PRIMEIRA PARTE
Seis de janeiro de 1832. Manhã chuvosa e frigidissima. O zimbro rufava nas frestas envidraçadas da egreja de Santa Maria de Abbade. Ringiam as carvalheiras varejadas pelo norte. Ao arraiar do dia, a devota dos Tres Reis Magos, a tia Bernabé, tecedeira,—viuva do operario Bernabé, que lhe deixára o nome e uma cabana com sua horta—ergueu-se, foi á residencia parochial pedir a chave da egreja; e, sobraçando a bassoura de giesta para barrer o chão, e a almotolia para prover as lampadas, entrou no adro. Ao passar em frente da porta principal, ajoelhou, persignou-se e orou. N'este momento, ouviu o vagir convulso e rispido de criança. Voltou o rosto para o lado d'onde lhe parecia sahir aquelle chôro. Não viu alguem. Espantou se.
—Jesus! santo nome de Jesus! Isto é coisa ruim!—exclamou ella, pousando no degráo da porta a vazilha e a bassoura.
E o chorar de criança cessou.
A tia Bernabé debruçou-se na parede baixa que murava o adro, e viu entre as grossas raizes de uma oliveira secular um embrulho de baêta azul donde sahiu um vagido. Saltou a parede, agachou-se á raiz da arvore, e pegou da criança, aconchegando-a do calor do peito e bafejando-a no rosto azulado do frio. A baêta estava ensopada da chuva que escorria da ramaria da oliveira. Tirou-lh'a apressadamente, involveu o menino no avental, e agasalhou-o entre o seio e o farto jaqué de picotilho. Depois, desandou para a residencia, e mandou dizer ao abbade que topára no adro uma creança, que parecia estar a despedir.
—Pois que quer ella então?—perguntou o abbade, expondo uma parte do nariz e metade do olho esquerdo á frialdade do ar—Que tenho eu com isso? Que a leve a Barcellos. Aqui não ha roda de engeitados.
A criada do abbade deu o recado.
—Torne lá, sr.^a Joanna—replicou a tia Bernabé friccionando os pés álgidos do recem-nascido com a barra da sua saia de saragôça—e diga ao sr. padre que este menino, se morrer sem baptismo, é um anjinho do ceo que se perde. O sr. abbade hade saber isto melhor que eu…
A creada repetiu a replica, e ajunctou:
—A tia Bernabé diz bem.—Salte d'ahi p'ra fóra, seu calaceiro!—E deu lhe uma sonora palmada na nádega esquerda.—Um rapaz de vinte e sete annos está ahi enteiriçado como um velho! Upa!
—Está quieta, Joanna, olha que me fazes vento!
E ella puxou-lhe pelo pé direito, que excedia o volume de tres pés; e elle, com o outro, despedido á tôa, sacou-lhe do baixo ventre um som tympanico de ôdre cheio.
—T'arrenego!—bradou ella, recuando com as mãos postas na parte molestada.—Vossê atira? Tem má mânha!
—Cheguei-te?—volveu elle risonho, embiocando-se na felpuda coberta, e encostando-se á almofada de chita que estofava o espaldar do leito.
—Que brincadeira!—queixou-se a moçoila arrufada—podia-me matar com o couce, se me dá aqui no coração!…
E punha a mão no estomago.
—Isso não é nada, rapariga!… Olha se amúas!
—Nada, não é!… não que a barriga é minha…
—Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!…
—Então dissesse-o…—tornou ella com semblante ageitado á reconciliação—Salte d'ahi!… vá baptisar o engeitado; que, se elle morre sem baptismo, verá que ingranzeu se levanta na freguezia. Bem basta o que já dizem…
—Calça-me as meias de lã; mas tem cuidado que não se despegue o emplasto da frieira.
E, em quanto a môça com geitosa meiguice lhe encanudava nas pernas cerdosas as grossas meias alisando-lh'as ao correr da tibia, resmungava elle:
—Quem seria a grande bebeda que engeitou a cria?
