VI
Joaquim de Araujo entrára na vida por má porta. Oito annos de caserna bastariam a degenerar-lhe as boas qualidades: mas, com certeza, o Faisca já tinha ganho esta alcunha á custa de turbulencias, quando assentou praça, e não se regenerára, como é de suppôr, no officio de soldado.
A sua nova posição de lavrador não lhe quadrava; a pesada rabiça do arado dava-lhe engulhos ao estomago, quando a sacudia do rêgo aberto para romper outro; o cabo da enxada empolava-lhe as mãos; de çafaras não sabia nada; ignorava todo o trafego da lavoira; e, em vez de aprender, como queriam a mulher e o sogro, ia bandarrear por feiras, quatro vezes por semana, na sua egua rabona, de pau de choupa debaixo da perna, mão direita á cinta, chapeu braguez na nuca, e besta travada que não havia outra d'aquella andadura.
Ás impertinencias do sogro respondia que não precisava labutar sujamente na terra, porque seu pai tinha o melhor de cincoenta mil crusados em peças; e aos queixumes da mulher amante e ciosa voltava as costas enfastiado. O lavrador de S. Martinho, a fim de se desfaser do genro, repartiu a casa por tres filhos, resalvou uma pequena reserva, deu em terras o dote estipulado a Rosa, e mandou-os viver onde quizessem.
A libertinagem do Faisca foi até onde os dois mil e tantos crusados da mulher chegaram; e, n'aquelle tempo, quem os desbaratasse em seis annos alcançava a reputação dos que em nossos dias derivam á miseria sobre ondas do ouro. Antes de conhecer as primeiras necessidades, Rosa morreu na flor da idade, deixando um filho de seis annos entregue ao avô, porque o marido havia muitos mezes que demorava pela Galliza, amaltado com jogadores de esquineta, seus antigos camaradas, uns com baixa, outros desertores.
O filho de Rosa breve tempo viveu da caridade do avô, que falleceu pouco depois. Quando Joaquim de Araujo voltou a S. Martinho por saber que estava viuvo, encontrou o menino de sete annos esfarrapado, sem amparo de parentes, a esmolar o pão e o gasalhado dos visinhos, por que seu pai não tinha casa propria, e todo o patrimonio de sua mãe estava vendido. Quem recolhera o rapazinho era um fogueteiro, o mais remoto e desprezado parente de sua mãe. O pequeno ajudava-o a afeiçoar as canas e encher os canudos para os foguetes com bastante geito e disposição para o officio. Perguntara-lhe o pai porque não fôra procurar o avô a Famalicão. O fogueteiro respondeu que lá fôra com elle quando a mãe morreu; mas que o avô dissera que estava tambem muito pobre, e apenas lhe déra estopa para umas calças, e um chapeu de Braga mais rapado que a escudela d'um cão. Lembrou-se Joaquim do padrinho; mas a morte cortara-lhe esse recurso. Foi ter-se com o filho successor na casa, a vêr se quereria protegel-o como seu pai. O fidalgo da Igreja recebeu-o com furiosas declamações contra o Bento pedreiro, a quem chamava ladrão, por que lhe pedia dois mil crusados e juros que o pai lhe ficara devendo.
N'este tempo, o irmão do honrado Joia já não podia trabalhar. Passava os dias sentado ao sol no degrau da porta, e dava alguns chorados vintens por semana a uma visinha que lhe levava as couves e a broa. N'esta situação o achou o filho, quando voltou da Corunha, trajando á castelhana, mas delatando na jaqueta safada e suja a miseria que o trazia á porta do pai. Pediu-lhe dinheiro com supplicante brandura, com muitos actos de arrependimento e promessas de reformação de costumes.
—Se poderes reformar os teus costumes, fazes bem; eu é que não posso desfazer-me em dinheiro—dizia o velho.—Tudo o que eu tinha estava na mão de teu padrinho: elle morreu, e o ladrão do filho não me paga.
—O que o padrinho lhe devia—disse Joaquim—são dois mil crusados; mas vossemecê herdou cincoenta e tantos…
—Não sei o que herdei—replicou o pedreiro—tudo o que eu tinha dei-o a guardar ao coronel, Deus lhe falle n'alma, e tudo lá ficou.
—O meu padrinho não era capaz de o roubar, senhor pai! Vossemecê está mettendo a sua alma nas mãos do diabo! Ha de morrer para ahi como um mendigo, e o seu dinheiro ha de ajudal-o a cahir nas profundas do inferno!…
No calor da discussão figurou-se ao velho que o filho seria capaz de praticar alguma violencia. Teve medo—o medo que devia ser-lhe uma agonia fulminante, se o goso de sentir-se rico não prevalecesse ás angustias de recear-se em perigo na presença do filho. Abriu com as mãos tremulas a arca, tirou um pé de meia, atado pelo calcanhar com uma guita, deu-o ao filho, e disse-lhe com voz cortada de soluços:
—É tudo quanto tenho. Recebi hontem esses vinte crusados novos dos esteios que vendi. Se queres dar-me metade, dá; se não queres, leva tudo.
