas senhorias ficar certos de que para a defensa de nossos direitos, e castigo dos portuguezes versateis, estamos promptos a levantar-nos com 15 ou 20:000 homens d'esta cidade, e seus arredores. Se fôr necessario, duas horas bastarão para os reunir, e iremos incendiar as habitações dos que começam a fallar e a obrar contra o bem geral. Com tudo, não recorreremos a taes meios em quanto tivermos esperança de obter remedio e castigo por outro modo. Talvez conviesse lembrar isto ao estado da nobreza, assim como aos dous outros estados, para que toda a assembléa trate com plena segurança, do bem commum, e da tranquillidade d'estes reinos, sem temor da força, violencia, e de meios preventivos ou damnosos. Esperamos que mais se não attenderá á voz dos que julgam tudo impossivel, e que não querem dar nem procurar remedio a semelhantes males. |
O traductor, como se viu, não lhe soffreu o melindre que os dous populares tratassem de vossas-mercês os fidalgos, safados (duas vezes) á cobarde ignominia de Alcacer-quibir: deu-lhes senhoria. Ah! bom relojoeiro de pag. 57!
[A DANÇA]
Gemem os prelos desde que a moral geme nos bailes.
Ha lendas medonhas, casos que eriçam os cabellos, castigos infligidos a dançarinos. Leiam na Floresta do padre Manoel Bernardes a lenda dos Bailarinos. Pois ainda ha passagens mais escandalosas e funestas, por causa das danças; mas já não ha quem as apregôe com virtuosa ira. Não ha ninguem que, ao outro dia de um baile, clame na local ou no folhetim que um scelerado ousou inclinar-se ao ouvido da donzella com quem dançava, e dizer-lhe: vêr-te e amar-te foi obra de um momento. Sabem todos que as phrases assim ardentes queimam as senhoras; mas ninguem propõe que os estylistas d'esta força sejam chamados ao commissariado; ou que as damas sujeitas a ouvil-os se vistam de amiantho, se Deus as não fadou com a virtude incombustivel de salamandras.
Verdade é que o transigir com os maus costumes vem de longe. Temos o exemplo de exemplares varões a quem competia pôr cobro aos bailes. Aqui tenho eu um Tratado dos principaes fundamentos da dança, publicado em 1767, pelo mestre d'aquella viciosa pantomima, Natal Jacome Bonem, e licenciado pelo santo officio, e pelo ordinario! Fr. Caetano de S. José, eremita augustiniano, doutor em theologia, provincial da ordem, etc., foi o encarregado de censurar officialmente o manuscripto do Tratado da dança. Se este frade estivesse no prumo da sua missão, deixava-se cahir, com todo peso de sua gravidade, sobre o mestre Natal, e esborrachava-o e mais ao incendiario manuscripto.
Com bastante pejo das fraquezas d'este proximo, e para escarmento de futuros frades censores de futuras danças, reproduzo a opinião de fr. Caetano de S. José:
«Não me envergonho em obsequio do meu estado confessar ingenuamente se não estendeu para a arte de dança nem ainda a curiosidade dos meus estudos: sei que algumas especies d'esta mereceram no estabelecimento da disciplina ecclesiastica uma bem severa reprehensão e merecida prohibição fundada na solemne profissão que fazem os que pelo sacramento da regeneração se formam membros vivos de Jesus Christo e filhos espirituaes da santa Igreja; não ignoro tambem que outras tem o justo louvor com o exemplo de um rei santo como David, dançando na presença da arca do testamento. Se os preceitos da presente arte, expostos na verdade com toda a modestia se ordenarem para o uso d'estas e outras de semelhante decencia e honestidade, nem serão oppostos á santidade dos costumes, assim como o não são aos pontos essenciaes da nossa santa fé. É o que posso informar, etc.»
Então que é o que informou o frade? Parece dizer que, se esta Arte de dança leva em vista ensinar a bailar o sarambeque que o santo rei David dançava adiante da arca, então sim, publique-se o livreco; mas, se o author intenta regambolear as tibias de suas discipulas em gavotas, cirandas e outros bailados lubricos, n'esse caso o santo officio delibere o que lhe parecer.
Ora eu já vi, em Braga, dançar o santo David. Era um cancan a só, um requebro desnalgado, um alçar de perna bruta e rija que, se apanhasse a arca, daria com ella na cara do sol.