—Isso hade ser de fóra da freguezia…
—Tambem me parece… Cá não me consta… E vem-m'a cá pôr no adro!… ah bom estadulho!…
—Fica uma coisa pela outra. As de cá tambem as levam ás outras freguezias, quando acontece—disse Joanna.
E nomeou varias ovelhas fecundas e tinhosas, em quanto o pastor lavava a cara no alguidar vermelho que a raparigaça lhe chegava, com a toalha no hombro.
Ao pegar da toalha, sacudindo a cara e assoprando ruidosamente com a sensação do frio, o abbade apertou a pôlpa da espadua á moça com ternura felina. Este carinho confirmou as pazes. Joanna arregaçou os beiços ridentissimos até ás orelhas, e mostrou-lhe nos dentes de brilhante esmalte que o seu amor infinito resistira á prova do couce.
A tia Bernabé affligida, porque o menino soluçando-se esverdeava, chamou outra vez Joanna com encarecidos rogos.
—O sr. abbade está já vestido—disse a môça sahindo á janella.—Passe vossê por casa do tio Izidro da Fonte, e diga-lhe que vá p'ra egreja, e deite agua na pia.
* * * * *
O padre sahiu de casa carrancudo e bocejando. De cada vez que escancarava as mandibulas, traçava no envazamento da boca tres cruzes com o dedo pollegar.
A tecedeira, que o esperava no adro, abeirou-se d'elle mostrando-lhe a cara roixa da criança. O padre olhou-a de esconso, e perguntou:
—É macho ou fêmea?
—É um menino—respondeu a viuva.
—Accenda um d'aquelles côtos—disse o abbade ao Isidro, apontando para os sordidos castiçaes de chumbo d'um altar—A pia tem agua?
—Vem ahi o meu rapaz com o cantaro.
—Vossês são os padrinhos? O rapaz hade chamar-se Izidro, ou então põe-se-lhe o nome do santo de hoje—observou o abbade, boquejando e benzendo a bocca, no limiar da porta travessa onde a mulher esperava, segundo o ritual.
—Hoje é dia dos Santos Reis—disse ella.
—É verdade—confirmou o padre, e scismou se Reis seria nome ou apellido. Não se lembrava de ter estudado esta especie.
—Os santos Reis Magos eram tres—proseguiu a tia Bernabé.
—Bem sei—acudiu o padre.
—Um chamava-se S. Belchior, outro S. Gaspar, outro S. Balthazar—explanou a devota dos magos orientaes:—o menino póde chamar-se Belchior, se o sr. abbade quizer.
—Eu quero tudo que vossês quizerem. Vamos a isto, que está um frio de rachar—E, recolhendo-se á sacristia, esfregava as mãos, bufando-as com os gazes do estomago ainda perfumados do vinho da ceia.
—Meu rico anginho, irá elle morrer na agua fria?—lamentava a boa creatura bafejando-lhe as duas faces.
O abbade enfiou a sobrepeliz, revestiu a estola, mandou chegar o engeitado ao baptisterio, fez um resumo do latim ceremonial, e disse:
—Vão-se á vida.
—Vou-me d'aqui ás Lagôas a vêr se a Thereza do Eido me dá o peito a este anginho, até vêr se arranjo que algum lavrador me faça esmola de um bocado de leite de cabra—disse a tia Bernabé.
—Então vossê não o leva á roda?—perguntou o abbade esbugalhando o espanto nos olhos.
—Ágora levo eu á roda o meu engeitadinho! Já que Deus me não deu filhos…
—E tem muito que lhe dar vossê?
—Em quanto eu poder fiar uma meada e tecer uma teia, dou-lhe eu o meu caldo e o meu pão; depois, quando eu não poder, dá-m'o elle. Casa e dois palmos de horta, graças a Deus, tenho eu, e não na devo a ninguem… O peor é que o pequeno, se lhe não acudo, morre de fome… Ai! meu Deus! ha cadellas mais amoraveis que algumas mães…
—Ande lá… metta-se em trabalhos…—concluiu o abbade, safando-se com os cabeções do capote apanhados na testa.
