I
Vi esta morgada, ha tres annos, em Braga, no theatro de S. Geraldo.
Estava em scena Santo Antonio, o thaumaturgo. A commoção era geral.
Tanto a morgada, como seu marido, o commendador Francisco José Alvarães,
choravam, ás vezes; e, outras vezes, riam se.
Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras unctuosas e joviaes dos quarenta annos sadíos, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.
Riu-se a morgada quando aquelle Santo Antonio do seculo XIII recitou ás raparigas uma poesia madrigalêsca de Braz Martins,—bom homem que esteve quasi a regenerar o theatro nacional como elle deve ser. A poesia resava assim n'esta prosa innocente:
Mimosa nasce a flor e vive ainda,
Se arrancada não foi logo ao nascer;
Assim a virgem nasce e vive pura,
Se o vicio não trabalha p'ra perder.
Et coetera, com a mesma uncção e musica.
A morgada sorrira-se para o marido; e elle, para mostrar que tambem percebera o chiste, formou um tubo com os beiços carregados de chalaças mudas, e disse com atticismo velhaco:
—Versalhada…
Ora, a morgada de Romariz, lagrimando com intelligencia na proza da oratoria, assim que algum personagem pegava de rimar, ria-se. Persuadira-se de que a missão dos versos era como a das cocegas. A natureza dera-lhe ao espirito aquelle feitio.
Remirei-a de esconso por sobre a espadua do esposo.
Ella bocejava nos entre-actos, até mostrar as campainhas; elle tosquenejava, e ás vezes, espriguiçando-se, grunhia:
—Estou massado.
—Podera…—obtemperava a esposa—a comedia bonita é… mas não ha nada como estar a gente na sua cama, Zézinho!
E dava tons lubricos ao diminutivo.
—Quem me lá dera…—volvia Alvarães deslocando as botas e dando folga e frescôr aos pés no aprazivel tunel dos canos.—O polimento estorcéga-me os calos…—queixava-se com azedume.—Comedias… Ora adeus! Patranhas…
—Modos de vida, homem…
E abriram juntos as boccas spasmodicas.
—Ao menos se eu viesse ceado…—dizia elle.
—Fizesses como eu…
—Não me cabia cá…—e batia com os dedos dobrados no alto ventre como se faz ás melancias suspeitas.
—Já agora hemos de vêr a scena da gloria que é o mais bonito…—opinava a esposa.
N'este comenos, visitou-os um meu conhecido de Famalicão. Ao erguer o panno, sahiu de lá, e entrou no meu camarote. Foi elle quem me disse o nome das duas pessoas, accrescentando:
—Ali, onde a vê, tem romance; dá materia para dois tomos…
—Picarescos? Não me servem… Eu quero philosophia: os meus leitores querem philosophia, percebe o senhor?
—É o que ella tem mais que dar.
—Ora essa!… O senhor sabe que ella tem isso? Queira apresentar-me…
—Deus me defenda… Eu disse á morgada que vossê era romancista…
—E ella que disse?
—Riu-se.
—Riu-se!? É boa… E o marido…
—O marido disse: Arreda!