IX
Hão de lebrar-se que Joaquim de Araujo tinha um filho, que aprendera em
S. Martinho do Valle o officio de fogueteiro com o parente de sua mãe.
Aos vinte e seis annos, quando seu pae acabou, estava elle ainda na
companhia do velho bemfeitor e mestre, ganhando alegremente o seu pão.
Fallecido o parente, alguem lhe disse que elle tinha em Villa Nova de
Famalicão a casa, boa ou má, de seu avô, que ninguem lhe podia disputar.
Facilmente se habilitou herdeiro de Bento de Araujo e tomou posse do casebre, deshabitado desde 1790. Ás vezes os mendigos, nas noites quentes, levantavam a aldraba, que era um cavaco de castanho, e albergavam-se no sobrado podre, contando casos horrendos que ali passaram—o parricidio e o roubo. As covas estavam ainda abertas, e o desentulho em monticulos de redor.
Silvestre de S. Martinho, o filho do Faisca, não usava dos paternos appellidos: do pai aproveitára sómente a casa, transigindo com a honra o necessario sem prejuizo seu.
Apossado da casa, deu-lhe um geito para poder habital-a, e pendurou meia duzia de foguetes e bombas reaes á porta. Era habilidoso, principalmente para as bonecas de polvora. Gabava-se de haver inventado o barbeiro a amolar navalhas na roda, e levára á perfeição da indecencia a velha que despedia contra a cara combustivel do barbeiro um repucho de chispas pela parte posterior, tudo com uma graça portugueza que era um estoirar de riso o arraial!
Corria-lhe bem a vida, e já tinha casado com uma rapariga dura e trabalhadeira, quando o descuido de um aprendiz, na ausencia dos patrões, deixou pegar o lume em um feixe de bombas. Houve explosão que sacudiu em estilhas o tecto da casa, e abrasou todas as madeiras. Quando Silvestre voltou com a mulher da romagem da Santa Eufemia, nas terras da Maya, encontrou quatro paredes denegridas, e o interior da casa a fumegar, cheio da brilhante claridade da lua. O aprendiz, carbonizado, estava já na cova.
Tiveram compaixão do pobre fogueteiro os villanovenses. Diziam-lhe que contruisse uma cabana com as esmolas que lhe iam tirar pela freguezia; mas que a fizesse n'outra parte, por que n'aquella casa, onde um filho matára seu pai para o roubar, pezava a maldição de Deus. Um visinho comprava-lhe o terreno da casa amaldiçoada para accrescentar á sua; mas deixava-lhe a pedra que era boa para o fogueteiro edificar n'outra parte. Silvestre acceitou, convencido de que o sangue de seu avô funestára para sempre aquelle theatro do grande crime.
Recebido o terreno de esmola, principiou Silvestre a demolir as paredes da casa queimada. Fazia elle este serviço, com ajuda da mulher, em quanto o carreteiro ia carreando a pedra.
Ás tres da tarde de um sabbado, o carreteiro, consoante o costume, despegara do serviço; mas Silvestre e a mulher continuaram a desfazer o ultimo lance de parede que lhe restava, com o fim de na proxima segunda feira acabarem o trabalho da demolição. Observára o fogueteiro que este lado da parede quadrilatera era mais grossa um palmo que os outros que formavam o recinto, reintrando para o interior o excedente da grossura. Estava coberta de pasta de barro e caleada como as outras. Divisava-se ainda no barro gretado o risco traçado pelo atrito de qualquer corpo que se encostára á cal ainda fresca.
Por esta raspadura, conjecturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do avô, até porque ouvira dizer que parte do thesouro estivera enterrado debaixo da cama; e elle, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante d'aquella parede.
—A pedra aqui é mais larga—disse o fogueteiro á mulher.
—Agora é!—emendou ella—o que a faz parecer mais larga é a camada de barro; se não, olha.
E começou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a pedaços, deixava descobrir a superficie da pedra que não era mais grossa que a outra.