* * * * *
A criança vingou, espigou e sahiu robusta e menos mal encarada. Entre os sete e onze annos apprendia a ler, e nas horas vagas enchia as canellas do fiado ou dobava meadas.
Belchior Bernabé, (assignava-se assim com satisfação da mãe adoptiva) deparado a algum romancista imaginoso, daria trela ao esvoaçar alto da phantasia, quanto á sua origem. A mãe poderia ser uma fidalga de Famalicão ou de Santo Thyrso. O pai, com toda a verosimilhança, poderia phantasiar-se algum dos generaes do exercito realista ou liberal que, por aquelle tempo, manobraram n'essas paragens. Com estes dois elementos, a fidalga e o general, qualquer mediano talento, aproveitando o accessorio das batalhas, compunha um romance de maus costumes, pelo que respeitaria ao engeitado, e um livro historico, pelo que interessaria á historia da restauração da Carta Constitucional e do systema representativo. Feito isto, o pequeno lucrava muito, sabendo nós que sua mãe era uma devassa recatada que, por noite desabrida de janeiro, o mandou expor entre as raizes de uma arvore, em que os sevados fossavam luras com o focinho, e o não devoraram n'aquella madrugada porque estavam ainda cerrados nas suas possilgas. Com tanto que esta mãe desnaturada engeitasse o filho, em respeito ao brazão e ao credito, a creança ser-nos-hia mais sympathica, as linhas de fina casta extremal-o hiam entre as caras boçaes da plebe, a auréola de nascimento mysterioso banhal-o-hia então da luz de um melancolico romance. Assim é; mas eu não sei quem fossem os pais de Belchior Bernabé. O rapaz, segundo ouvi dizer aos que o viram criança e adulto, era feio, espêsso de cara, achamboado de pernas. Ninguem lhe farejava o pai nem a mãe pela semelhança do rosto: parecia-se com todas as mulheres e com todos os homens d'aquellas freguezias, onde as caras são achatadas sem ressalto de protuberancia, ou angulosas como as pêras de sete cotovellos.
É maravilhoso este capricho physiologico! A terra da Maya é um alfôbre de moças bonitas, com os seios altos e alvos como pombas no ninho; os quadris elasticos e boleados tem saliencias que vos levam captivo, e vos levarão doido se lhes virdes as lisas columnas em que a hera do verso de Camões lembra sempre…
Desejos que como hera se enrolavam.
E lembra sempre este verso e os outros convisinhos[4] por serem os Lusiadas um poema que se lê nas escholas, e se encontra no açafate de costura das educandas, que poderam subtrahir-se á morigeração pestilencial dos lazaristas.
Transpostos os limites da Maya, a primeira mulher que se vos depára na primeira freguezia do concelho de Famalicão, é feia e suja até ao asco, escanelada, escalavrada no peito, veste-se a frizar com a desgraça da sua má figura. E d'ahi até Braga, se vos apraz, podereis inhalar em todo seu perfume a pura flor da castidade. Se ha terra onde possam ermar e defecar-se de sensualismo santos tentadiços, é ali. Cada mulher é uma figa benta de que fogem os tres inimigos da alma, principalmente o ultimo.
* * * * *
Belchior, ahi por maio, mez das flores, da brotoeja e d'outras fatalidades especificas, começou a amar. Tinha desenove annos, carnadura rubra, hombros largos, assobiava como um melro, tangia cavaquinho, e amava a Maria Ruiva, filha do Silvestre Ruivo, o maior lavrador da freguezia. Este amor resguardava-se como um delicto, e por isso mesmo se escandecia e refinava até á quinta essencia da paixão que está paredes meias do desastre. O engeitado, se se affoitasse a alardear preferencias nas attenções de Maria Ruiva, seria espancado pelos rivaes ou por algum dos tres padres tios da cachopa. Eram tres clerigos afamados por façanhas de estudantes em Braga. Haviam militado nas guerrilhas da uzurpação; terçaram de novo as armas em 1846, na carnificina de Braga; recolheram a casa depois da morte de Mac-Donald, e diziam missas a oito vintens para não se descassarem no officio.