Voltando ao livro do francez Natal Bonem, acho n'elle excellentes preceitos de educação que seriam, em substancia e fórma, bem cabidos n'um dos compendios do snr. João Felix Pereira. O cap. VI, por exemplo: Do modo que as senhoras devem andar, e se deve apresentar. (Vê-se que era mais forte em dança que em grammatica). Ahi vai o capitulo na integra. É lyrico, delicado e muito de aproveitar:
«Não duvido, que se me accuse de ignorante, e de indifferente, ou de não saber ensinar, senão aos homens; senão mostrára zelo, e attenção para a instrucção do bello sexo: ellas, que são a alma da dança, e que lhe dão todo o brilhante, que ella tem; e parece que a natureza a reveste de mais graça; porque sem a presença das senhoras a dança não está tão animada; são ellas as que fazem nascer este ardor, e nobre emulação, que se encontra entre ellas, e em nós, quando dançamos ambos, principalmente com aquellas, que executam bem este nobre exercicio; nada me parece mais agradavel em uma companhia, que de vêr dançar duas pessoas de um e outro sexo com seriedade; que de applausos, e que de gostos para os circumstantes.
«Independentemente do que se tem dito em os capitulos precedentes, que tóco igualmente a um, e a outro sexo? as mesmas reflexões são necessarias para as senhoras, ellas devem voltar os pés para fóra, estender os joelhos, ainda que muitas pessoas pretendem, que não se lhes conheçam estes defeitos, mas por tirar este engano, principalmente para as senhoras moças, que por desmazelo, ou pouca curiosidade o não façam; não quero senão o seu proprio voto, que se ponham diante de um espelho de vestir, e que ellas andem alguns passos, observando o modo de bem andar, que está escripto para os homens, e se encontrarão com outro ar, e conhecerão, que de ter a cabeça direita, o corpo fica com maior firmeza, e os joelhos estendidos, os passos são mais seguros; tenho feito uma reflexão, que me parece muito justa sobre o modo de saber levar bem a cabeça, e é que uma senhora por muito engraçada, que seja em seu modo de levar a cabeça, fará julgar differentemente de si, v. g. se ella a levar direita, o corpo bem posto, sem affectação se dirá; eis aqui uma senhora, que tem um ar muito nobre; e se se deixa ir com negligencia, se lhe chamará preguiçosa; se a deixa cahir para diante; bizonha, e se a leva muito baixa, de pensativa, e de vergonhosa; e outras muitas cousas, que não escrevo por não ser proluxo: desejo que todas as senhoras não façam o modo facil, que se vem descrever, para que não cáiam em nenhum dos defeitos, que tenho recitado.
«Para bem andar é preciso ter a cabeça direita, os hombros baixos, os braços retirados para traz, acompanhando bem o corpo; mas dobradas, as suas mãos uma em cima da outra, com um leque na mão, e principalmente sem affectação.»
Não escrevia em estylo apocalyptico.
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* *
Este francez que tanto polira e lapidára o bruto diamante das damas lisbonenses da côrte de D. José I, tinha uma filha esbeltissima, engraçada de todos os amavios francezes, e muito esquiva aos amores dos discipulos de seu pai, até á hora fatal em que o pé, n'um difficil passo de minuete com o deus frecheiro, lhe escorregou em ladeira de flôres, e... ella lá vai com o conde-barão d'Alvito embrenhar-se nas florestas de Cintra.
O mestre de dança bravejou, pediu vingança ás leis, ao direito internacional, ao ministro omnipotente Sebastião José de Carvalho. O ministro e as justiças sorriram, sob capa, do atribulado dançarino. O marquez de Pombal, esse então era tão caroavel de francezas, que ainda, aos 60 e tantos annos, escrevia epistolas amatorias a uma, que por signal lh'as rejeitava com phenomenal honestidade. Veja Historia do reinado d'el-rei D. José, pelo snr. Soriano, tom. II, pag. 649 e seg.
Natal Jacome Bonem sahiu de Portugal, e deixou a filha, quando, sobre a affronta, se viu ridiculisado pelas seguintes coplas que os fidalgos enviavam uns aos outros:
AO ROUBO DE UMA FRANCEZA FILHA DO MESTRE DOS MINUETES
O poema d'aqui por diante leva a crueza até ao despejo da phrase. Que tempo aquelle! Costumes de ouro! Roubava-se a filha a um forasteiro, injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas, a vergasta da irrisão obrigava-o a transpôr as fronteiras com o coração despedaçado! Reinava D. José I, o amante da marqueza de Tavora, então viuva, e já consolada da perda do marido, que o amante lhe mandára degolar e queimar no cadafalso de Belem. Como este Portugal floreceu n'aquelles dias! O erario a trasbordar de milhões e os subterraneos de lagrimas!
Comecei com danças e acabei com lagrimas. É no que as danças param ordinariamente. Ou ellas não fossem invenção do diabo, como diz o meu oratoriano Bernardes.