—Dizes bem, é isso—approvou o marido.—Vamos apeando a parede por esse lado, que o barro elle se despegará.
E, dizendo, pegou d'outra alavanca e começou a derribar as capas da parede, em quanto a mulher, para não estar com as mãos debaixo dos braços, ia descaliçar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca á parede, notou que o ferro batera e se cravara em páo.
—Aqui ha madeira—disse ella.
—É alguma cascaria que tinha mão no barro—explicou Silvestre.
A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circumferencia de dois palmos, e tirou sempre o mesmo som.
—Parece que bate em vão…—notou ella.
—O quê?!—acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava.—Bate em vão! que dizes tu?!
—É o que te eu digo… Olha… Ouves?
—Ó mulher!—exclamou elle, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a lingua não ousava formular.
E como n'esse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruinas, o fogueteiro fez um tregeito á mulher, que ella intendeu, calando-se.
—Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora que já mal se enxerga—disse elle.
—Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe falle n'alma!—disse o mais ancião dos curiosos.—Que dinheirão aqui esteve n'este pardieiro! Cincoenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da villa e seu termo, e tanta necessidade passava aquelle alma do diabo, Deus lhe perdôe, para a final o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luiz Meirinho, que tambem o levou berzabum com duas balas que lhe metteram na barriga ali á ponte de S. Thiago!
—São fadarios, tio Simeão!…—disse Silvestre.
—Vossê podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai…—tornou o velho.
—Assim é; mas não o quiz Deus. Desgraças…
—Ora faça vossê de conta que tinha achado ahi o dinheirame do seu avô!
—Ainda venho a tempo!…
—Pois sim; mas faça de conta que o topava! Vossê que fazia, ó sôr
Silvestre?
—Eu sei cá, tio Simeão!
—Foguetes é que vossê não fazia mais! aposto dobrado contra singelo!
—Não fallemos n'isso… Foguetes é que eu heide fazer toda a minha vida, e Deus me dê saude para os fazer.
—Amen; mas vossê, se se pilhava com as tres mil peças, mettia a villa toda n'um chinello, e pintava ahi o diabo a quatro!
—Está enganado! não pintava nada… Comprava uns bemzinhos, e havia de trabalhar n'elles, como trabalho nos foguetes.
—Vem d'ahi, homem—disse Maria já aborrecida das impertinentes perguntas do Simeão que, encostado á sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hypotheses, e nas delicias de cossar uma perna com a outra alternadamente.
Simeão foi seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janellas se fecharam na rua, ahi estavam elles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espaço em que o som do vacuo respondia ao toque do ferro.
No termo de curta fadiga, tinham descoberto uma superficie liza de madeira, invasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tabua do invasamento de pedra, por que não tinha dobradiças nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a mão, e topou um corpo frio.
—Que achas?—perguntou Maria offegante com as mãos postas.
—É uma panella de ferro…—balbuciou elle.—Ó mulher!… tem mão em mim, que não sei o que me dá pela cabeça!…
—Nossa Senhora!—exclamou ella—Nossa Senhora!…
E, em vez de ter mão no homem, metteu ambos os braços até achar a panella, em quanto Silvestre abria e fechava a bocca em tregeitos de tão estupida felicidade, que só a suprema desgraça os poderá fazer iguaes.
N'isto, a rija mocetona arrancava da lura o peso enorme de ouro; e, cahindo de cocoras com o pote no regaço, exclamou suffocada:
—Ai Jesus! que eu morro de alegria!…
Sivestre apertava o ventre com as mãos. Esta postura não é ridicula nem inverosimil para os que sabem que os intestinos quasi nunca são estranhos ás commoções grandes.
Aos primeiros assomos da seguinte aurora, a parede estava arrazada. Os visinhos ouviram o ruido da assolação, e cuidaram que a derribára um pegão de vento.
Mas, na proxima semana, a obra da casa nova parára. O fogueteiro dizia aos seus bemfeitores que ia mudar de terra, e talvez mudar de vida