Uma noite, quando um dos padres recolhia, enxergou um vulto esbatido no escuro do murthal que formava o tapume da eira de sua casa, e lobrigou por entre a sebe o alvejar de uma saia a fugir. Cresceu sobre o vulto com o páo em programma de bordoada, e ouviu o estalido do pêrro de pistola. Susteve a pancada, e perguntou:
—Quem está ahi?
—Sou o Belchior Bernabé.
—Que fazes ahi?
—Nada, sr. padre João.
—Porque te escondestes?
—Não faço mal a ninguem, sr. padre João.
—Mas engatilhaste uma arma de fogo!—e acercou-se d'elle arremetendo.—Que queres tu d'esta casa, engeitado? Servem-te as minhas sobrinhas…?—e atirou lhe um epitheto, que definia a natureza da mãe incognita.
—Sr. padre João, olhe que, se me bate, eu, bem me custa, mas… atiro-lhe. Siga o seu caminho, e deixe estar quem está quêdo e manso.
Padre João Ruivo sobraçou o marmeleiro ferrado, e murmurou:
—Tomo-te á minha conta, bréjeiro!
E passou ávante.
Ao apontar do sol, esporeou a egua para Famalicão, demorou-se com a authoridade administrativa, com os membros da commissão districtal, com o regedor, e sahiu alegre. Ao outro dia, na porta da egreja de Santa Maria d'Abbade, lia-se Belchior Bernabé, engeitado, entre os mancêbos apurados para o recrutamento.
E, entretanto, Silvestre, o pai de Maria, chamou ao sobrado da tulha trez filhas que tinha, e disse:
—Qual foi uma de vossês que esteve esta noite na eira a conversar para o quinchôso com o engeitado da Bernabé?
Duas responderam logo ao mesmo tempo:
—Eu não!—e accrescentaram:
—Cega eu seja d'ambos os olhos!
—Quebradas tenha eu as pernas!
—Má raios me partam!
A terceira, Maria, abaixou a cabeça, levou o avental de estopa aos olhos, e chorou.
—Foste tu?—exclamou o pai; e, pegando de um engaço, ia cravar-lhe os dentes na cabeça, quando as duas filhas lhe ferraram do pulso. O pai, homem possante de quarenta annos, sacudiu-se a custo das prezas das valentes raparigas, largando-lhes o engaço, e esmurraçou a outra com tamanho impeto de raiva que Maria cahiu atordoada.
Em seguida voltou-se para as duas filhas, e disse:
—Esta mulher fica fechada aqui, entendem vossês? Se quizerem, tragam-lhe o caldo; se não, que morra para ahi, que a levem os diabos!
E, sahindo, rodou a chave, e guardou-a na algibeira interior da véstia.
* * * * *
A tecedeira, quando Belchior, lavado em lagrimas, lhe disse que ia ser soldado, encostou o queixo ás mãos postas em supplica, relançou os olhos á imagem do Bom Jesus do Monte, deteve-se instantes, e disse serenamente:
—Não irás para soldado, meu filho. O tio Silvestre Ruivo já me offereceu dois centos por esta casa, com a condição de me deixar morrer n'ella. Vende-se a casa, ficas tu sem ella, mas onde quer se vive. Para soldado não vais, Belchior. Dás o dinheiro aos governos, como fazem os filhos dos lavradores ricos, e estás livre.
Belchior não cessava de chorar, e de vez em quando, por entre soluços, articulava palavras que a tecedeira, um tanto surda e de todo alheia dos amores do rapaz, não percebia.