[FIM]
O n.º 12 finalisa a serie das Noites de insomnia. O favor publico esquivou-se a proteger esta empresa. Parte dos artigos publicados desagradou á maioria dos subscriptores queixosos do ranço de cousas antigas com que eu pejava as paginas de uns livrinhos mais acommodados ao recreio que á instrucção de alguns leitores mais ou menos ignorantes, se os ha.
Verdade é que eu não tinha promettido 100 paginas futeis e risonhas por mez. Lá está no 1.º numero um proemio claro e modesto. Afoutamente me desvaneço de não haver deslisado do programma a que me obriguei. Esta serie de livrinhos—escrevi eu—ha de ser uma cadêa com elos de bronze rijos e toscos, e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços. O bronze é a porção prestadia do opusculo, etc.
Enganei-me.
As paginas arguidas de enfadonhas me pareciam a mim as melhores e mais estimaveis, se os que as leram as ignoravam; todavia, se eu dei como novidade em historia o que era já notorio ao leitor enfastiado, o seu tedio é natural e racional. Porém, se me replicam dizendo que se dispensam de saber as pulvereas velharias que eu lhes contei, augmenta a justiça do seu queixume; porque ninguem deve directa ou indirectamente offender a ignorancia de outrem.
Pelo quê, a todos peço desculpa, e a meu favor entremetto a illustre pessoa que me induziu a salvar da obscuridade lances da historia e dos costumes portuguezes, que se me prefiguraram prestantes na concatenação de factos, desligados por mingua de documentos desconhecidos. O mestre venerando que me moveu a não ser de todo em todo frivolo nas Noites de insomnia chamou-se n'este mundo D. frei Manoel do Cenaculo; e as palavras que me seduziram estão impressas e rezam assim:... Mil occorrencias funestas tem precipitado em um abysmo de perda profunda, escura, irrevogavel os trabalhos litterarios, e ainda a simples memoria de muitos varões sabios. Abateram esses miseraveis tempos as forças da curiosidade, que poderia hoje augmentar a estimação da bibliotheca lusitana, escondendo e perdendo as nossas noticias. Este é o defeito de que ainda hoje se póde formar uma justa queixa, e que fazem ignorados na verdade innumeraveis documentos, capazes de acrescentar a dignidade á nossa historia. Isto é tambem o que me excita e commove a rogar instantemente aos meus patriotas por tudo quanto é capaz e digno de não se desattender sem affronta, que se animem a publicar quanto nos faça gloria, e a mostrarem cada vez mais illustre a face dos nossos annos antigos.
O douto prelado não conhecia os seus patriotas, e eu, que tão arredado vivo d'elles, ainda os conhecia menos.
Na minha pequenissima livraria ha muitos ineditos cuja publicidade não seria despecienda aos porvindouros historiographos. Ahi ficam. Meus filhos, se tiverem juizo, e armarem á benemerencia dos seus conterraneos, que os vendam a peso.
Não obstante, alguns publicistas receberam benignamente as Noites. Entre esses, realça com particular authoridade e voto o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, protector caroavel e affectivo de quantos n'este paiz grangeam pão ou gloria nas lidas litterarias. Sei quanto me cumpre descontar no merito da obra elogiada, cortando tambem pela demasiada benevolencia do escriptor eminente; mas, cerceado o que ahi houve de favor, ainda me sobeja muito para gratidão e ufania.
Ao snr. visconde de Ouguella agradeço com mais sentimento que expressões as paginas formosissimas que interpoz n'estes opusculos. O Carrasco, apenas começado, se aqui fosse concluido, viria a dar crescido valor a esta collecção; entretanto, muito grato me é ter excitado a curiosidade das pessoas intelligentes para que o visconde de Ouguella se obrigue a escrever e publicar um dos livros mais assignalados de independencia austera e sentimentos generosos, que hão de ter galardão, quando os que pelejaram sob o labaro da justiça forem chamados a testemunhar no pleito que segue o seu arrastado processo entre opprimidos e oppressores.
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Ao despedir-me dos poucos subscriptores que me apertam a mão com estima e por ventura com saudade, vou fazer-lhes uma revelação que póde desairar a minha vaidade de escriptor, mas que muito faz em honra do editor das Noites. Elle soube que a opinião publica desmentia, dormindo, o titulo da obra. Sabia que a insistencia na publicação lhe era prejudicial e desesperançada de tardio reembolso. Em fim, pagava despendiosamente e silencioso a minha dôce illusão de cuidar que entre Ponson e Escrich haveria lugar para estas brochuras nas estantes ou nas canastras de tanta gente que sahiu triumphal e erudictamente do seu exame de instrucção primaria.
Meu prezado snr. Ernesto Chardron, obrigado á sua rara e fina delicadeza!
Se as Noites lhe foram más, eu d'este leito de rheumatismo lh'as envio boas e do coração.
FIM DO 12.º E ULTIMO NUMERO