V
No mez aprasado, Pinto Monteiro regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua irmã D. Anna das Neves. Embarcaram no Porto com elle os amigos e socios grangeados no hotel. O brazileiro da Maya, comprador dos cincoenta contos, levava algumas pipas de vinho verde, e uma d'estas vasilhas havia sido fabricada, conforme o modêlo que dera o cego, e sob a fiscalisação de Amaro Fayal. No reverso das quatro aduelas do bojo pregaram um quadrado de madeira com chanfradura onde invasasse o rebordo de um caixote de flandres; a pregagem do quadrado ficava occulta debaixo de quatro dos arcos de ferro. O caixote continha duzentos contos em notas brazileiras, e era estanhado nas juncturas de modo que o liquido as não penetrasse, atravez de uma grossa capa de chumbo.
Chegados ao Rio, a carregação entrou nos armazens da alfandega, e Pinto Moreira com a sua familia hospedou-se em casa de Fortunato de Brito. Ao apontar o dia seguinte, os passageiros delatados pelo cego eram prezos; a pipa despejada e desfeita; e o caixote das notas conduzido ao tribunal para se lavrar aucto. Os quatro portuguezes morreram no degredo, perdidos os haveres que já tinham adquirido honradamente. Pinto Monteiro recebeu dez contos de réis, os 5% estipulados e deduzidos da preza.
O leitor vai descobrindo que eu não estou escrevendo um romance. Consta me que, no Rio, os homens que já o eram ha trinta annos, recordam estes factos com algumas miudezas que não pude obter nem já agora inventarei. Os meus apontamentos são exactissimos no summario das excentricidades do cego; mas escassos dos pormenores que eu rigorosamente quizera não omittir.
Aqui me contam elles os amores da morena filha de Landim com o chefe da policia. Este episodio poderia ser o esmalte do meu livrinho, se em um chefe de policia coubessem scenas de amor brazileiro, morbidas e somnolentas, como tão languidamente as derrete o sr. J. d'Alencar. Em paiz de tanto passarinho, tantissimas flores a recenderem cheiros varios, cascatas e lagos, um ceo estrellado de bananas, uma linguagem a suspirar mimices de sutaque, com isto, e com uma rêde—ou duas por causa da moral—a bamboarem-se entre dois coqueiros, eu mettia n'ellas o chefe da policia e a irmã do cego, um sabiá por cima, um papagaio de um lado, um saguí do outro, e veriam que meigas moquenquices, que arrulhar de rôlas eu não estylava d'esta penna de ferro! Mas eu não sei se me acreditariam coisas tão perigrinas entre o virginal Fortunato, chefe da policia, e ella, a menina Neves que já havia colhido as boninas de vinte e nove primaveras nas florestas do seu Minho, onde a maroteira é pre-historica.
Amores e desventuras de peor natureza nos levam a outro incidente, e ahi veremos que Pinto Monteiro fareja todos os latibulos em que se acoite algum crime, e não consente que a corrupção do seculo XIX ponha pé em ramo verde no novo mundo.
Certa carioca, esposa de um João Tinoco, portuguez, fizera assassinar com veneno o marido por um escravo: mas com tal resguardo que o conjugicidio não escoou dos muros da chacara onde ella impunemente se dava ás delicias de Agrippina. Isto de chamar Agrippina á viuva de João Tinoco é excesso de erudição. Ella não tinha idéa nenhuma de ser posta em parallelo historico com a envenenadora de Claudio; o que ella queria era que a deixassem gostar as alegrias da viuvez de um marido que entrara em casa de seu pae como aguadeiro; e, exaltado a esposo, a quizera forçar a fidelidades incombinaveis com o clima, desenvolvendo de mais a mais um excedente de calorico na esposa com o atricto do murro portuguez de lei.
Tinoco tivera um caixeiro que expulsara quando lhe descobriu capacidade para o adulterio, segundo informações de um marçano que vira piscarem-se reciprocamente os olhos direitos á sinhá e o caixeiro. Eis o fio que conduz o cego até ao thalamo infamado e d'ahi á campa do inulto João Tinoco. O assassinado tinha irmãos abastados no Rio. Pinto Monteiro revela-lhes que seu mano morrera de morte violenta, e, coberto de lagrimas, não podendo mostrar os intestinos dilacerados de Tinoco, como Antonio a tunica de Cesar, põe as mãos convulsas no ventre, e exclama:
—Despedaçaram-lhe as entranhas as agonias do arsenico! etc.
Fez terror.
Rugem vingança os irmãos; o cego dá vulto ás difficuldades das provas judiciarias; franqueiam-lhe dinheiro sem conta, e um grande premio, se a prova se fizer.
Vejam os profundos segredos do ceu! Os crimes obscuros quasi nunca é a lampada da virtude que os descortina; são sempre os cerdos que fossam e tiram á tona dos lamaceiros as podridões submersas.
Pinto Monteiro fez surdir á flôr da terra as podridões de Tinoco, e a toxicologia declarou que o homem morrera envenenado pela massa de Frei Cosme. Não vá o leitor cuidar que entra na novella um frade que manipulava massas homicidas. Não, senhor. A massa de Frei Cosme é uma farinha saturada de arsenico.
A viuva não pôde defender-se, desde que a negra confessou que envenenára o amo em um timbal de borrachos, por ordem da senhora. Degradaram por toda a vida a ré convicta, privando-a dos bens herdados do esposo. Com a chacara preciosa foi galardoada a benemerita sollicitude de Pinto Monteiro—o vingador de Tinoco e da Moral, que eu sempre escreverei com o M maior que eu podér.
Fortunato de Brito, o chefe da policia, foi demittido por este tempo. Antonio José Pinto Monteiro resolveu repatriar-se. A denuncia dos moedeiros açulara-lhe muitos e poderosos mastins. A imprensa brazileira insultava a colonia portugueza pelo facto do crime e pelo facto do delator. A equidade foi estranha aos odios e injurias que golpearam Monteiro. Não lhe descontaram na perfidia as vantagens commerciaes que derivaram d'ella. Cessára o panico e o terror imminente de um cataclismo no credito e nas casas bancarias. A policia, allumiada pelo cego, sabia as veredas que em Portugal conduziam aos balancés. A gente honesta, e, o commercio honrado rejubilavam com a traição de Pinto Monteiro; mas, atidos ao velho proloquio onde não reluz faúla de philosophia pratica, execravam o homem que levara ás plagas do degredo os salteadores da probidade incauta.
Esta victima ainda não estava inscripta no martyriologio dos grandes lapidarios da civilisação.