Não chores, moço!—insistia a velha, repetindo o expediente de vender a casa; e Belchior, por fim, obrigado a explicar-se, rompeu n'esta exclamação:
—A Maria Ruiva está perdida e desgraçadinha!
—Credo!… tu que dizes, Belchior!?
O rapaz arrepellava-se; apanhava com as mãos a nuca, e batia com os cotovêllos um contra o outro. Atirava-se de trambulhão sobre uma grande caixa de castanho, e jogava de cabeça contra os joelhos com a pasmosa elasticidade da sua afflicção. Fazia aquillo porque não sabia as phrases que nós, os máos romancistas, costumamos emprestar a esta especie de sujeitos.
A tia Bernabé, ora lhe pegava na cabeça, ora nos braços, dizendo-lhe as mais carinhosas consolações. Por fim, o engeitado, erguendo-se de salto, e olhando em redor tão sinistramente quanto cabe na rubrica de um drama e na pupilla fulva do sr. Izidoro Sabino Ferreira na tragedia, disse com o esbofar das angustias vertiginosas:
—Assim com'ássim… mato-me!
Aqui foi um alto soluçar da tecedeira, um desentoado chôro que alvorotou a visinhança.
Belchior, assim que viu a casa a encher-se de gente, fugiu pela porta da cosinha, saltou vallados, emboscou-se n'uma seara de centeio, e ahi, estirado por terra sobre as louras gabellas, chorou copiosamente.
A tia Bernabé pedia entretanto aos visinhos que fossem atraz d'elle, porque o seu Belchior disséra que se matava.
O engeitado deixou-se trazer como um ebrio nos braços dos visinhos; e, chegando a casa, pediu que o deixassem deitar. Depois, ganhando animo—que é sempre certo, esgotadas as lagrimas—contou á tia Bernabé a sua curta historia com a Maria Ruiva, concluindo-a com uma revelação que irriçou os cabellos da velha.
* * * * *
N'essa mesma hora, a tecedeira sahiu cambaleando e encostada ás paredes, em demanda do abbade.
Era ainda o mesmo que baptisára Belchior. Envelhecera e engordára. Meditava depois de jantar no destino da sua alma, assim que o destino do corpo lhe parecera consummado. Joanna, a das sapatadas n'aquella anca de Hercules Farnesio, havia muito que cauterisava a consciencia chagada, cortando o cabello e cilhando os rins peccadores com a corda nodosa dos cilicios. O abbade tambem soffrêra um abalo rijo de contricção, a ponto de não substituir Joanna, e calçar as meias directa e pessoalmente. N'esta especie de amputação expontanea, não podendo crear processos de philosophia nova, como Pedro Abélard, comia ás suas horas e profanava com syllabadas o latim do missal. Promettia acabar bem.
A tia Bernabé referiu-lhe o que Belchior lhe confessára a respeito da
Maria Ruiva.
—Eu bem lhe disse a vossê, mulher, que se mettia em trabalhos, lembra-se?—recordou o abbade.
—Sim, senhor, lembra… mas então? Ainda me não arrependo, se o sr. abbade me fizer a caridade de fallar ao Silvestre, e dizer-lhe que o melhor é, já agora, deixar casar a rapariga.
—Vossê—atalhou o padre—vossê, Bernabé, deu-lhe volta o miolo! O Silvestre dar a filha ao engeitado!… Ora, mulher, peça a Deus juizo, e diga a esse tratante que se vá quanto antes sentar praça, antes que lhe deem cabo da pelle. Com que então!… O alma do diabo foi ás do cabo, eim?
A tecedeira ouviu-o com o rosto lavado em lagrimas; e elle, solphejando as palavras iracundas ao compasso do rufo que fazia com a caixa de prata sobre o braço da cadeira, proseguiu:
—Forte maroto! Atrever-se a conversal-a, já era muito: mas isso que vossê me diz, mulher, só na forca! E então… uma rapariga sem nota, que já foi pedida pelo Francisquinho das Lamelas, que colhe oitenta carros e vinte pipas, afora azeite!… E, vamos lá, era a melhor das irmãs, uma mocetona!… Com que então esse patife disse-lhe mesmo que ella… d'aqui a pouco… já não póde esconder o fructo do seu crime?
