IV

O pedreiro ainda vira o visinho a safar-se da sua testada.

—Que fazia aqui o Luiz Meirinho?—perguntou elle carranqueando.

—Nada: conversavamos…

—Eu cá á minha porta não quero coversas com ladrões, ouviste?

—Ladrões!… O Luiz não me consta… que…

—Passa tu na Terra Negra com dinheiro de modo que elle t'o bispe, e lá verás quem é o Meirinho. Hade haver tres annos que deixou o officio que rendia pouco; e, desde que não tem officio, comprou casa, tem cavalgadura, trata-se á regalona, come carne do açougue, e bebe do da companhia. E eu, que trabalho ha bons quarenta annos, custa-me a amanhar para uns feijões, e bebo agua da fonte.

—O sr. pai assim o quer…—atalhou Joaquim entre receoso e risonho—Perca o amor ás peças…

—E tu a dar-lhe!…—volveu iracundo o pedreiro—Já te disse que as procures!… Não herdei nada! não herdei nada!—e berrava convulsionado freneticamente, sacudindo os braços.

—Não grite assim que não faz mingua barregar!—atalhou o filho—A gente está conversando… ás boas… ein?

No aspecto do Faisca resumbravam sentimentos pouco filiaes. A ironia franzia-lhe os cantos dos beiços, ao mesmo tempo que a ira lhe avincava a testa. No ar com que se sentara na arca, dobrando o corpo e bamboando as pernas em gingações de tarimba, denotava quebra de respeito, e disposição a questionar faceiramente com o velho.

—Com que então…—proseguiu Joaquim—Vossemecê não herdou tres mil peças?

—Não!—bradou o pai—Não! com mil diabos (Deus me perdôe), não!

—E se eu lhe mostrar a copia do testamento…—volveu Joaquim esbolhando os olhos, abrindo a bocca, e pondo fóra a lingua em todo o seu comprimento—Que me diz vossemecê, sr. pai? se eu lhe mostrasse a copia do…

—Tu acho que vieste cá para dar cabo de mim!—interrompeu Bento, desentalando-se da sua afflicção por aquella estupida replica—Amaldiçoado sejas tu!…—E, com os dentes cerrados, e as mãos na cabeça, ia e vinha da lareira para a porta, considerando-se o mais desgraçado homem que Deus criara.

—Sr. pai!—continuou mansamente o filho—isto não vai a matar. Tome fôlego, e escute o seu Joaquim. Lembre-se que não tem outro filho a quem deixar os seus cincoenta e seis mil cruzados…

—Olha o diabo!—regougava o velho.

—O que eu lhe peço pouco monta. Livre-me de soldado, e dê-me alguma coisa para eu casar com a Rosa de S. Martinho. O pai d'ella decerto m'a dá, se eu levar mil crusados. Vou ser lavrador, terei saude e alegria, e nunca mais lhe peço nada, sr. pai.

Joaquim, desde que proferira o nome de Rosa de S. Martinho, mudára de tom e gestos. Os olhos imploravam, e a voz tinha as modulações do respeito. O seu amor de dez annos, golpeado de saudades, quebrara-lhe os pulsos. Se o pai n'aquelle instante abrisse no rosto uma tenue claridade de esperança, Joaquim acabaria a supplica de joelhos.

—Mil cruzados!—resmuneava o pedreiro—onde queres tu que eu os vá roubar?

Esta interrogação varreu do semblante do Faisca os signaes da boa reacção.

—Eu não quero que os vá roubar, valha-me Deus!—respondeu Joaquim—Mas, a fallar verdade, quem tem tres mil peças de seu tambem pode ser ladrão da felicidade de um filho que ainda lhe não custou seis vintens desde que pode trabalhar… Olhe, sr. pai, repare bem no que vou dizer-lhe… Eu para a Praça não torno. Sou desertor.

—Venho de casa de teu padrinho—acudiu o pai menos tôrvo—o sr. coronel Lobo da Igreja dá-te uma carta para o commandante, e diz que tudo se hade arranjar.

—Não torno para o quartel, já lhe disse. Estou doente, preciso mudar de vida.

—Que te leve a breca… Não quero saber de contos. Lá t'avem. Dinheiro não tenho; só se queres que eu venda a casa, e me vá depois pedir um eido nos palheiros dos lavradores á beira dos cães.

—Está bom—concluiu Joaquim erguendo-se e espreguiçando-se—vou ouvir a opinião do Luiz Meirinho, que d'um modo ou d'outro prometteu livrar-me da farda e da chibata…

—Vaes fallar com o Meirinho para isso, ó alma perdida?

—Pois então? Aquelle é amigo do seu amigo, e, se me fôr necessario dinheiro…

—Ensina-te a roubal-o…

—E elle que sabe onde o ha…—respondeu Joaquim bocejando, e fazendo tres signaes da cruz na bocca escancarada.

—Eu te deito a minha maldição!—bradou o velho com solemnidade bastante para a scena final d'um acto; porém insufficiente para abalar o 32 da 7.^a companhia do regimento de artilheria do Porto.

O Faisca sorriu, e murmurou:

—Vossemecê parece que tem mais maldições que pintos… Pois eu cá vou com a sua maldição, e depois… veremos se ella nos impece a ambos.

Bento, ao pular-lhe o coração em saltos de ruim presagio, ainda deu tres passos para chamar o filho, e avençar-se com elle mediante a quantia necessaria ao livramento; mas a imagem de um pote de ferro cheio de peças bateu-lhe rija no peito. Quedou-se como empedrado a olhar para a soleira da janella de peitoril, cujas portadas quatro travessas de castanho esfumado immobilisavam.