Joaquim quedou-se alguns minutos a olhar para o pai com piedoso aspecto; e, depois de pensar na repartição dos pintos, ouvindo filialmente a consciencia e a razão, deliberou… não repartir nada. Sahiu com mais duas maldições tacitas, e foi relatar o caso ao Luiz Meirinho.
N'este tempo, o antigo aguazil do corregedor de Barcellos andava muito acautellado das justiças da comarca. A sua reputação de salteador de estradas estava feita; mas as provas que legalisassem a captura eram insufficientes. Os latrocinios de encruzilhada amiudavam-se na Terra-Negra, na Lagoncinha, e nas serras distantes do Ladario e Labruja. Algumas casas afamadas de dinheirosas eram assaltadas por quadrilhas que venciam pelo numero a resistencia; e, quando esses roubos estrondeavam, Luiz Meirinho e outros sujeitos da sua familiaridade nunca estavam em Famalicão ou nas aldeias circumvisinhas. Era sabido que as maltas se reuniam em um grupo de cabanas n'uma cafurna de pinheiros chamados os Ribeiraes, não longe da vetusta egreja dos templarios de S. Thiago de Antas. Ainda hoje estão em pé, mas ninguem as habita, essas choupanas execradas pela tradição de serem ahi enterrados os ladrões que voltavam mortalmente feridos dos seus assaltos.
Como quer que fosse, a maledicencia não calumniava Luiz Meirinho, nem elle por modestia escondeu do Faisca a superior cathegoria de capitão de ladrões a que o promovêra a voz publica.
Joaquim ouviu estas confidencias intimas sem pavor nem se quer estranheza. A esquineta era-lhe bastante iniciação para ser admittido aos mysterios da Terra-Negra. O Meirinho encareceu-lhe as vantagens, e desfez nos perigos do officio. Principiando pelo argumento mais insinuante a favor dos ladrões, offereceu-lhe de uma grande sacca dinheiro que elle affiançava ter adquirido sem escandalo nem effusão de sangue. Uma das suas regras de bem-viver era (dizia elle ao Faisca) matar sómente em ultima necessidade: talvez a «justa defeza» que a lei indulta. Romulo, o salteador que fundou Roma, não exhibia idéas mais benignas.
A grangearia de um bravo para a jolda foi facil. O Faisca, em uma das proximas noutes, foi apresentado na estalagem da Lagoncinha aos seus irmãos d'armas, e achou-se em melhor sociedade do que elle previra. Condecoravam a cáfila alguns sujeitos que pareciam andar n'aquella vida aventurosa por amor das impressões rijas: eram artistas, como hoje diriamos. Filhos segundos de casas honradas e coutadas desde os reis da primeira dynastia, recrutas foragidos, desertores, jornaleiros, individuos barbaçudos vindos de longes terras, facinorosos escapulidos das cadeias ou dos degredos, gentes varias, como se vê mas todos alegres, chalaceadores, bem-quistos nas aldeias por onde residiam temporariamente, liberaes nas tavernas com conhecidos e desconhecidos, armados até aos dentes, e, segundo a excellente maxima do capitão, matando sómente em ultima necessidade. A malta, por espirito de imitação, chamava-se Companhia do olho vivo. Florecera outra, com egual denominação, na côrte, capitaneada por José Nicós Lisboa Corte Real. Quarenta annos antes haviam sido inforcados os mais graduados da companhia, salvante o capitão, por que era protegido pelo infante D. Antonio, tio de el-rei D. José I. Um dos mais novos d'essa horda de ladrões, que teve um periodo de esplendor, fugindo á perseguição, ainda funccionou na malta do Minho, á qual legou o saudoso nome da outra.
A «Companhia do olho vivo» não prosperou no anno em que o filho de Bento de Araujo se alistou. O terror afastára os passageiros dinheirosos do transito por serras infamadas, e os proprietarios das povoações sertanejas mudaram para as villas e cidades as suas residencias.
No programma de Luiz Meirinho estava desde muito inscripto Bento de Araujo; mas, como ainda ha pessoas de bem, ao capitão repugnava-lhe propor em conselho que se planeasse o expediente maís plausivel na exhumação das tres mil peças do pai do Faisca. Os socios mantinham entre si estes decoros, o que não succede em todas as companhias com estatutos legalisados.
Entretanto, como a necessidade apertava, e á noticia do Faisca chegara a má nova de que seu pai, acariciado por uns sobrinhos de Gondifellos, tratava de se passar para a companhia d'elles, o capitão, forte de rasões aconselhadas pela prudencia e applaudidas por Joaquim, poz em discussão a materia, quando ao modo de obrigar o pedreiro a confessar a lura do thesouro. O Faisca tirou a salvo, porém, que o haviam de dispensar de assistir ao assalto, por que, em fim, o homem… sempre era seu pai, e o sangue gritava. Ninguem se riu na assembléa da sentimentalidade d'aquelle filho: é que as ideias grandes e fundas abalam toda a casta de alma. Foi apoiado calorosamente Joaquim, e até abraçado por um socio de Felgueiras, processado por parricida.