—Sim sr.—balbuciou a tia Bernabé.
—Isto só no inferno!—volveu o abbade, rebitando a ponta do nariz para dilatar a circumferencia das ventas sobranceiras á pitada—Isto só no inferno!…
—Valha-me Deus, sr. abbade!—replicou timidamente a tecedeira.—Então a religião de nosso Senhor Jesus Christo não dá remedio a estas desgraças, que tantas vezes acontecem? No melhor panno cae a nodoa. Logo que elles se casem, está tudo remediado, pois não está?…
—Está o quê?… Então uma rapariga de boa familia, que tem tres tios padres, e que é filha de um capitão de ordenanças, caza-se assim com um engeitado que vossê encontrou na bouça da egreja entre o mato?…
—É verdade; mas todos somos filhos de Deus,—argumentou a tia Bernabé, e mais longe iria na sua preleção de caridade ao pastor, quando uma visinha a chamou á porta da rezidencia para lhe dizer que Belchior estava prezo entre seis cabos de policia que o levavam para soldado, e elle a mandava chamar para se despedir.
Ainda desceu precipitadamente as escaleiras a tremula velhinha; mas, a poucos passos, cahiu de joelhos, amparou-se no vallo, e debruçou-se desmaiada.
Entretanto, o regedor ordenava aos cabos que levassem o prezo, visto que a tia Bernabé fôra levada sem accordo para a rezidencia. Belchior pediu que o deixassem ir lá despedir-se de sua mãe. O regedor voltou-lhe as costas, acenou aos cabos que marchassem.
* * * * *
Em Famalicão deram-lhe uma guia, e enviaram-no entre seis espingardas para Braga. Ao outro dia era soldado.
A tia Bernabé procurou-o no quartel do Populo n'esse mesmo dia. Quando o viu de cabeça tosquiada como cão morrinhoso, e colleira de couro preta, estonteou-se-lhe o juizo e esteve a pique de cahir. O recruta, chorando com ella nos braços, apiedou o commandante da guarda, que os mandou entrar na casa das tarimbas. D'ahi a duas horas, tocou a corneta a recruta. Belchior já não tinha nome. Era o 29.
—Salta d'ahi, 29!—bradou-lhe um anspeçada.
—Que é?—perguntou a tecedeira.
—Vou para o exercicio, minha mãe.
Ella viu-o marchar com os outros para o Campo do exercicio; e logo, a meio caminho do terreno das manobras, um furriel barbaçudo e de chibata, lhe assentou na parte sobrejacente ás pernas um pontapé instructivo. Diga-se verdade—era o primeiro.
A tecedeira, quando isto presenceou, sahiu do campo estrangulada por soluços, entrou na Sé, e orou largo tempo com o rosto no pavimento. Depois, levantou-se reanimada, e foi para a sua aldeia executar o que ficára convencionado com Belchior: vender a casa, e substituil-o.
Pregou annuncios na porta da egreja e nas arvores visinhas das estradas. O pai de Maria Ruiva muito queria compral-a para arredondar um campo com a horta e armar na casa terrea um estabulo de bois para embarque; porém, receando que o seu dinheiro servisse a resgatar o soldado, consultou os irmãos clerigos. Padre João foi a Braga mecher os pausinhos, disse elle; e, voltando, socegou o irmão:
—Compra a casa, que o engeitado as correias não as bota fóra do lombo.
O lavrador tinha offerecido duzentos mil réis, quando a tecedeira não pensava vender a casa onde nascera; mas agora, por terceira pessoa, mandou-lhe offerecer cento e quarenta.
A desventurada velha ia ceder, pensando que vinte moedas de ouro bastariam a resgatar o filho; n'este aperto, uma beata de freguezia distante, e confessada do abbade, lhe propoz a compra, a fim de passar a estação das penitencias ali á beira do seu director espiritual. Esta mulher, que era virtuosa, foi desde logo diffamada pelos padres Ruivos á conta do confessor que a dirigia; e o lavrador por sua parte enraivava-se sabendo que a Bernabé vendera a casa por duzentos mil réis. Padre João, conversando a tal respeito com o abbade, desfechou-lhe esta ironia entre duas pitadas:
—Quando se está assim gordo, sr. abbade, é preciso trazel-as para perto…
E o pastor, exulcerado na sua candura, cascalhou uns froixos de tosse de esgana, e gosmou:
—Se eu trouxesse para esta freguezia ovêlhas de fóra, talvez que o padre João me deixasse em paz as do meu rebanho…
Entendiam-se.
* * * * *
A tia Bernabé foi a Braga com o dinheiro e com um seu cunhado, que havia sido embarcadiço, e então era calafate em Villa do Conde. Por felicidade viera elle á terra ver os parentes; e, condoendo-se da paixão da cunhada, se offerecera a dar em Braga os passos necessarios á baixa de Belchior. O requerimento foi indeferido. O calafate andou por advogados que lhe escreviam replicas inuteis. Por fim, comprehendeu que o rapaz havia de gemer sob o pezo da vingança do lavrador. E como elle passara quarenta annos no mar e ahi ganhára odio ás miserias da terra, tanto que soube que o rancor era de padres e o crime do rapaz era de amores, voltou-se para a cunhada, e disse:
—O rapaz vai d'hoje a quinze dias para o Brazil. Tu pagas-lhe a passagem, e o resto fica por minha conta. D'aqui até Villa do Conde é desertor; assim que sahir a barra, é livre… olha… vês aquella andorinha? é livre como ella!
—E não hei de tornar a vél-o?!—atalhou ella chorando.
—Se não o tornares a vêr, que monta? Tens tu de fechar os olhos para sempre ou não? qual queres tu: vêl-o aqui soldado, ou saber que elle está no Brazil a manobrar a sua vida? Deixa-o ir. A rapariga, quando elle chegar a Pernambuco, já lhe não lembra; e, se enjoar, então, é como quem deita o coração pelas goelas fóra. Tu vens para Villa do Conde commigo. Tens que comer e uma enxerga onde durmas.
* * * * *
Em março de 1852, fez-se á vela de Villa do Conde a Barca Conceição.
Entre os passageiros ia o desertor. Chamava-se ahi Manuel José da Silva
Guimarães, e nunca mais ouviu proferir o seu nome.
Quando a policia deitava inculcas no concelho de Famalicão procurando a paragem da tia Bernabé, rendia ella a alma ao seu Creador em Villa do Conde. Vira desapparecer as vellas da barca Conceição, ajoelhada no terraço do Castello. Depois, quedára-se de bruços a chorar. Levaram-a nos braços a caza do cunhado. As lagrimas seccaram-se. Veío a febre e o delirio. Chamou, chamou por seu filho, até que Deus a chamou a ella. Não foi confessada nem ungida; mas morreu sancta por que vivera sanctamente. Achara aquelle engeitadinho, creara-o, amara-o, vendêra um cordão para o vestir geitosamente afim de o mandar á eschola, vendera as arrecadas para lhe comprar fato novo quando foi á primeira confissão, vendêra a casa e o thear e o leito onde morrêra sua mãe para o remir de soldado. Padeceu grandes angustias quando soube que o filho do seu coração era culpado na desgraça de uma rapariga honesta. Cuidou que o padre, o prégador da caridade e da igualdade dos servos de Jesus Christo, iria admoestar o lavrador abastado a conceder a filha para esposa do pobre. Esta sancta cegueira da christã é de crer que Deus lh'a perdoasse. Por fim, de virtude em virtude, e de dôr em dôr, logo que aos setenta annos de idade viu sumir-se para sempre o seu querido engeitado, pediu a Deus por elle, por si, e… morreu.